REVISTA

Molho Negro: o rock vivo do Pará

Quando o tecnobrega saiu das quebradas de Belém e começou a ganhar os espaços do hype Brasil afora, houve uma preocupação: seria o gênero, em termos comportamentais e mercadológicos, uma espécie de “novo-axé”? Em outros termos, será que o tecnobrega com sua popularidade iria ofuscar e reduzir toda a criatividade e diversidade da música do Pará? Como eu já esperava, não. 
Aliás, esse holofote em torno das vertentes mais populares da música do Pará ajudou todo mundo, inclusive abastecendo de criatividade as outras. Nesse contexto, em meados de 2012, nasce o conjunto de rock Molho Negro: desencanado, criativo, divertido e barulhento, muito barulhento. 
Sobre esse contexto pós-tecnobrega, já que mesmo as aparelhagens hoje se dedicam, em boa parte, aos chamados “Baile da Saudade” (bregas clássicos, marcantes e músicas dançantes de outras épocas), a banda fez, no primeiro álbum, uma crônica chamada “Aparelhagem de Apartamento”, em que os conflitos comportamentais e discussões em torno do gênero aparecem de forma bem humorada: “Tudo começou quando eu conheci o DJ Cremoso / achando tudo aquilo extraordinariamente novo / os vizinhos não entendem o que acontece por aqui / com a camisa do Iron Maiden atuando no clipe da Gaby”. Essa música foi um dos destaques do primeiro disco da banda, lançado em 2012.
O segundo e mais recente álbum da banda saiu há pouco tempo para audição no soundcloud do grupo. Intitulado “LOBO”, o disco traz 11 faixas vigorosas, nas quais crueza e peso se aliam à diversão e levadas dançantes. New-wave e synthpop estão presentes entre as referências; na faixa Ponto Morto, vemos ecos dos The B52s.  A faixa “Concurso” que satiriza a escolha de um sujeito que fez concurso público, mas acha sua vida no trabalho um tédio, ganhou um clipe dos mais arrasadores que já foram feitos na capital paraense, com produção da Muamba Filmes. 
O trio, formado por João Lemos (guitarra e voz), Raoni Pinheiro (baixo), Augusto Oliveira (bateria), promete e cumpre rock‘n’roll clássico e contemporâneo, leve e barulhento, criativo e clichê, tudo ao mesmo tempo e com muita competência. Talvez aí more o grande barato do Molho Negro, todo concerto em um golpe furioso.

Comentário