REVISTA

O bom designer à casa torna e se transforma

 

 

Marcelo Rosenbaum sabe bem o seu papel no mundo e a importância de se reconectar com os saberes ancestrais para evoluir

 

 

 

Transformar é sem dúvida a palavra que melhor define Marcelo Rosenbaum. Não por estar contida na essência e no nome do projeto que conduz a sua carreira atualmente, mas por ter sido determinante em toda a sua trajetória. Designer e arquiteto, Marcelo transforma o mundo ao mesmo tempo que transmuta a si mesmo, sempre inspirado por pessoas e o espaço.

“A minha maneira de me comunicar com o mundo foi sempre através do espaço. Desde criança eu olhava e imaginava a casa das pessoas. Eu morava num bairro residencial que estava crescendo e eu ficava passeando por essas casas, por essas obras, imaginando como eram essas pessoas que viviam lá dentro. Ficava imaginando personagens, histórias a partir do espaço, então de alguma forma esses dois elementos sempre estiveram presentes na minha vida.”

 

 

 

Nascido em São Paulo, Rosenbaum saiu da faculdade de arquitetura no penúltimo ano para viver um período de muito aprendizado ao lado do designer alemão Andreas Weber. “Era época do Plano Collor, eu comprei um livro dele e resolvi mandar uma carta pedindo um estágio. Eu pedi para o meu avô, que saiu da Alemanha na década de 40 e que tinha um alemão arcaico, traduzir essa carta que eu havia escrito em português. Quando o Andreas abriu a carta, nos anos 90, ele achou uma coisa hilária. Como alguém ainda falava aquele alemão? Ele quis me conhecer e aceitou o meu estágio”.

 

 

Foi um ano de imersão no qual o designer aprendeu profundamente sobre projeto, materiais, desenho técnico, o design industrial em si. Tanto aprendizado, culminou no abandono da faculdade. “Quando eu fui pra Alemanha eu já estava com o escritório, já tinha peças. Era o início de uma nova geração de designers que estavam começando a fazer produtos na própria casa. Tava começando a borbulhar essa opção. Era o início dos irmãos Campana, Gerson e Luciana, uma galera que está até hoje no mercado.”

 

Em busca de raízes

Entre os primeiros trabalhos, o convite para fazer a co-curadoria e cenografia da primeira exposição do design brasileiro na Feira de Design de Milão, junto a Marili Brandão. Chamada de “O Brasil faz design”, a mostra apresentava um apanhado da produção nacional em design gráfico, de produto, de mobiliário, de vinhetas para televisão, entre outros. “Eu entrei em contato com todas essas pessoas do Brasil, que trabalhavam com esse olhar, com esse fazer. Foi muito forte.”

Trabalhar com referência à cultura brasileira sempre fez parte do seu repertório. E nunca foi difícil perceber esses elementos nas peças e projetos assinados por Marcelo. “A minha brincadeira sempre foi fazer essa ponte, trazer coisas que muitas vezes são julgadas pela estética. Eu invertia e apresentava isso como uma nova possibilidade de abordagem, de olhar. Era uma maneira de levar luz para quem está lá esquecido, sendo, enfim, julgado por uma estética. Eu tentei usar essas estratégias de anular esse julgamento do que é feio, do que é bonito.”

 

Junto ao resgate cultural, a funcionalidade e o propósito também guiam o seu trabalho. A inspiração maior é o contexto no qual um projeto ou objeto se insere, sem preciosismos. “Eu não me coloco como designer de um produto que tem que ter uma autoria minha. Não quero imprimir uma autoria minha. Eu penso o design como serviço. E hoje com mais clareza é um serviço para a humanidade. É usar o design como ferramenta, contextualizando para que ela vai servir e em que meio ela se insere.”

Para ele, especialmente hoje, o momento é de enaltecer o que nós brasileiros temos e assumir isso como beleza. “Além da gente não valorizar, a gente não sabe valorizar. O diferente não é exótico. O Brasil muitas vezes é reconhecido pelo exótico, o que é um que é um equívoco porque ele é só diferente. O exótico afasta, né? E a gente olhar para o diferente como beleza e como oportunidade, ele pode ser vendido como uma economia criativa, como oportunidade.”

