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REVISTA

Nequaquam minima est

A entrevista com Aurélio Meira, arquiteto paraense, vinha sendo há muito almejada. Tivemos vários encontros informais, que sempre nos incentivavam a buscar coincidência das agendas e finalmente ela aconteceu. Tendo como cenário o café da SOL Informática e, ao fundo, o belo quadro do artista plástico (e também arquiteto) Jorge Eiró em que a vista de Belém, a partir da estação espacial Atlantis, é retratada, Aurélio Meira conversou com a Revista Leal Moreira sobre os caminhos e possibilidades que conduzem a capital paraense a celebrar – de fato – os seus quatro séculos de existência. Era para ser uma entrevista, que virou uma verdadeira aula – natural que fosse assim, já que Aurélio é filho de Augusto Meira Filho, historiador que, em vida, dizia ser “eterno namorado de Belém”. Paixão consaguínea e que atravessou gerações, como você há de ler a seguir, em mais uma das matérias da série “Belém rumo aos 400 anos”.

 Católico, sem precisar dizer isso, Aurélio Meira é pura emoção e os símbolos de sua devoção estão com ele o tempo todo: seja em um discreto escapulário, ou na fitinha de Nossa Senhora de Nazaré – gasta mas firme – em seu pulso ou nas referências que faz a Belém (sobre quão abençoada é Belém, “desde seu batismo”). A frase latina, inscrita no brasão de nossa cidade, citada por Meira, “nequaquam minima est” (de modo algum és a menor) foi tirada da profecia de Miquéias, relacionando Belém do Grão Pará com sua homônima Belém da Judeia.

Aurélio, quero falar contigo sobre a Belém dos nossos sonhos, de outrora. Não queremos falar de problemas – não somente. Queremos dar ideias. Queremos tentar, no campo das ideias, apontar e trocar ideias, soluções. Hoje quero falar não somente com o Aurélio arquiteto, mas com o citadino. O homem de ideias e opiniões formadas e fortes sobre o cotidiano da cidade.

Às vezes de maneira certa, as pessoas transcendem as coisas boas. O contrário também vale: de maneira certa, transcendem as coisas erradas.

Todo planejamento é tão perfeito, quanto for flexível...

Exatamente! Falaste em ideia. Taí um substantivo interessante. Quando fazia o magistério, eu dizia para os meus alunos que trabalhar com as ideias representa essencialmente o insumo básico de transformação de uma realidade. Às vezes a gente passa até a fazer uma releitura de fatos já consolidados e consagrados e nesta releitura surgem essas novas ideias que vão te ajudar a mudar a realidade e buscar aquilo que tu realmente desejas. Então, a nossa querida Belém tem uma coisa extraordinária e nisso cabe uma reflexão:

Primeiro porque é o seu próprio batismo. Belém foi batizada e que muitos chamam de Santa Maria. Meu pai, o saudoso historiador Meira Filho, preconizava que a cidade não era Santa Maria de Belém do Grão Pará e sim “Nossa Senhora de Belém do Grão Pará”, porque Santa Maria de Belém, quando de seu batismo, foi buscar a Belém da Judeia. Ela se inicia com a consagração de Nosso Salvador. Ela já nasce grandiosa; posicionada pela natureza, riquíssima de riquezas naturais e aqui se ergueu sua primeira ermida. Em uma pequena retrospectiva histórica, para que possamos desenvolver bem essa questão do que é Belém hoje, o que poderá ser e o que foi. Belém é, talvez, a mais interessante das cidades com características portuguesas no Brasil. Se nós observarmos a sua história, Belém tem na sua história os três períodos mais importantes da sua era: colônia, império e república. Em cada um desses períodos, ela obteve, com certeza de seus gestores, o esforço em transformá-la em uma grande cidade.

Belém se preparou e ergueu prédios públicos como o belíssimo Palácio Landi, o atual Museu Histórico do Pará porque a Coroa talvez tivesse até interesse em se estabelecer em Belém (houve pretensões), mas que acabou se concretizando no Rio de Janeiro.

