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Minha primeira vez na Condor

No final dos anos 60, eles todos eram adolescentes, entre 14 e 16 anos de idade. Passavam o dia no colégio e aos finais de semana, encontravam para os primeiros flertes, com as meninas, em clubes da cidade. Reuniam-se antes na casa de um. Comentavam entre si as possibilidades, as pretensões. Claro, nem todos já tinham aquele olhar “matador” dos gaviões que pensavam em ser. Saíam com hora marcada para voltar e alguns trocados para o refrigerante. Lá fora, faziam coleta e uma vez no clube, dividiam garrafa de rum misturado com Coca Cola, a Cuba Libre, para dar mais coragem. Dançavam, não dançavam, beijavam, suspiravam e então tocam a última música e eles todos vão saindo porque hoje é domingo e amanhã tem aula. Muitos saíram antes, mais ajuizados. E na rua, antes da despedida, vem um e convida “vamos dar uma volta na Condor”, e todos sentem, sem demonstrar, o frio na espinha. Com rapidez, respondem que não têm dinheiro para o táxi, para pagar a mulher, mas o amigo logo diz que tem uma sobra e dá para os quatro irem de táxi. Claro, todos respondem.

A Condor era ou é um pedaço entre Guamá e Jurunas, onde chegou a funcionar uma estação de recepção de passageiros que chegavam no hidroavião. Naquele tempo, ao redor da Praça Princesa Isabel, funcionavam boates populares onde prostitutas atendiam até na rua. A iniciação sexual dos rapazes era, quase sempre, com prostitutas, quase sempre entre 14 e 16 anos. Quase sempre. E ali, todos eram virgens. Aceitar o convite para ir à Condor era um desafio que os deixava ao mesmo tempo com os cabelos em pé e outros órgãos também. O amigo que convidou foi sentado no banco da frente. O motorista pergunta o endereço e ele diz: Condor! Todos nos entreolhamos. O motora abre um sorriso. Assim é que é bom. Tem que começar na sacanagem desde cedo. O amigo concorda e ele passa a contar suas próprias aventuras, deliciado. Não damos uma palavra. Só o amigo da frente. Há uma tensão crescente no banco de trás. Súbito, passamos de decorar frases para garotas tão virgens quanto nós para um encontro com as prostitutas. A fronteira entre a criança e o adulto em questão de minutos. Você revê todos os seus gestos, pensa no que dizer, lembra de fotos, filmes, causos, sonhos, masturbação e pergunta a si mesmo se está preparado para aquilo. A primeira resposta é NÃO. Naquele instante preferíamos, estranhamente, ser crianças inocentes, mas não podemos externar para não passar vergonha diante dos outros. Nem sequer nos consultamos. O silêncio pesa toneladas no banco de trás enquanto o motora prossegue o seu relato e ri com sua própria história. Chegamos. À nossa frente, a Praça Princesa Isabel, redonda, cercada por homens e mulheres que conversam, bebem, namoram, combinam e entram nas boates ou desaparecem por aqui e por ali. Frio no estômago. Onde eu paro? Dê a volta na Praça! Ah, já sei, querem dar uma olhada nas mulheres logo aqui do carro. Eu acho bom, acho muito bom. Tem que olhar antes a mercadoria, não é? Vocês, moleques... Damos a volta. E agora? Paro aqui? Não. Pode voltar para o lugar onde nos apanhou! O motorista olha, incrédulo, para o amigo que está na frente. Olha para nós, atrás. Dá de ombros, retoma o volante e retorna. Em silêncio, ele. Em silêncio, nós. Descemos, nos despedimos e voltamos a falar do assunto apenas no dia seguinte, no colégio. Bem, o assunto foi resolvido pouco tempo depois mas, naquela noite, fiz minha primeira visita à Condor.


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