 

Agentes de transformação

Partindo dessa premissa e das experiências acumuladas ao longo da carreira, inclusive do período em que esteve em frente às câmeras, Marcelo Rosenbaum tem se dedicado quase que 100% ao projeto de sua vida. Com o Instituto “A gente Transforma”, busca a valorização de comunidades tradicionais e o reconhecimento dos saberes que estão sendo desperdiçados. “A partir de uma inquietação minha, que é da minha personalidade, fui questionando: o que é que eu estou fazendo aqui nessa existência? E aí nasceu o “A gente Transforma” com essa vontade de colocar em movimento tudo o que eu tava aprendendo e evoluindo.”

 

O manifesto ou movimento é um instrumento de abordagem e transformação social, que trabalha com três pilares: a ancestralidade como vocação, entendendo que todo mundo tem uma vocação, todo mundo é empreendedor; a beleza enquanto concepção de que o diferente é belo; e a sustentabilidade enquanto conceito de se sustentar a partir do que se tem, do que se sabe fazer. “A sustentabilidade traz liberdade, autonomia. Se você imaginar a sustentabilidade a partir da sua própria vocação, de se enxergar, de ser reconhecida pelo outro como beleza, a gente se conecta com um movimento muito potente, econômico e em lugares que tem muita pouca oportunidade.”

 

Marcelo participa de uma verdadeira imersão em comunidades, no que nomeia de “Brasil profundo”, em busca de possibilidades e oportunidades. “Nossa ferramenta é o design, que é o que a gente sabe fazer. Mas o design enquanto processo, enquanto forma de se relacionar, como forma de enxergar o outro como uma parte de você. A gente incorpora e coloca algo no mercado para que essas pessoas se reconhecerem através desse objeto e serem valorizadas. Isso gerar economia para as pessoas.”

 

Reconectado com a natureza

Da imersão, que não tem período certo para começar ou terminar, Marcelo passa a entender um pouco mais sobre pessoas, lugares, tempo, saberes, ancestralidade. “É um grande aprendizado. Como eu não sou formado no “ensino formal”, eu me coloco como um estudante, sempre. Eu vou para esses lugares aprender, eu estou sempre aprendendo, e acabo encontrando grandes mestres. Você aprender com pessoas que vieram da escola da vida, que têm uma conexão absoluta com a própria natureza, pois geralmente nesses lugares remotos a pessoas têm muito saber daquilo que a gente perdeu, que é a própria natureza, o processo, o movimento, o tempo dessa natureza, o se conectar com os elementos da natureza.”

 

Do envolvimento com o “A gente Transforma”, Rosenbaum ressalta que o momento é de retornar às origens, de refletir, se livrar de julgamentos impostos pelo mercado e por nós mesmos. “Muitas vezes quando a gente vai para uma comunidade, se você ficar pensando muito num contexto que é fora daquilo, você perde a oportunidade. Porque muita das vezes desenhar ou criar algo pode ser para própria comunidade e não para o mercado externo. (...) O criar um objeto não é uma autoria e sim um entendimento de serviço.”

 

Para Marcelo, a gente vive num momento de pouco diálogo, mas de uma tendência a um consumo consciente e de integração com a natureza. “Acabou o espaço de diálogo, de conversa. As coisas estão muito partidas, separadas. Tem pessoas que acreditam em tudo isso o que eu tô falando e tem gente que acha uma besteira, que quer consumir mesmo, ter coisas, criando pasto, derrubando as florestas, consumindo sem parar, mas isso é permitido. (...) O meu norte é a minha grande tendência atualmente. Não posso falar do mercado geral, pois é muito amplo. Existe uma grande tendência como comportamento é a gente se integrar com a própria natureza, fazendo parte do todo, de todos os movimentos com responsabilidade.”

 

 

 

 

 

 

 

  

 

 

   


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