REVISTA

Nouvelle Vague

Texto: Leila Loureiro

Ilustração: Felipe Moia

E lá se vai um ano de pandemia. Diante de tantas perdas lá fora, “encasular” foi preciso. Aqueles casulos preparados às pressas, na marra. Doído, apertado, sufocante, mas que transformam lagartas peludas em borboletas com lindas asas azuis.

A sensação é a de estar no purgatório, agonizando no processo de castigo e purificação. “Que bom que aproveitei muito a minha vida. Fui uma feliz”, penso. Espero ser perdoada no juízo final e ressuscitada em pleno carnaval.

Dizem que na hora da morte passa um filme na nossa cabeça, e nesses meses em que a vida foi suspensa, eu me pego, vez ou outra, fazendo uma retrospectiva da minha existência. Meu inconsciente vira uma grande ilha de edição, com uma câmera de mão e cortes inovadores. Cenas reais, nuas e cruas, como a nouvelle vague de Jean-Luc Godard.

Me vejo com a barriga pintada de açaí ao tomar um picolé na Ilha de Mosqueiro. Quatro anos de idade, talvez. Eu ainda sinto aquele gosto de sabor marajoara. Corta. Vem o take na fazenda do meu avô no interior do Pará. Passeios de canoa por igarapés gelados, depois o almoço inesquecível do fogão a lenha da “Tia Mocinha”.

Corte seco para o primeiro beijo aos 13 anos, eu e ele, cada um montado em sua bicicleta numa rua escondida. Fechei os olhos e senti o baque nos dentes. Não calculamos bem a velocidade. Dois meliantes praticando a contravenção do primeiro romance.

Depois veio a aprovação no vestibular, cantando Pinduca, cheia de ovos na cabeça. Em seguida, o primeiro porre de “superAfrikan”, a bebida verde anil que me fez respeitar destilados para sempre. E o filme segue com um “plano sequência” que inicia na chuva da tarde e vai até uma cuia de tacacá quentinho, sem goma e com muita pimenta. Que cena bonita!

O filme parou no meio. Me pego no agora, no Rio de Janeiro, onde vivo há 10 anos. Outras cenas, outro dia eu conto. O tempo agora é de luto, mas nunca foi tão importante saber viver. O casulo começa a romper pra dar vida ao que vai chegar, depois que tudo isso passar. Vem aí uma Nova Onda, dessa vez cheia de vacina, respeito, verdade e misericórdia.


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