REVISTA

O espelho da madrasta

Texto: Celso Eluan

Ilustração: Felipe Moia

Recebi um vídeo de um amigo com a seguinte legenda: “Vejam o teatro da Covid. Construção de um cenário para espalhar o pânico na sociedade através da grande mídia”. As imagens mostravam uma UTI sendo montada em um estúdio com toda equipe técnica e atores.

Não quero entrar no mérito de confirmar a realidade, gostaria de aproveitar para um exercício retórico apenas. Imaginemos que um outro amigo me mande o mesmo vídeo com outra legenda: “Vejam como querem desconstruir a realidade. Montaram um estúdio para simular um hospital de verdade e assim desacreditar todos os números da Covid e a lotação dos hospitais, fazendo-nos crer que é tudo empulhação”.

Agora imaginemos que o mesmo cenário foi de fato montado por uma agência de publicidade para fazer uma campanha para algum governo, prefeitura ou mesmo o Ministério da Saúde. Ou ainda, que seja uma cena de um filme ou série de ficção que foi aproveitada por um dos lados para justificar sua narrativa. 

E aqui entramos no cerne da questão: a guerra de narrativas. Aliás acho que o Dicionário Oxford deveria considerar esse vocábulo como Palavra do Ano, pelo menos nestas terras tupiniquins. Os extremismos levaram a construções de narrativas que poucos ficcionistas seriam capazes de imaginar, culminando com a reprodução descontrolada de fake news (palavra do ano em 2017).

Enquanto os lados se digladiam a vida real cobra seu preço já na casa de centenas de milhares de vidas. Mas até isso pode ser usado por cada um dos lados para fustigar o outro provocando no confronto a banalização das vidas destruídas, resumidas em números como numa guerra. A primeira morte gerou comoção pública, a primeira centena ou primeiro milhar idem. Depois disso parece que nos anestesiamos e passamos a fazer um mero acompanhamento contábil dos casos, mortes, taxas de ocupação de UTI, leitos disponíveis, curvas de contaminação, pontos de inflexão e tantos outros indicadores. A Matemática e a Estatística nunca estiveram tão proeminentes.

 Até que a morte venha até nós, como Bergman a trouxe para um jogo de xadrez em “O Sétimo Selo”. Quando atinge alguém próximo a realidade invade a guerra de narrativas e cobra seu preço. Nessa hora a empatia renasce e percebemos a dor que está em milhares ou até milhões de rostos. 

Lembro de um filme que me tocou profundamente: “Johnny Vai à Guerra” de Dalton Trumbo, diretor e roteirista. Nele um soldado da primeira guerra se descobre inválido numa cama de hospital sem braços, pernas, visão ou fala. Ele não consegue perceber se está vivo ou se aquilo é uma visão do inferno e se debate apenas com suas lembranças e sem conseguir se comunicar com o mundo exterior. O terror das guerras com seus incontáveis mortos e mutilados é resumido num único personagem. Deixamos de ver números para acompanhar o drama de uma única pessoa, de uma única vida, que poderia ser a sua ou do seu pai, irmão ou alguém muito querido.

Curiosamente Trumbo foi um dos artistas mais perseguidos no Macarthismo e este foi o único filme que dirigiu bem depois da perseguição, antes era apenas roteirista de sucesso em Hollywood e ficou proibido de trabalhar por anos. A forma como ele colocou seu personagem para representar todas as vítimas das guerras não deixa de ter pra mim um toque autobiográfico do autor, também incapaz de ser compreendido e sem compreender o mundo que o cercava quando era perseguido pela guerra ao comunismo nos EUA dos anos 50.

Da mesma forma essa guerra de narrativas produz mais vítimas do que haveria se houvesse uma união em prol da vida, mas isso não é possível porque cada grupo tem sua verdade, sua doutrina, sua religião. Esse sectarismo está nos colocando no palco do mundo com esse teatro espalhafatoso que só produz mais vítimas e cada um tem certeza de estar defendendo a verdade absoluta.

E como resolver? Na falta de uma resposta contundente fico com a poesia do grande Zeca Baleiro em Dindinha: 

 

A Mentira é uma Princesa

Cuja beleza não gasta

E a Verdade vive presa

No espelho da Madrasta


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