A Belém colonial foi extraordinária. A Belém império foi extraordinária, porque foi nesse período que vivemos o auge do ciclo da borracha e era possível oferecer ao seu cidadão uma qualidade de vida diferenciada. Creio que quando Lemos assumiu a intendência, ele também tivesse esse mesmo espírito voltado para o futuro, contemplando muito mais os acertos que os erros. Eu acho que toda vez que um gestor assume o executivo, eu comparo com aquilo que Lemos também deveria ter em mente quando assumiu a intendência pela primeira vez: a gente sempre espera que os planos aconteçam de forma positiva para a cidade.

Onde foi que ele errou?

Me permitam fazer uma crítica ao nosso apaixonado Lemos, que era futurista, que embelezou a cidade. Ele pecou em um aspecto: na transição para as terras altas, ele não pensou nas baixadas. Ele fez grandes obras, criou belíssimos espaços urbanos, criou um bairro planejado, que é o bairro do Marco. Mas e as transições? O que ele pensou para Fátima, que era uma baixada, para o Igarapé das Almas, as áreas de periferias ao longo dos rios. Esse foi o único ponto negativo que o Lemos teve, embora ele tenha sido um grande gestor na visão de urbes para Belém. Com a decadência da borracha, nós vivemos um período difícil de transição na economia. Pela própria história a gente não vê projetos audaciosos, e mesmo de recolocação no cenário brasileiro. Belém passou a ter efetiva participação mais federativa já com o advento de Brasília, porque tínhamos dificuldades de transporte, problemas de acesso e relacionamento com o núcleo principal, que era o Rio de Janeiro. Esse período foi recessivo, por conta do contato ineficiente com a capital.

Com o advento de Brasília, houve um investimento mais maciço em cima da nossa região e, claro, Belém foi beneficiada. Eu me recordo de ver a Avenida Nazaré ser pavimentada em 1962, quando os paralelepípedos foram suprimidos pelo asfalto. Não significa que o asfalto era a melhor solução, mas de qualquer maneira era sinônimo de modernidade, mas foi nesse período que os recursos começaram a chegar, até para suprir as necessidades públicas: infraestrutura, saneamento, educação...

A Belém do futuro precisa de soluções simples, mas eficazes; que o nosso gestor tenha o poder de decidir sobre o que é correto, aquilo que é o certo, fazendo uma associação de fatores que possam nos conduzir a um futuro mais generoso.

O futuro mais generoso começa com a elevação da autoestima do nosso povo?

Muita gente comenta que a gente precisa elevar a autoestima do povo. Não penso assim. Penso que temos que elevar a autoestima da cidade. Pensar que Belém já foi considerada umas das cidades mais verdes do país e atualmente figurar entre as que menos arborização tem, é muito triste. Porque o poder público, não só em suas atividades constitucionais, as parcerias público-privadas e as da atividade privada são as que fazem a autoestima da cidade florescer. A Belém, que tem muita coisa boa no seu presente e que conserva um legado precioso do seu passado, mas pensando no futuro, a matriz de envolvimento sentimental entre o poder público e o privado tem que pensar na cidade para o futuro, elevando sua autoestima. E eu não tenho dúvida de que seu povo vai absorver isso. Eu ouço as pessoas comentando que falta educação ao nosso povo. Não vejo assim também. Mas é que ele sabe que aquele ente público que deveria ser responsável também não está cumprindo com sua obrigação e aí, pela sua indisciplina, ele também não cuida.

Então estás me dizendo que é um círculo virtuoso. Se o poder público funciona bem, teremos um povo engajado?

Ah, não tenho dúvidas. Deixa eu te dar um exemplo bem doméstico. Se entras na tua casa e ela está toda arrumadinha – pode ser uma casa simples – e a infraestrutura dela está funcionando toda perfeitamente, a tua autoestima está elevada e os que estão ao teu lado, vão respeitar a qualidade do teu espaço. Os que forem te visitar vão ser inspirados pelo teu modelo de organização. Percebe? A autoestima aumenta. É sinal de que estou exercendo minha função como ser humano e cidadão para comigo, minha família e os que me cercam. A cidade é uma casa; se eu tiver os jardins bem cuidados, os equipamentos públicos funcionando, os serviços públicos essenciais, da melhor forma possível. Se eu ando na cidade e me sinto qualificado e respeitado no direito de ir e vir, se eu tenho calçadas niveladas e conservadas, se o paisagismo urbano me traz bem-estar. Se eu percebo que meu semelhante cuida bem do espaço particular... essa é a cidade que a gente sonha, não é?

E a participação público-privada?

