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Onde mora a cidade

 
A cidade não é mais minha ainda que nunca tenha sido. Desço do avião e o bafo úmido borrifa minha cara com um aroma leve que eu já desconheço ou o nariz recusa a identificar.
Mais tarde, reflito: mato, maresia, lixo, fumaça, saudade.
Atravesso o saguão, ninguém me conhece ou reconhece.
Entro no carro, nenhuma cordialidade do taxista.
Onde estão os taxistas faladores que eu tanto gostava de detestar? Este liga o player para ouvir (e ver) um show de forró. Ou seria arrocha?
Está ensimesmado no seu smartphone trocando mensagens.
Para onde eu vou?
Não sei, penso, e dou o endereço.
O carro vence o ingurgitamento, lento, lento, lento, mas chega.
Desço, recolho a bagagem.
Meu cachorro não repete o gesto do cão do Roberto. Ao invés de sorrir, espicha o pescoço altivo e olha fixo revolvendo a memória.
Chego perto e só então ele pula, faz festa.
 A casa está trancada.
Jogo a mala pelo basculante e vou caminhar nas ruas que já não me comportam.
A paisagem mudou. Novas lojas abriram. O peixeiro da esquina desapareceu. A vigilância sanitária interditou o homem que vendia vísceras num carrinho de mão. Morreu longe do trabalho que o colocava em contato com o mundo.
Onde havia uma sucata com dezenas de geladeiras velhas, quando as geladeiras eram fabricadas em várias cores, agora era uma clínica medica luxuosa, imponente. Brincávamos naquele cemitério de eletrodomésticos de guerra, pira, invasão extraterrestre, piratas, corrida de carros ou de não fazer nada e observar como a ferrugem criava desenhos estranhos e como eram bonitas as fibras que forravam a parte de dentro daquelas carcaças de lata.
Na casinha de madeira, onde o sapateiro martelava e colava solas e couros, um pet shop. Coleiras, ração, roupinhas para cachorro. A filha do sapateiro estava no balcão diligente com os fregueses preocupados com os xampus que deixam o pelo mais macio, com carrapatos e pulgas. Ela sorria nos atendimento e lembrei-me do velho, as calças de tergal cinza, sem camisa, as unhas sujas de graxa. Quem consertaria sapatos hoje em dia se ele ainda estivesse vivo?
Segui por outro caminho e encontrei um espaço vazio onde havia a ampla casa de José Luís, onde passávamos e víamos sua mãe sentada na sala, os cabelos crespos, os óculos e uma dignidade evidente mesmo parada sem nada dizer.
Lembrei das plantas que cobriam quase toda a fachada e da castanheira frondosa que nos abrigava nas tardes sem nenhuma preocupação em que estávamos todos juntos. Uma placa do CREA anunciava um novo prédio.
Para expandir e se manter viva, a cidade soterra o que foi vivido.
Na volta, a grade estava sem trinco. Apertei a campainha enquanto o cachorro fazia outra festa. Não demorou: ela apareceu com o sorriso de sempre e o abraço apertado do reencontro. Meio chorosa. Mais marcas do tempo no rosto ou eu nunca havia olhado com a atenção devida? Não fazia tanto tempo assim. As mãos mais frágeis, pintadas com manchas de sol, seguraram as minha. Estava menor também, em poucos meses, por trás dos óculos. Apertou as gorduras da minha barriga, disse que eu estava muito mais gordo. Os olhos se iluminaram com a brincadeira e compreendi que a cidade, realmente, nunca fora minha, em tempo algum, no entanto, sempre esteve tão perto escondida, quase imperceptível, nas rugas hoje acentuadas e nos gestos e afetos dos meus muitos retornos a fazer. 

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