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Notável Zaha

No dia 31 de março de 2016 o mundo foi surpreendido com a notícia da morte repentina de Zaha Hadid. Aos 65 anos de idade a arquiteta morreu em um hospital de Miami, nos Estados Unidos,  vítima de um ataque cardíaco, e deixou para a humanidade um legado sem precedentes através de formas significativas, estimulantes e revolucionárias que mostram o mundo como um lugar otimista, belo e ousado.

 Zaha nasceu em Bagdá, capital do Iraque, em 1950 e antes de iniciar a trajetória de sucesso no universo das construções e arte, estudou matemática na Universidade Americana de Beirute e arquitetura na Architectural Association, em Londres. Sete anos depois, fundou o próprio escritório em Londres — Zaha Hadid Architects.

 

 

Dona de um estilo elegante, marcado pela ousadia nas formas e no movimento, Zaha foi uma das principais expoentes da chamada corrente desconstrutivista de arquitetura, caracterizada por projetos não lineares e pela fragmentação de elementos e estruturas, que vão de encontro a diversos princípios da arquitetura clássica. Tanto que em 1988, o Museu de Arte Moderna de NY incluiu o trabalho de Hadid em uma exposição coletiva junta com Philip Johnson e Mark Wigley com o título ‘Desconstructivist Architecture’.  

O reconhecimento internacional de seu nome e estilo foi impulsionado pela Vitra Fire Station, em Wheil Am Rheim, na Alemanha, o primeiro grande projeto de Zaha. Um complexo formado por uma série linear de paredes que parecem deslizar umas sobre as outras.  Outros projetos, não menos notáveis são a Puente Pabellón, em Zaragoza, na Espanha onde a planta tem a forma futurista; o Centro de Arte Contemporânea, em Ohio, em onde as galerias dão a impressão de “flutuar” sobre o hall de entrada. A diversidade também é uma marca do trabalho de Zaha. Um outro projeto tão impactante  é a pista de esqui Bergisel, na Áustria que virou símbolo da cidade e  é considerado o projeto mais moderno do mundo deste gênero. Ele é dividido em uma torre vertical, que  se integra a uma rampa dimensional e ao restaurante.

O talento original e surpreendente também pôde ser mensurado em 2007, quando Zaha Hadid criou o Mobile Art Pavillion, um museu desmontável (isso mesmo, desmontável!) de 720m². Encomendado pela Chanel, o projeto nasceu da ideia do estilista Karl Lagerfeld em fazer uma exposição itinerante com trabalhos e experimentações de artistas inspirados pela famosa e cobiçada bolsa 2-55 da grife. O museu percorreu o mundo, foi de Hong Kong à Nova Iorque antes de chegar em Paris. O Centro Aquático de Londres, criado para os Jogos Olímpicos de 2012, é outro marco na trajetória da arquiteta. O ambiente representa bem outra característica marcante no trabalho de Zaha: o futurismo em suas obras.

O que há de comum em todos? São projetos marcados por uma arquitetura que “transforma as nossas ideias do futuro a partir de conceitos espaciais visionários definidos por processos de design, pesquisa de material e construção avançados”, como definiu o próprio escritório de Zaha na nota em que confirmou o falecimento da arquiteta.

 

 

É inegável que muito da obra da arquiteta é conceitual, o que não a impede de influenciar profissionais no mundo inteiro, mas alguns projetos de Zaha, embora premiados, foram considerados “difíceis demais” e não foram construídos. Foi o caso do Peak Club de Hong Kong, em 1984, e da Cardiff Bay Opera House, no País de Gales, em 1994.

Prêmios

2004 foi um marco para Zaha Hadid. Ela se tornou a primeira mulher e primeira muçulmana a receber o Prêmio Pritzker, equivalente ao Nobel da Arquitetura. Neste mesmo ano, foi eleita pela revista Forbes como 69º mulher das ‘100 Mulheres mais Importantes do Mundo’.

Venceu também, por dois anos consecutivos, o importante prêmio britânico Stirling: em 2010, com o projeto do Museu MAXXI em Roma; e 2011 com o projeto do Evelyn Grace Academy. Também foi indicada pela revista Time, neste mesmo ano, como “pensadora influente”, e apontada pela The British como a 42ª das ‘150 pessoas mais influentes do mundo’.

 A lista de reconhecimentos é extensa: vai da condecoração com a distinção de Ordem do Império Britânico, título de cavalaria concedido pela excelência de seus serviços no campo da arquitetura, ao Prêmio Imperial, do Japão. Ela também se tornou Membro Honorário da Academia Americana de Artes e Letras e membro do Instituto Americano de Arquitetura.

 

 

Design e moda

 A última peça de design criada pela superarquiteta foi destaque no Salão do Móvel de Milão. A escultural mesa  Mew  foi concluída poucos dias antes de seu falecimento e marca sua contribuição derradeira para o universo do design. Além de móveis, eladesenvolveu projetos em uma escala muito menor, como torneiras, luminárias e até mesmo sandálias. Aarquiteta de designs futurísticos assinou uma coleção da famosa marca de calçados Melissa, em que a própria marca disse ser uma criação que “transcende a ideia de ser apenas um sapato,  é uma obra arquitetônica para os pés”.

Em 2015, o astro da música pop Pharrel Williams e a Adidas Originals lançaram uma série de tênis feitos em colaboração com a arquiteta Zaha Hadid. Nomeada de Supershell, a coleção deu o que falar pela originalidade: cada pé possui uma  estampa diferente.

O mundo da moda tem atração pelo trabalho de Zaha Hadid, tanto que ela  também tem projetos com a Lacoste, Swarovski e Louis Vuitton.

Brasil e Niemeyer

Desde muito jovem, Zaha Hadid teve a oportunidade de viajar pelo mundo com seus pais e descobrir traços que influenciariam seus projetos. Ao longo da vida, deu várias entrevistas falando sobre admiração, respeito e influencia do arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. Zaha chegou a declarar que Niemeyer é o precursor da geração que explora as formas curvas e fluidas. “A impressão que dão os projetos de Niemeyer é que saíram de um único traço, sem esforço, sem interrupção, sem necessidade de corrigir”, disse a iraquiana ao jornal El país em agosto de 2015.

 

 

Os dois arquitetos nunca trabalharam juntos, tampouco Zaha deixou seu talento concretado no Brasil, mas desde 2013 estava desenvolvendo um projeto no Rio de Janeiro. Trata-se do edifício Casa Atlântica, previsto para ser erguido em frente à praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, no terreno da antiga Casa das Pedras, a última casa da Avenida Atlântica.

Para aceitar elaborar o projeto no Brasil, Zaha exigiu liberdade na criação. Detalhes do projeto foram divulgados no início deste ano, mas ainda não há previsão para a obra sair do papel. O edifício de luxo teria onze pavimentos e 65 apartamentos com uma fachada cuja imagem remete a uma espinha dorsal. Há ainda uma bela piscina na cobertura, afinal a vista não pode ser desperdiçada.

Os desenhos curvilíneos, influenciados por Oscar Niemeyer, são característicos do trabalho de Zaha Hadid, e assim ela conseguiu fazer um cruzamento de tempos culturais diversos, trazendo para o presente o que se imaginou para o futuro. Um universo que só pertence a ela.


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