REVISTA

JUÇARA MARÇAL

Quando Zé Miguel Wisnik, um dos principais (senão o principal) teóricos e pensadores da canção brasileira, em seu longo ensaio “O Som e o Sentido” ressaltou que uma das grandes marcas da música contemporânea é a valorização do ruído, trazendo-o para o centro da composição moderna, derrubou todo um mundo.

Um mundo, por exemplo, onde a MPB tradicional se ergueu e isso se torna claro quando se ouve de um Chico Buarque a seguinte anacronia: “a canção acabou”. Chico, profundamente equivocado, argumentou corretamente, mas o que, na verdade, estava acabando era um “tipo de canção”, enquanto nasciam vários outros na inclassificável música popular brasileira dos tempos atuais.

Assim como a canção, também estava “acabando” e/ou perdendo relevância um “tipo de cantora” [o tipo musa, para dar espaço a espécies de antimusas]. Antimusas são aquelas que cantam todas as camadas do desconforto, do incômodo e da liberdade. Eis as três flores nítidas no álbum “Encarnado”, de Juçara Marçal, o primeiro solo da cantora.

Apesar de ser o primeiro álbum que a carioca, erradicada em São Paulo, assina sozinha, ela já tem longa trajetória e participou ativamente de projetos e grupos muito importantes, como é o caso do Metá Metá, junto de Kiko Dinucci e Thiago França.

O álbum passeia por um repertório que evoca o tema da morte, da vingança e da crueldade existencial. Um disco, que desde a sonoridade pouco confortável, com guitarras ríspidas, influenciadas pelo fuzz de um The Stooges, traz uma beleza cruel e avassaladora: “quero morrer num dia breve / quero morrer num dia azul / quero morrer na América do Sul”.

Disponibilizado gratuitamente no seu site ofical, o “Encarnado” já obteve a marca surpreendente (em pouco mais de 1 mês) de mais de 10.000 downloads, provando que a música brasileira atual não depende tanto de rádio para ser relevante e com público fiel. Juçara e seu “Encarnado” já é obrigatório pra quem quiser entender e sentir a música do Brasil atual sem cosméticos.


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