REVISTA

O poder que as palavras não têm

 

Sempre ouvi dizer que palavras tinham poder. E por isso decidi ser escritor, pois – muito idealista – quis acreditar que minhas palavras poderiam mudar o mundo. Mas hoje, enquanto escrevo este texto, meu pai está doente e, de repente, toda a fé que tive na minha profissão se perdeu. Afinal, eu rezei bastante para ter alguém ao meu lado na hora de sua morte. Mas cá estou eu: sozinho! Meus amores me deixaram e minha mãe morreu cedo, e, embora eu ainda sinta a presença de todos, eles não poderão segurar minha mão quando meu pai der seu último suspiro.

E se essas benditas palavras tivessem poder, minha mãe estaria aqui... e eu, nessa minha vida itinerante, faria alguma das minhas muitas viagens ao seu lado e, sentados juntos no avião, eu lhe perguntaria se ela ainda me ama – mesmo após a morte – e se me acompanha de pertinho ou se me vê apenas de longe, como se nós – os vivos – fôssemos pontos brilhantes no firmamento do paraíso. E, nessa certeza, abandonaria aqueles meus atos alucinados e nunca mais ligaria para o seu antigo número de celular, torcendo para que ela me atenda... E, sozinho, no carro, com olhos cheios de lágrimas, não travaria longas conversas imaginárias, mesmo sabendo que ela está morta.

Se as palavras realmente tivessem poder, eu conseguiria voar bem rápido a ponto de me despedir da minha avó. E teria certeza de que agora ela está no céu, cuidando de minha mãe e cultivando laranjas no pomar de Deus, e fazendo picolés para vender para as crianças que morreram jovens demais. E Deus me levaria antes do programado, mas, em troca de minha ida inesperada, ele devolveria às mães desoladas a chance de verem seus filhos mortos uma última vez.

E eu não sonharia mais com meu primeiro amor. E faria o meu remorso ir embora e me perdoaria por essa mania louca de maltratar as pessoas que mais amo. E eu traria saúde de volta para alguns amigos queridos. E daria aos amigos solitários a crença de que serão muito felizes, pois Deus não teria criado pessoas tão lindas para caminharem sozinhas no mundo. E eu não teria vergonha de ainda pensar em ti... E esqueceria aquelas últimas palavras que tu me disseste, e que ainda ecoam na minha mente, como se fossem o barulho agudo de pequenas pedras sendo batidas umas contra as outras, como uma risada irritante de minúsculos duendes malignos. E pararia de sonhar que um dia te encontrarei de novo, e me entregarás algum panfleto na rua e eu te amarei à primeira vista (pela segunda vez). E eu seria mais bonito, e mais magro, e minha voz seria mais grossa, e eu escreveria tão lindamente a ponto destas palavras terem tanto poder que tu não conseguirias mais viver sem mim. Mas, ao mesmo tempo, eu uniria amantes que moram a mais de dois mil quilômetros de distância. Mesmo que tais pessoas fossem tu e ele... Afinal, para te ver feliz, eu faria qualquer coisa. E meu coração finalmente esqueceria os passos de tua coreografia imanente e não bailaria secretamente quando tu sentas ao meu lado, nem suspenderia as contrações cada vez que tu danças... Ou quando tu andas com aquele teu andar saltitado de pássaro... Posto que eu te amei, não pela tua voz, nem pelos teus pensamentos confusos, ou pela tua juventude, mas pelos teus gestos conscientes cheios de principio, meio e fim.

Se realmente as palavras tivessem poder, alguém leria estas letras e me amaria na mesma quantidade que eu te amo. E antes de terminar o texto, procuraria meu e-mail em algum canto desta página e me escreveria uma declaração de amor. Pois eu também mereço. E, ao ler estas linhas, tu me amarias de novo, e um lindo corvo despontaria em minha janela e eu o seguiria... e ele me levaria a ti. E tu estarias parado, na calçada em frente ao teu prédio (como sempre fazíamos aos domingos na hora do filme) e tu estarias segurando uma nota de cinco dólares, na qual meu nome e meu telefone estariam escritos em vermelho.

E, ao entrar no meu carro, eu não perguntaria onde tu estiveste nesses meses... Nem se o amaste mais do que a mim. Porque sei que sim! Eu simplesmente te abriria um enorme sorriso, por não haver no mundo felicidade maior do que esta de te ter de novo.

Se as palavras tivessem poder...
 


Comentário