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O impecável estilo Costanza

Texto: Bianca Borges

Imagem: Divulgação

 

A grande dama da moda brasileira tem ascendência italiana e há décadas é uma referência no meio especializado quando o assunto é estilo. Qual a receita? Nesta entrevista, a empresária e consultora Costanza Pascolato revela que, antes de escolher os acessórios, é necessário conhecer a própria personalidade

 

 


A elegância de Costanza Pascolato, considerada uma das maiores referências em moda no Brasil e no mundo, vem do berço. Há aproximadamente setenta anos, seus pais, Gabriella e Michele Pascolato, desembarcaram no Brasil após fugir com a família da Europa, em plena Segunda Guerra Mundial. Aqui, eles fundaram uma pequena tecelagem, em São Paulo, que batizaram de Santaconstancia e que hoje é uma grande empresa, com destacada presença no cenário têxtil nacional. Entre os responsáveis pelo comando da fábrica de tecidos está Costanza, que viveu na Itália até os seis anos e, mesmo no Brasil, falava o idioma da terra natal, com os pais e o irmão. Até hoje, ela preserva suas raízes, que podem ser observadas desde a escolha de suas vestimentas, de tons sóbrios e modelagens clássicas, aos objetos de sua sala de estar: dos tapetes sobrepostos que lembram os dos mercados de Veneza ao requintado lustre, feito com os tradicionais muranos italianos.

Nos anos 1950, quando era ainda uma colegial do Dante Alighieri, a escola dos imigrantes italianos em São Paulo, Costanza era frequentemente posta de castigo por mudar o uniforme. Como achava que o traje não lhe caía bem, ela subia a barra da saia, inventava novos nós para a gravata e usava o casaquinho ao contrário, só para esconder os botões dourados... Na década seguinte, ela já trabalhava na fábrica da família, ao lado da mãe, desfilando vestidos de grifes italianas pelos corredores. “A vida para mim é como alta-costura. Se virar do avesso, o que não é visto, o que está oculto, deve ser tão impecável e bem feito quanto a imagem de perfeição aparente da roupa. Nunca gostei do que é só de fachada”, compara.

Seu vestido de debutante foi um legítimo modelo Christian Dior e o do primeiro casamento, em 1962 com o banqueiro americano Robert Heffley Blocker, trazia a assinatura da renomada Balenciaga. Nessa época, ela chegou a morar no Copacabana Palace, hotel de luxo pelo qual é apaixonada até hoje, enquanto era concluída a reforma de sua casa, no Leblon. Seus círculos de trabalho, amizades e família eram o que se pode chamar de mais prestigiado possível. Ainda criança, na Europa, ela costumava brincar com príncipes como Juan Carlos, futuro rei da Espanha. Aos vinte e poucos anos, foi fotografada pelas lentes de ninguém menos que o cineasta Luchino Visconti.

Nos anos 1970, começou a trabalhar na imprensa, para as editorias de moda de publicações como a revista Claudia. Autodidata, ela demorou a pegar o ritmo da escrita – “achava que não conseguiria escrever sequer uma frase”, mas logo conseguiu deslanchar no novo oficio e, até hoje, escreve mensalmente uma coluna para a versão brasileira da revista Vogue. É essa mesma verve autodidata que a leva a experimentar as novas tecnologias. Tem perfil no instagram, seu site está sempre atualizado com as últimas tendências lançadas nas semanas de moda ao redor do mundo e mantem, no youtube, um canal, ao lado da parceira e amiga Marilú Beer, uma artista plástica argentina casada com um italiano.

