REVISTA

O futebol do país

Senhor, muito obrigado, estou livre! Eu posso seguir em frente, eu sou capaz e não ficarei preso a essa vergonha. Tenho um futuro brilhante, possso sentir: verei minhas filhas crescer, nadarei em águas tranquilas, envelhecerei ao lado da mullher que amo, não pensarei em nada que possa me turvar a mente. Serei forte, superarei todos os traumas do passado, seguirei os 12 passos do TA (Torcedores Anônimos) e, enfim, serei outra pessoa.

Quando encontrar um argentino, nem vou me importar se ele rir, apontar pra mim e ficar gritando: macaquito, macaquito, macaquito! Sou outro homem, capaz de superar provocações de espíritos inferiores.

Afinal, foi só um apagão, nada que vá mudar minha vida. Tenho em conta, Senhor, que sete menos um é seis, o número da Besta, então isso foi coisa do Demômio, do Inominável. Não vou cair em tentação, não deixarei que ele me provoque.

Isso é só um esporte, um jogo, alguém sempre vai perder pra que outros ganhem. O país continuará o mesmo, vamos seguir nosso destino de Gigante Adormecido, de País do Futuro (até por isso não podia ser agora).

Penso em quanto eu estava entorpecido. Cheguei a consultar o cardiologista pra saber como colocar o coração na chuteira. Eu achava que bastava isso, treinar, estudar, trabalhar, nada disso importava se o coração falava mais forte.

Cheguei a perder a paciência com minha mulher quando no meio do jogo reclamava do Fred e ela replicava:

- Por que tanta raiva? Ele não fez nada.

Hoje, peço desculpas a ela, vejo que tinha total razão e me puno pela minha insensibilidade.

Percebi também que fui muito intolerante com o Felipão, até o pessoal do funksabia que ele tinha um esquema tático bem definido: bola pro Neymar é gol! Então, não foi culpa dele se aquele colombiano insensível e insensato detonou a coluna do nosso Camisa 10.

Ah, cantar o hino à capela, quanta emoção! Nós que inventamos isso em Belém e o Brasil inteiro copiou, um produto genuinamente Made inPará. Agora vejo que isso foi apenas euforia provocada pelo vício, eu estava viciado senhor.

Estou curado, tenho certeza que o caminho agora é fazer como a Alemanha, ressurgir do fundo do poço, trabalhar, treinar, preparar, mudar esquemas viciados, acabar com a corrupção, cuidar dos nossos clubes, mudar a mentalidade dos dirigentes, preparar o futuro. Claro, também trocar de técnico. Sai Felipão, entra... Dunga.

Acho que vou ter uma recaída.


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