REVISTA

Olho da Rua

Contemplou o teto do quarto. Havia uma fresta que traçava uma reta em luz em tudo obsoleta. Reergueu-se e começou a se vestir.  As meias e as roupas de baixo por primeiro. Fechou a camisa até o último botão. A calça vincada. A gravata em nó simples. Os sapatos com brilho sinistro. O paletó enlutado. Olhou-se no espelho partido. Estava bonito. Estava lindo, na verdade, como jamais esteve. Aproximou e viu as rugas. A marca funda na testa, os pés de galinha – uma granja inteira – ao redor dos olhos com bolsas cheias de micro linhas dependuradas nos cílios inferiores. As sobrancelhas espessas como as de um mascate. Em torno da boca, a dobra da pele tênue, sinal de pouco riso. Arreganhou os dentões. Encardidos de café, quase todos lá. Apreciou a cabeleira, rebelde. Estava incrivelmente velho. Uns 30, 40 anos a mais do que tinha. E se sentia à vontade, como nunca havia se sentido, nem com 30, nem 20, muito menos aos 15. Virou as costas e saiu.

A rua agressiva. Não combinava com o ânimo extraordinário. Os carros encalhados na morosidade dos ingurgitamentos. As donas de casa desgrenhadas de sacolas nas mãos. O sex appealforçoso das transeuntes nas calças jeans. Um grito distante devido a um assalto. Vendedores rotos nas portas de loja. Pedintes. Gente falando sozinha. Gente muda, catatônica, defronte às farmácias. Aflitos, à espera do ônibus, à espera de qualquer coisa. Calor, calor. O movimento contínuo, irritantemente contínuo, em nada sufocava o frescor da descoberta de se perceber confortável nas roupas que foram do pai e em uma cara idêntica a do velho. Entretanto, nem a semelhança genética ou o conforto do terno eram os motivos reais de tamanha placidez. Tampouco era a veleidade dos vetustos. O passo firme, um sorriso tênue, confundido com um esgar da gastrite não curada, tudo discreto, quase invisível.

Chegou ao destino.

Cumprimentou o porteiro. Entrou no elevador. O ascensorista não o reconheceu. Desceu no andar de sempre. A recepcionista arregalou os olhos ao vê-lo como um defunto de filme.  Beijou em longa pausa as costas da mão dela, finalmente, num cumprimento que planejara desde a primeira vez que a viu havia muitos anos. Cruzou a porta à esquerda da funcionária e encontrou o chefe. Ao contrário dele, estava mais moço que a véspera. Não fosse a preocupação costumeira, seria confundido com um colegial. O superior estancou na aparência do subalterno e passou a observá-lo com interesse genuíno. O empregado retirou o documento do bolso e pôs sobre a mesa sem dizer palavra. Virou as costas e saiu. Antes de ir embora, virou-se para olhar a recepcionista com os mesmos olhos de raio-x de todos os dias.

Ganhou a rua de novo para encontrar a cidade e os infinitos figurantes anônimos. Entregou o paletó a um mendigo, que se engalanou de imediato e iniciou um discurso para os céus. Sentou em um banco e percebeu que estava sem meias. O olho da rua corria noutros ritmo e rotação, agora a buscá-lo na tentativa de sincronia. Tudo começava, enfim, a fazer algum sentido.


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