Vou te dar um exemplo prático, pegando o boom da construção civil na cidade. Uma edificação é um monumento para a cidade – porque se propõe a ter um projeto paisagístico, porque trabalha o entorno. E por que numa situação dessas, não houve um grande pacto determinando que as calçadas sejam padronizadas? Que o meio-fio seja também padrão? Esse pacto é uma parceria público-privada.

Seria perfeito que houvesse um pacto dessa natureza pela iluminação das frentes das casas...

A iluminação pública! Outra parceria que seria muito bem-vinda seria a prefeitura pedir à empresa concessionária de energia que modernizasse as instalações, trocasse os fios de alta-tensão por outros, os trefilados – esse gesto nos permitiria, por exemplo, replantar nossas mangueiras, regenerar nossos exemplares centenários ou qualquer outro tipo de árvore frondosa. Nossos ipês são maravilhosos para o paisagismo urbano! Eles embelezariam certamente nossas ruas. Mas não dá! Porque tem a luz, porque o cidadão vai lá e corta de qualquer jeito. Já que seria muito caro transformar a alta-tensão em subterrânea, pelo menos o uso do trefilado permitiria o paisagismo urbano. É uma ideia simples. Com simplicidade, a gente consegue transformar uma realidade com ideias simples. A gente tem que ser audacioso, precisa re-estudar a cidade de uma forma responsável.

E a travessia para o Combu – 300 metros depois do Acará? O crescimento de Belém para além da cidade, em direção das ilhas, a exemplo do que nossa vizinha Manaus fez também – o que achas?

Vou fazer um registro para ti, porque não deves lembrar, já que és muito jovem. Belém tem um privilégio enorme em ter ilhas lindas, virgens. De 1971 a 1975, governava o Pará o Fernando José Guilhon e o Dr. Guilhon tinha um relacionamento muito próximo com o governo japonês e foi um dos governadores com mais visão de futuro que já tivemos. Pergunte ao Alcyr Meira, que pode contar melhor essa história. O governo japonês financiava naquela época uma ponte que ligava continente a continente, a exemplo do que o Dr. Almir Gabriel fez com a Alça Viária, mas aqui em frente de Belém, passando pelo Combu. O Alcyr chegou a fazer o planejamento de um bairro, de uma área residencial sobre essa ilha.

Então o projeto já existe...

Existe e não aconteceu, creio, por questões políticas. Penso que deve existir essa expansão, porque Belém não tem mais para onde expandir, mas igualmente, é um projeto que precisa de muito estudo. Nós temos que analisar, estudar profundamente as condições tipológicas e topológicas dessas ilhas e os potenciais de preservação do ecossistema, para que haja uma ocupação racional. Há que ter uma política de controle urbanístico enorme...

Quase uma cidade ecológica.

Isso! Temos que ter sustentabilidade e que haja uma composição mista nesse controle urbanístico, de modo que você pudesse desenvolver projetos emblemáticos, como hotéis, universidades, moradia. Ah, sem esquecer a navegabilidade.

Como esse tipo de intervenção influenciaria para bem em Belém?

Se você fizer uma intervenção em que você procure resolver e solucionar as interfaces do que pode trazer o problema, mal não fará. Só fará o bem. Eu acredito que ocupar de maneira responsável as ilhas, é a Belém do futuro. Quem conhece bem essas ilhas, sabe que boa parte delas é viável. Cotijuba é uma ilha alta e uma alternativa urbana maravilhosa, desde que haja uma ocupação responsável. Existe ainda um estudo, uma possibilidade de ligar Mosqueiro por meio de Caratateua e Outeiro. Taí outra possibilidade de expansão, que deve ser feita de maneira responsável. Mas, primeiro, precisa pensar o planejamento de Outeiro e Icoaraci até se chegar a Mosqueiro. É um planejamento, estudo a longo prazo.

Belém podia ser reconhecida, no futuro, como a “cidade das ilhas”.

Ou a “Cidade das águas”. Já que há inclusive projeto de promover o transporte fluvial, que é mais barato. Mas não pode ser qualquer tipo de embarcação. O ideal é que fossem parecidos com os vaporettos italianos (nota: “ônibus” fluviais de Veneza, na Itália).

