REVISTA

Menina prodígio

Por Camila Barbalho.

Fotos: Divulgação.

 

No princípio, era o verbo – envolvido em melodias doces, de saltos naturais e identificação imediata. Foi por meio das palavras cantadas que Liah Soares apareceu para o país. Seu nome, porém, ainda não figurava nos letreiros ou banners das grandes casas de show: era nos encartes dos álbuns de célebres nomes da música pop brasileira que a menina de vinte e poucos anos começava a escrever sua história nacionalmente. A simpatia de estrelas de inspiração rural e popular – como Rick e Renner, Sandy e Junior e Wanessa Camargo – veio com muita naturalidade, e as canções da paraense nascida Eliane ganharam as rádios e as bocas de multidões.

 Era início dos anos 2000. Mal se sabia que aquele som não tinha gosto de terra e mato à toa: Liah cresceu de pé no chão. Uma infância no interior do Pará lhe permitiu rodopiar memórias por entre árvores, coral da igreja, violão presenteado pelo pai. A sonoridade da prodigiosa compositora vinha carregada do seu próprio cotidiano. Muito antes de emplacar o primeiro hit diretamente dos bastidores, a cantora já havia defendido uma obra de sua autoria em um festival grandioso do estado. Com apenas 12 anos, ficou entre os 24 melhores da competição – de um universo de mais de três mil. Era o empurrão que faltava para a jovem colocar a mochila nas costas e construir seu caminho. Saiu de casa aos 14, morou em Santa Catarina, mudou-se mais tarde para o Rio de Janeiro. Nunca teve receio de meter a cara. Foi assim que foi parar no The Voice – programa que lhe projetou para o Brasil; dessa vez, portando o próprio rosto e o timbre. Liah virou um fenômeno de público e crítica pela criatividade e ousadia nas performances. Não tardou para que se tornasse figura habitual nas trilhas de novela, programas de TV e páginas de revista.

Aos 39 anos, a artista vive o seu melhor momento. Num traslado constante entre Portugal, Rio e Belém, ela faz planos para a carreira e para a vida pessoal – enquanto desfruta do sucesso de sua nova música de trabalho, “Girassol”, trilha da novela “O Sétimo Guardião”. Na letra, Liah canta como num sopro só: “sem entender a melodia, eu dancei na luz que a chuva tem no sol/ Eu me refiz em poesia/ Vi que o mundo gira, girassol”. E é assim, solar e em constante refazer, que ela conversa com a Liv, em um papo exclusivo e sincero. Confira:

Você tem vivido em Portugal, investindo na carreira internacional e aproveitando o amor ao lado de seu namorado, o ator Carlo Porto. Como tem sido a experiência? É uma mudança definitiva, ou você ainda mora no Rio?

Tô nessa ponte aérea Rio-Belém-Lisboa, tentando conciliar da melhor maneira possível trabalho e vida pessoal; e o fato de o meu namorado estar em Portugal colabora bastante pra que eu esteja bastante tempo por lá sim (risos). Mas também estou lá por motivos profissionais, e tem sido muito prazeroso conhecer melhor esse país e fazer novas parcerias com amigos portugueses. 

Como você avalia o impacto dessa temporada em Portugal na brasileira, amazônida, que você é? A distância de casa faz você olhar de outro jeito pra sua identidade?

Ah, é sempre um aprendizado. Fiquei impressionada com o quanto os portugueses amam e conhecem bem a música brasileira. Como artista, fui muito bem acolhida. Já no início desse ano, recebi o convite de um artista incrível português, o Luís Represas, pra lançarmos por lá um dueto da minha música “Girassol” – que está na trilha da novela das nove [da rede Globo], “O Sétimo Guardião”. A distância de casa faz com que a saudade e a paixão por nossas raízes cresçam, mas eu já aprendi a conviver com essa saudade desde muito nova... 

 

Você começou a se dedicar à música ainda menina, participando pela primeira vez de um festival aos 12 anos. Como foi o início da carreira, a partir do momento em que você decidiu que “era isso”? Como sua família viu essa decisão?

Minha família sempre me apoiou e incentivou, enquanto eu era uma criança sonhadora que gostava de tocar instrumentos e rabiscar os primeiros versos. Quando a coisa ficou séria e eu decidi me mudar pra São Paulo, daí houve uma resistência – principalmente por parte do meu pai, que ficou muito preocupado com a caçula dele saindo tão cedo de casa em busca de uma profissão tão incerta.

 Como era a vivência no interior do Pará? O conservadorismo de cidades menores como Tucuruí ou São Domingos do Araguaia, ou mesmo a distância dos polos midiáticos do Brasil, intimidou você em algum momento? 

