REVISTA

Mora comigo um Rinoceronte

Não sei se conhecem “Os dragões não conhecem o paraíso” de Caio Fernando Abreu. Mas é que agora, tal como ele diz “mora comigo um dragão”, também pude dizer “mora comigo um rinoceronte”. Antes que me tomem por tolo, leiam. Primeiro decidi chamá-lo por “Rino”. Depois, simplesmente por “Ri”. Foi uma manhã em que acordei meio fora de hora, e me deparei com aquele animal gigantesco, me olhando com aqueles olhos melancólicos. Lógico, levei um grande susto. Pensei que era um pesadelo. Não me perguntem como, mas nos comunicamos. Ainda não sei se realmente falo com ele e o escuto. Ou se é telepatia, coisa que nunca imaginei poder fazer. Ele também não sabia o que estava fazendo ali. E não havia como sair. Era grande demais para passar pela porta. Pelo corredor. E ir embora para onde? Deveria chamar os bombeiros? O Museu Emílio Goeldi? Ele me acalmou. Devíamos lidar com a situação. Era necessário dar-lhe um banho. Arredei a cama, busquei um balde, gastei duas barras de sabão. Precisava ir trabalhar. Antes, deixei leite, no balde, claro, para ele tomar. Depois, pensaria no que fazer. Claro que não disse nada a ninguém. Poderiam me encaminhar a um psiquiatra, no mínimo. Quando voltei, ele disse que estava com câimbras. Era difícil ficar naquela posição, meio deitado, de lado, entre o guarda-roupa e a cama, o dia inteiro. Perguntei o que comia. Qualquer coisa. Então lhe fiz uns sanduíches. E agora? Havia a faxineira que trabalhava às quintas. Era quarta. Ele não parecia ter idéia da estranheza daquilo tudo. De ser algo estranho, bizarro, ali. Queixou-se do calor. Liguei o ar condicionado e ele suspirou, feliz. Levei a TV para lá e gostou, embora parecesse enfadado com tantos humanos na tela. Sei. Conversamos, e chegamos à conclusão que era necessário emagrecer. Precisava passar pela porta, tomar banho, andar pelo apartamento. No fundo, eu manobrava para, um dia, ver-me livre dele. Optamos por uma alimentação light, leite desnatado, nada de massas e muita salada. Assim, em poucos dias, já se movimentava melhor, até que saiu do quarto e embora um pouco espremido, atravessou o corredor até a sala. Ida, a faxineira, assustou-se no início, mas depois se apaixonou. Preparei seu banheiro com chuveiro particular, desses com vários jatos de ducha. Imagino que no verão deva sentir mais calor que o normal. Mas leva vida boa. Quando saio para trabalhar, já está na sacada, tomando sol, usando óculos escuros Armani, que eram meus, tomando laranjada com adoçante, claro. É um ótimo ouvinte. Conversamos por horas, quer dizer, fora o tempo em que ele está dedicado a assistir ao Discovery Channel. Um esnobe, o Ri. Até na internet ele está, com Orkut e blog, onde todos os meus amigos não imaginam ser um rinoceronte. Ri não sai de casa. Não sei se o velho elevador agüentaria seu peso e ele também tem muito medo do trânsito. Acha que ninguém respeita a faixa de pedestres e se aborrece com os milhares de ciclistas na contramão. O jeito foi comprar uma esteira, do maior tamanho, para ele se exercitar. É meu grande amigo. Aquele corpo gigantesco e seu casco duro, sua estética, como um animal pré-histórico que permaneceu na terra, após todos os seus semelhantes desaparecerem, esconde, na verdade, um cérebro ágil, moleque, ladino, inteligente. E seus olhos melancólicos tentam disfarçar a vontade de ser bípede, leve, livre, comum, talvez. E eu lhe digo que talvez essa seja sua grande qualidade. Não ser comum. E exigir, dos amigos, a descoberta de tudo de bom que ele traz na alma. Ter a coragem de furar aquela casca grossa e encontrar alguém tão receptivo. Até hoje não temos explicação para ter surgido, de repente, no meu quarto de dormir, em uma manhã de uma quarta-feira qualquer. E nem ele sabe explicar de onde veio. Como se uma máquina o tivesse sugado de seu habitat e o despejado na selva de concreto.

Enfim, um dia ele sumiu. Tal como tinha vindo. Acordei e estranhei o silêncio na casa. Procurei por todos os quartos e nada. Pensei em um acidente, que havia desmoronado a sacada. Não. Sumiu. Talvez tenha voltado para onde veio. Ou foi surgir surpreendentemente na casa de algum outro solitário, como eu. Talvez ele fosse isso. Um preenchimento. Com seu jeito pré-histórico, olhos melancólicos, seu casco grosso. Mas ágil, inteligente, compreensivo e sobretudo, bom ouvinte. O vazio que havia antes, não voltou. Agora tenho mais facilidade em me relacionar com outras pessoas e procuro namoradas com algo mais a oferecer, como amizade, companhia, cultura e inteligência. E também não me isolo, não me deixo como um casco grosso, impossível de ser alcançado. Quando sinto que a solidão pode chegar e se instalar, lembro do Ri, tomo um banho, visto uma roupa e vou à procura de amigos. Penso que está, talvez, junto com o dragão do Caio Fernando Abreu. Talvez Caio esteja com eles. Sei que, onde quer que ele esteja, pensa em mim. E eu nele.

Celso


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