Eu queria causar uma pequena polêmica. Sobre o Ver-O-Peso, talvez o mais badalado cartão-postal de Belém. O Ver-O-Peso é para o povo ou para o turista?  Achas que o Ver-O-Peso deveria ser somente mantido como espaço turístico? O Mercado de São Brás, por exemplo, que é desconhecido de grande parte de sua população, não poderia ser um belíssimo centro gastronômico?

Não vou agradar muito na minha resposta. O Ver-O-Peso não pode perder a identidade de vernáculo, de três séculos de história. Duzentos anos atrás ninguém pensava no turista – o Ver-O-Peso sempre foi o entreposto de abastecimento da cidade. Então eu entendo que o Ver-O-Peso tem de ser pensado como um conjunto – ele é um conjunto arquitetônico. Ele não é só a feira, o centro logístico, ele não é só a alimentação aos trabalhadores. O Ver-O-Peso é suas docas, o casario. O que faz o Ver-O-Peso é essa coisa livre, espontânea. É onde se compra o pato, mas se compra o Viagra natural. O turista é simbiótico, ele vai em busca da curiosidade porque o Ver-O-Peso é um mercado popular. O turista é um ator do Ver-O-Peso. Mas a feira e o mercado precisam estar limpos, com segurança. É preciso pensar num grande conjunto e pensar até na readequação de alguns usos, de modo a oferecer uma melhor estrutura para todos. Me dá uma tristeza ver o Solar da Beira largado, sem uso perene. Um lugar lindo e abandonado. O Ver-O-Peso pode ter vias só para pedestres, veículos específicos para circular. Você sabia que o centro histórico de Belém tem quase nove mil prédios de interesse à preservação? É o maior centro histórico do Brasil. Foi demarcado, em abril do ano passado, pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional. As políticas públicas de preservação de sítios históricos têm de ser muito bem executadas e de maneira responsável. A Gaspar Vianna é linda, mas tá lá abandonada. Ninguém intervém. Tô fugindo um pouco do tema, mas é uma delícia ir “lá em baixo” (como os antigos chamavam a zona portuária e o comércio de Belém) comprar tapioca, farinha. O turista é parte daquilo, mas temos que pensar no conjunto. Já o Mercado de São Brás é extraordinário. A gente precisava eleger um silogeu, um grupo de pessoas que tenham o poder de decidir, de maneira prática – uma readequação de uso ali seria perfeito. Tem que se tirar a rodoviária dali – não faz mais sentido que tenhamos uma estação rodoviária ali. O Mercado de São Brás é o nosso Covent Garden (distrito londrino conhecido por seus mercados, lojas e restaurantes). Tudo que você pensa para a cidade tem de ser rápido e objetivo.

 

Vou te fazer a mesma pergunta que fizemos para o prefeito eleito, Zenaldo Coutinho. Como devolver a Belém o título de “metrópole da Amazônia”, como resgatar a Belém como referência de cidade do Norte?

Gostei desse termo. Não sou presunçoso em achar que vivo em uma cidade que eu diga “estou na metrópole da Amazônia”, mas quero ouvir as pessoas dizerem que “estiveram na melhor cidade do Norte”, “na cidade para a qual eu quero voltar outra vez”. Temos que resgatar a condição de Belém como um dos melhores espaços urbanos para as pessoas. Eu não quero ser petulante de dizer que sou o melhor. Prefiro que quem visita Belém a reconheça como tal.

Uma boa ideia pra Belém?

São tantas...

Então deixa eu mudar a pergunta: o que Belém tem de melhor? Pra motivar que seus visitantes voltem outras vezes?

A sua gente de bem. Porque com gente de bem, tudo dá certo. Essa é a maior riqueza de nossa terra. Mas olha, voltando à tua pergunta, uma boa ideia para Belém é exatamente aquela em que nós pensamos Belém em grandes ideias. Sem pressuposições e mais afirmações.

E qual teu maior sonho?

Eu gostaria de ver Belém resgatar a relação que aconteceu desde o momento de sua fundação até hoje: sua relação com a natureza.

É admissível que tenhamos quilômetros e quilômetros de orla fluvial e não desfrutemos 100% disso. O que eu gostaria de ver um dia acontecer em Belém é ver essa orla integrada à nossa cidade; a cidade de frente para as águas, respeitando sua vocação natural. Aí, Belém terá uma outra visão, outra sensação do que é viver em paz com a natureza.


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