Minha infância foi um momento mágico na minha vida. A cidade não tinha luz elétrica, só a motor até certo horário... Então tive uma infância muito criativa, livre, de subir na árvore pra comer fruta do pé, brincar na rua com as crianças da vizinhança. Era uma cidade onde todo mundo se conhecia e se respeitava, então foi uma base muito importante na construção de quem eu sou. Mas é claro que foi um baque pra mim, chegar à cidade grande, onde as pessoas não pareciam muito se importar com as outras. Eu carregava comigo a inocência de interior e aquilo me amedrontava sim, mas o sonho de fazer música era maior. Não desisti. 

Como se deu o seu contato com artistas famosos que gravaram suas músicas quando você ainda não tinha estourado nacionalmente - como Rick e Renner, Wanessa Camargo e a dupla Sandy e Junior? Surpreendeu o alcance que suas canções tomaram a partir daí? 

O primeiro contato foi por meio da editora Warner. Na época, gravei algumas composições inéditas minhas lá e eles foram enviando pra alguns artistas. Depois que Rick e Renner gravaram uma música minha e foi um sucesso, outros artistas começaram a se interessar em ouvir minhas composições. Tive sorte, mas também – graças a Deus – o talento pra escrever e persistência, muita luta.  Lembro de ter passado muita dificuldade no início, de não ter dinheiro mesmo nem pra comer; e ainda não podia contar a situação para os meus pais, porque eu sabia que meu pai iria imediatamente me mandar voltar pra casa. Eu não imaginei que minhas canções iriam chegar tão longe nas vozes de tantos artistas, mas foi o caminho que surgiu e sou muito grata porque as coisas foram acontecendo assim. 

Ao ser descoberta como compositora, como você se sentiu? Em algum momento houve alguma frustração por esse sucesso todo ocorrer na voz de outros intérpretes, ou por suas músicas não soarem exatamente como você estava habituada a executá-las? Como fica essa relação entre a compositora e a intérprete que você é?

Nenhuma frustração, pelo contrário. Eu ficava muito feliz; pensava que, se um artista de grande porte estava gravando e apostando numa canção que fiz, é porque eu devia estar no caminho certo. Financeiramente, me ajudou bastante no início de carreira; e, principalmente, amadureci e cresci artisticamente fazendo as pré-produções das músicas no estúdio. Quando eu escrevo uma música pra outro artista, me desapego quanto à expectativa de arranjo porque sei que cada um tem uma roupagem e uma identidade musical. Só espero que essa música cumpra o seu papel, levando uma mensagem e emocionando as pessoas. 

É diferente cantar as próprias palavras? Implica uma maior responsabilidade?

Tenho uma maior intimidade, uma propriedade quando canto o que escrevi, ou quando fiz parte do processo criativo, porque sei exatamente o que eu estava querendo dizer ali... Pra mim, a responsabilidade de interpretar outro compositor é maior. 

Por que você resolveu participar do The Voice, mesmo já tendo conquistado reconhecimento e tendo vários trabalhos gravados? Fazendo esse balanço hoje, que importância o programa teve pra você?

O The Voice veio num momento importante. Após alguns trabalhos gravados, eu fiquei muito conhecida como compositora. Enxerguei no programa uma oportunidade de me mostrar mais como intérprete. Foi um desafio e também uma descoberta e aprendizado participar de um programa ao vivo, reinventando clássicos da música brasileira. Ganhei uma parcela de fãs que até então não conheciam meu trabalho, e guardo com muito carinho esse episódio da minha carreira.

Seu lançamento mais recente foi o trabalho ao vivo, registrado no Theatro da Paz. Qual a emoção de cantar em casa, depois de realizar tantos feitos, num dos palcos mais importantes da cultura nacional?

Após o DVD, ainda lancei alguns singles... Mas, realmente, gravar meu primeiro DVD, ao vivo e ainda no Theatro da Paz, foi um sonho realizado. Algo que eu desejava desde criança... Uma emoção que não consigo explicar. 

 Quais são os projetos que estão no seu horizonte agora? Tem algum sonho que ainda falta realizar? 

Eu agora estou investindo nessas novas parcerias em Portugal, mas também não esquecendo o meu país. Pretendo ainda lançar um EP, ou álbum novo esse ano. E é claro que tenho ainda muitos sonhos a realizar! 

 

Você está fechando a casa dos trinta em 2019. Esse é um momento marcante pra você, de alguma forma? Como você se sente em relação a esse marco temporal na sua vida?

Eu tenho uma relação muito atemporal com a minha idade. Capricorniana, aos 20 anos me sentia velha pra certas coisas e, depois dos 30, comecei a achar que sou jovem e tenho muuuita coisa ainda pela frente (risos). Mas, fazendo um balanço até aqui, sigo satisfeita porque sei que venho seguindo meu coração e tentando fazer o melhor que posso como artista, filha, irmã, amiga... E me sinto pronta pra viver o sonho de ser mãe. 

 

Quando você olha pra trás e vê tudo o que já construiu, o que você acha que a menina que você foi - lá no coração do interior paraense - diria da mulher e da artista, que você se tornou?

Eu acho que aquela menina lá diria: “égua, maninha, você foi corajosa e chegou aí. Parabéns, guerreira!”. 


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