Quando Giulio Cattaneo, seu segundo marido, morreu, no começo dos anos 1990, Costanza enfrentou a depressão e, em seguida, o câncer de mama. O casal havia passado mais de 20 anos juntos e ela ainda o considera o grande amor de sua vida. Em meados da mesma década, ela voltaria a amar: engatou um relacionamento com o jornalista e produtor musical Nelson Motta. Na virada do século, Costanza lançou seu primeiro livro “O Essencial – o que você precisa saber para viver com mais estilo”. Logo percebeu que poderia relacionar o estilo “da moda” ao estilo de vida, e que as pessoas precisavam também de uma orientação para se autoconhecer e encontrar a própria personalidade, antes mesmo de definir o modo como iriam se vestir. Em 2009, veio a segunda publicação: “Confidencial. Segredos de moda, estilo e bem-viver”. A aposta deu certo e, atualmente, Costanza investe em uma abordagem que alia suas dicas de moda ao humor, ao bem-estar e ao estilo de vida. Sem, claro, jamais perder a elegância. Nesta entrevista, Costanza Pascolato revela, entre outras coisas, como uma consultora de moda de 77 anos faz para se manter sempre atualizada nas tendências – dentro e fora das passarelas.

 

 

Você é uma das pioneiras de um movimento de protagonismo – de empoderamento – feminino. Empresária, mulher de personalidade e referência para toda uma poderosa indústria, como a moda. Como você avalia esse atual momento e de que forma o relaciona a sua trajetória?

Tive a sorte e o privilégio de não ter sentido grandes diferenças de gênero, por pertencer a uma família em que as mulheres sempre assumiram naturalmente uma “estatura” mais autônoma. A indústria da moda cresceu muito nos últimos anos, mas é uma indústria frágil porque depende extraordinariamente dos aspectos psicológicos e econômicos mais coletivos de cada época. Continua suscetível às ondas de otimismo e pessimismo da sociedade. E o momento atual é difícil, de ver e rever o que realmente significam as coisas. Por isso, as indústrias e as marcas estão revendo suas posições. Não relaciono esse momento com a minha trajetória. Agradeço por ainda estar na ativa, conseguindo entender não só o contexto brasileiro, mas especialmente o panorama internacional. Sigo acompanhando tudo isso por causa de uma bagagem rara. O fato de poder estar ao mesmo tempo atuando na empresa e no jornalismo é um privilégio. Forneço serviços, vejo como funciona a dinâmica da indústria e, ao mesmo tempo, tenho uma escola que é a do jornalismo, que me faz estar atenta a toda essa realidade.

 

As grandes revistas de moda passaram, nos últimos anos, a dividir espaço com as blogueiras, que se constituíram como grandes influenciadoras em moda, beleza e comportamento. Como você avalia esse movimento?

A questão fundamental é que a internet veio para revolucionar e esses são os efeitos: a facilidade de se comunicar e a abertura total da opinião, sem edição. Porque as revistas de moda ficavam dentro da opinião editorial, longe da liberdade total que você tem na internet. Cada um faz o que quer do espaço que tem, na internet. Sobretudo na moda, a questão da imagem e da referência para ser imitada é absolutamente fundamental, porque as pessoas são inseguras. É muito raro alguém realmente saber desde sempre o que vestir ou como se arrumar. Tenho falado disso nos meus livros e a gente sabe que é uma questão de autoconhecimento, que leva tempo e que tem que ser trabalhada. E hoje as pessoas parecem ter menos vontade de se autoconhecer.

O mercado da moda vem buscando, nos últimos anos, desenvolver uma visão voltada para a sustentabilidade, aliada a um sentimento de inclusão social e de diminuição das igualdades. Como você percebe essa mudança de comportamento na indústria da moda?

Melhor não fazermos um “pacote” com temas e ideias tão complexos. Sustentabilidade, por exemplo, é um conceito com o qual a Santaconstancia e minha família sempre trabalharam, com estudos meticulosos a respeito de tudo o que produzimos ao longo dos anos. Por isso a gente sabe que não há uma resposta única para a questão da sustentabilidade. É uma intenção cada vez maior e mais importante, que segue no aperfeiçoamento de métodos que surgiram com a industrialização e que hoje, com a enorme quantidade de pessoas e países consumindo, requer ainda mais atenção.

