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Mudança lá

Você sabe que a campanha política começou quando todos passam a repetir um mantra: mudança, mudança, mudança. Até quem está na situação fala em mudança. Parece que o mundo todo está em trânsito. É como o chiclete, doce e pegajoso no início, transforma-se em algo sem graça e inconveniente depois. Afinal, assim como o chiclete, o objetivo é passageiro, só vale como discurso de campanha.
 
Na realidade, a insatisfação do eleitor é canalizada nesse discurso chiclete e todos saem satisfeitos com seus efeitos. Ganha-se a eleição e nada muda. Até a próxima eleição. Aliás, mudam-se pessoas, algumas caras novas, outras nem tanto, mas a máquina do Estado é como um transatlântico: não se consegue mudar o rumo numa guinada, ele tem uma inércia própria. Mesmo que mude o comandante, existe um padrão de funcionamento da máquina que não se consegue alterar sem dores. Não adianta alardear ‘quero ir para Shangri-lá’ e o gênio da lâmpada conduz o navio em plácidas águas. O vento, o movimento das marés, a influência da lua, as tempestades, os motins da tripulação, tudo conspira contra a tranquila travessia. 

O navio vai em círculos, parece soçobrar, caminha errante ao longo de quatro anos e aí vem o mantra: mudança já. Troca-se o comando, mas a tripulação é a mesma, o mar continua revolto, os ventos desfavoráveis e quatro anos mais tarde: mudança à vista.

O problema é que mudar não é o suficiente, talvez necessário, mas não suficiente e acabamos nos inebriando com a possibilidade de mudança que nunca ocorre. Os políticos sabem disso e usam a seu favor – nós, míseros eleitores, é que devemos mudar.

Um problema não é resolvido apenas pela força da vontade. Há que se debruçar sobre causas, estudar cenários e possíveis soluções; aplicar o modelo científico de testes; não ignorar a realidade. Normalmente, é um processo lento de avanços e recuos, provas e contraprovas, testes e hipóteses. Vale para a ciência, vale para a administração, deveria valer para a política. E, por que não vale para a política?

Porque não temos tolerância,e não conhecendo o método, queremos soluções imediatas. Essa é uma discussão filosófica: se podemos obter uma vantagem imediata mínima, por quê acreditar numa promessa futura maior? É o mesmo dilema da dieta, sabemos que as vantagens futuras de uma dieta equilibrada são enormes e só trarão benefícios à nossa saúde, mas como resistir a uma feijoada agora ou a um chope com os amigos? Mas, na segunda feira, prometo começar uma dieta rigorosa. Traduzindo, na próxima eleição, prometo mudar tudo.

Se um candidato disser que precisa cortar gastos, que isso implicará sacrifícios, que teremos um período recessivo, que haverá demissões, que tiraremos recursos das despesas para investimentos em infra estrutura, que será criado um cenário que incentive o investimento privado para. no final desse ciclo, voltarmos a crescer de forma sustentável. Se for mais específico ainda e disser que terá que enxugar a máquina demitindo quem não for estável, congelando salários para não alimentar a roda inflacionária, retirando subsídios para que a atividade econômica seja competitiva, aumentando tarifas congeladas, evitando o déficit fiscal que alimenta a inflação e outros anúncios dessa ordem, quem votaria nele?

É mais fácil acreditar em quem diz que vai aumentar salários, que distribuirá renda, que fará com que todos tenham mais dinheiro no final do mês, que contratará mais servidores, que criará um novo ministério para cuidar das abelhas silvestres, mas que, em nenhum momento, diz de onde virão os recursos. Isso não nos interessa, interessa é comer logo essa feijoada que estão oferecendo. Só que depois vem a conta e nessa hora ninguém quer pagar. Nem você, caro eleitor, fica para o próximo candidato.

Só deixo uma questão: e se o seu salário não fosse suficiente e, no final do mês, acumulasse dívidas, o que você faria? Se fosse sensato, cortaria custos, evitaria novas despesas, buscava outras fontes de renda e investiria na educação dos filhos para que a longo prazo eles pudessem ter possibilidade reais de aumentar sua renda e melhorar a qualidade de vida. No entanto, se fosse se espelhar na política, continuaria gastando, tomava dinheiro com agiota e não pagaria, aumentava despesas, arrumava outra mulher, faria mais filhos. O problema é que, depois de quatro anos, não dá pra passar a conta para outro e o agiota iria procurá-lo, a mulher iria largá-lo, os filhos se rebelariam e você chegaria ao fundo do poço. Talvez aí percebesse que, de fato, precisa mudar. Você e o seu país.

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