´╗┐´╗┐

REVISTA

O homem da Copa

Há dois anos no comando da Seleção, Tite mantém um discurso prudente às vésperas da estreia no mundial. A Revista Leal Moreira esteve na última coletiva do treinador antes da viagem à Russia e revela o que esperar do técnico nesta copa.
 
Junho de 2016. Metade do ciclo entre duas Copas do Mundo já se passara e o futebol brasileiro não saía da depressão. Como se o 7 a 1 sofrido dois anos antes, em casa, não fosse o bastante, o time de Dunga era constrangedoramente eliminado da segunda Copa América consecutiva, desta vez na fase de grupos e com contornos anedóticos: um gol de mão marcado pelo peruano Ruidiaz despachava a seleção. Havia um consenso no país: a fonte que produzia jogadores com fartura secara, taticamente estávamos ultrapassados, nosso futebol era um deserto de homens e ideias.
 
Por mais que parecesse óbvio, foi apenas neste momento que a CBF recorreu ao melhor  técnico em atividade no país para um plano  de emergência: classificar o time,  então sexto  colocado nas eliminatórias, para o Mundial da Rússia. Mas Adenor Leonardo Bachi, hoje com 56  anos, gaúcho de Caxias do Sul, fez algo mais. Combinou o trabalho de campo com uma aguçada percepção do momento que o país vivia. Entendeu o que a sociedade brasileira esperava. E fez da seleção, ao menos nos meses que antecedem a Copa, uma ilha de credibilidade, de difusão de bons valores.
 
- Por vezes, ia dormir pensando na hipótese de a seleção não se classificar. Isso poderia me tirar o sono. Mas meu conforto era ver o time jogar bem. Não posso prometer resultado, mas sim o compromisso com desempenho, preparação. Quero um time que represente o futebol brasileiro, que jogue com alegria - repete o treinador ao falar da sua trajetória à frente da equipe e do desafio que foi eleger os 23 que vão viajar à Rússia. - Meu maior  medo era ser injusto. E, eventualmente, eu seria. Mas com a certeza de que demos oportunidade, observamos os jogadores. Eu me senti em paz ao conversar com o Edu (Gaspar, diretor de seleções). Ele disse: "Tite, tudo o que poderíamos fazer a nível de acompanhamento de jogadores, fizemos".
 
Talvez por isso, Tite, embora naturalmente aparentasse uma dose de ansiedade, parecia convicto ao entrar no auditório da abarrotada sede da CBF na tarde do último dia 14 de maio. Lá, a reportagem da revista Leal Moreira o aguardava junto a centenas de jornalistas de todo o país. O técnico leu a lista de seus 23 escolhidos para a Copa, chegou a brincar com a velocidade com que anunciava o número, alternou respostas com o máximo de seriedade e momentos de descontração e pareceu ter explicações técnicas e táticas para cada nome escolhido.
 
Desempenho, trabalho, resgate do espírito brasileiro de jogar,  meritocracia. Tite recheou seu discurso de mensagens sobre futebol que, no fundo, dialogavam com uma sociedade que cobra novas condutas. A palavra "meritocracia" tornou-se constante. E que, no fundo, servia para definir sua chegada à seleção. O técnico que se preparou durante mais de dois anos para o cargo, que admitiu ter chorado "por uma semana" ao não ser o eleito após a Copa de 2014, mudou a metodologia de se comandar a seleção brasileira. Primeiro, foi  estudar. Na Europa, foi conhecer  métodos, como os do italiano Carlo Ancelotti, então no Real Madrid. Uma vez escolhido, deixou no passado o hábito de o treinador da  seleção frequentar a sede da CBF apenas nos dias próximos a convocações. Tite e sua comissão técnica cumprem uma jornada quase sempre superior às oito horas diárias. Visitam clubes no mundo todo, veem jogos, dialogam com treinadores, analisam dados. 
 
Outro clamor nacional, a transparência foi contemplada. Cada passo da comissão técnica foi comunicado ao público. Mas Tite logo se veria diante de um questionamento: como defender valores numa CBF que sequer publica seus estatutos no site  e cujos últimos presidentes estão cercados de acusações?
 
- Assumi um compromisso de cuidar da área técnica. Mas não deixo de defender transparência, justiça. Queremos vencer sendo os melhores, passar boas mensagens  - afirma.
 
Ao organizar coletivamente a equipe como há algum tempo  o país não via, com conceitos de jogo modernos e alinhados às práticas mais contemporâneas, viu as individualidades aflorarem. Encerrava-se um paradoxo, entrávamos num mundo mais real: afinal, como acreditar que não havia mais talento no país se, continuamente, os maiores clubes do mundo importavam jogadores brasileiros? Havia homens e ideias para se jogar futebol.
 
A seleção voltou a ter prazer de ficar com a bola, criar, jogar ofensivamente.  Ainda que a carreira de Tite tenha sido pautada por times equilibrados, seguros defensivamente. Na Copa do Mundo, em momentos críticos, talvez não seja de esperar medidas ousadas ao extremo. E a seleção, com atacantes rápidos e dribladores, é um time confortável quando desarma o rival e contra-ataca. De  uma forma ou de outra, o Brasil voltou a produzir momentos de futebol bonito.
 
- O meio-campo é a essência, onde precisamos  criar, construir. No ataque, queremos ser agressivos, com drible, o um contra um. E um time que finalize bem - disse o treinador.
 
A reta final para a Copa do Mundo trouxe obstáculos inesperados. Primeiro, a lesão de Neymar que, garantem os médicos, estará pronto para o Mundial, embora tendo ficado três meses sem um jogo oficial. Mais tarde, veio a perda de Daniel Alves, lesionado em jogo do Paris Saint-Germain. O lateral-direito é daqueles homens talhados  para jogos  em que muitos sucumbem à pressão. Não por acaso, é o maior vencedor da história do futebol, com 38 títulos.
 
- Vou sentir falta do Dani? Claro. Mas temos outros caminhos e oportunidades. Eu virei técnico do Grêmio sendo terceira  opção. A vida dá oportunidades assim. E quanto a Neymar, seremos muito mais fortes se ele estiver bem. Ele é top-3 do mundo. Mas para ele estar bem, a equipe precisará estar bem. Aí potencializa seu talento.
 
Tite estreou em setembro de 2016 na seleção, menos de dois anos antes da Copa. No início, a urgência por resultados o obrigou a apostar numa formação titular que se encaixou rapidamente. Hoje, chega à Rússia sem ter treinado da forma que desejava alternativas de jogo, como  o uso de Philippe Coutinho, meia do Barcelona, jogando pelo centro do campo e não apenas partindo da ponta direita. Ou o substituto de Daniel Alves. O futebol brasileiro, que tradicionalmente despreza os processos de construção de time em nome da aposta no individual, tornou ainda maior o desafio de Tite.
 
No entanto, o maior produtor de talentos do planeta impõe tamanho  respeito que  bastaram meses de bom futebol coletivo para o mundo recolocar o Brasil no papel de favorito. Tite não renuncia ao rótulo.
 
- Respeito a verdade de cada um. A minha verdade é: o Brasil é um dos favoritos, sim. Pelo futebol que tem apresentado, pela consistência.
 
Da decepção de 2014 à conquista da vaga na Copa,  Tite agora se vê diante do sonho.

Comentário