Como a indústria da moda brasileira se posiciona nesse contexto?

Quando falamos em sustentabilidade, é preciso ter uma intenção constante junto com a consciência de que não é algo que se resolve em dez ou vinte anos, inclusive porque é uma situação de uso e “saturação” de recursos naturais, que vem desde o século XIX. Inclusão social é algo sempre trabalhoso e que, no Brasil, parece se dar com mais “facilidade” por ser uma sociedade em construção, diferente das sociedades já estabelecidas. Lá fora, a nova onda migratória abala o equilíbrio que nações mais avançadas achavam que tinham conseguido. Mas isso vai dar uma desestabilizada geral também. Então, é um tempo de recomeço, em condições um pouco mais abertas do que antes.

O mercado de luxo entra nessa mesma discussão?

Esse mercado sempre quis mostrar novos caminhos. Mas como todas as outras, a indústria do luxo chegou a um patamar de excessos. É evidente que produzimos demais hoje em dia e a questão da aceleração da moda de luxo, para combater a velocidade e quantidade de ofertas do fast fashion, chegou ao ponto da discussão atual: vale a pena oferecer tanta coisa durante todo o ano? Isso não estaria, afinal, balizando tudo? É a grande questão que está no ar e nem os que comandam a indústria do luxo sabem a resposta. Há um grande debate sobre formalizar datas de lançamento das coleções. Não é que não havia esse problema no ano passado, mas explodiu agora, porque a situação é insustentável. Há produtos demais sendo propostos para o varejo. O capitalismo selvagem também criou a dinâmica e o hábito do que é descartável, substituindo tudo pelo último modelo porque o penúltimo já não serve mais. Hoje, a qualidade e a durabilidade é que são o grande luxo.

Como é sua rotina e a sua relação com os desfiles?

Minha rotina é muito variada e adoro ter coisas para fazer. Como não trabalho num lugar só, a cada dia tenho um desafio diferente, um lugar diferente, uma equipe diferente. Os desfiles são fundamentais e vou aos que consigo. É impossível ir a todos, mas procuro ir aos que são mais desafiadores para a minha curiosidade, para ver o que está acontecendo, qual é a proposta.

Como você  atualiza o seu guarda-roupa, compra peças no Brasil ou viaja exclusivamente para isso?

Hoje, atualizo menos o guarda-roupa porque tem coisas que realmente não funcionam mais... Prefiro usar um mix de coisas muito boas que já tenho, com uma ou outra peça nova, que uso do jeito que fica melhor dentro do meu conceito de estar à vontade, seja numa festa de grande luxo ou no dia a dia. Não vou vestir nada que não combine com a minha personalidade porque a maneira que você veste é também a sua linguagem. Nunca viajei para comprar roupa e compro só o que vale pena. Hoje em dia, sinceramente, prefiro não gastar muito.

Considerando a variedade de referências e informações que dispomos hoje, o que não pode faltar no guarda-roupa de uma mulher na faixa dos 30/40 anos?

O básico do básico, conforme listo nos meus livros: a calça preta, o terno, a camisa branca, o cardigã, o trench coat, o par de jeans, a camiseta e a calça de alfaiataria.

Em uma cidade como Belém, onde faz muito calor na maior parte do ano, quais são os acertos e os erros na hora de se vestir? Que excessos evitar?

Eu costumava fazer matérias de “certo/errado” na revista Claudia, nos anos de 1970/80, mas isso me parece tão antigo atualmente... O equilíbrio de cada um é a própria pessoa quem encontra. Não me sinto à vontade para falar dos excessos de alguém que vive em Belém ou em qualquer outro lugar. Depois, se uma mulher que é mais exuberante resolve fazer uma coisa que ela acha ótima, quem sou eu para dizer que não vale? Essa é a grande liberdade dela.

 

 


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