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Jogo de sensações

 
"Eu poderia escrever um texto falando sobre a minha sensação diante do rio, da solidão, do desamparo, da dobra do Deleuze, mas o que eu faço é isso”, declarou Elaine Arruda, depois de uma visita, à convite da revista Leal Moreira, à sua exposição no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Intitulada “Cheio de Vazio”, a mostra pôs em destaque, de abril a maio de 2014, as gravuras em metal produzidas pela artista em oficinas próximas ao Porto do Sal, em Belém. “Rever os trabalhos em uma exposição é sempre uma surpresa, porque, de repente, aquele tempo todo de produção, ansiedade e tensão se transforma em algo concreto, alheio a você mesmo”, descreveu.

Realizada em parceria com a gravurista Marcia de Moraes, sob a curadoria de Paulo Miyada e Julia Lima, a exposição “Cheio de Vazio” foi o ápice da pesquisa de Elaine Arruda sobre a calcografia. A mostra reuniu, pela primeira vez, os trabalhos resultantes de dois processos de bolsas de pesquisa, com os quais a artista foi premiada em 2010 e 2013. “Uma parte desses trabalhos fez parte da exposição “Imensidão Íntima”, realizada com a Bolsa de Pesquisa e Experimentação Artística do Instituto de Artes do Pará, e a outra parte, da exposição “Paisagem Suspensa”, resultado da Bolsa Funarte de Estímulo à Produção em Artes Visuais”, detalhou.

Aos 29 anos, Elaine Arruda é mestranda em poéticas visuais pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP) e guarda no currículo exposições individuais e coletivas realizadas em Belém, São Paulo e França, além de uma residência artística que a levou a Québec, no Canadá, em 2009. No entanto, psicóloga por formação, ela garante que nada foi planejado. “Foi tudo por acaso, esse tipo de coisa que acontece na nossa vida e muda os rumos”, disse, referindo-se à sua carreira como artista visual. “Quando eu vi, foi, já tinha acontecido e eu acho que não consigo mais viver de outra maneira. Não me vejo fazendo outra coisa”, admitiu.

Filha de um arquiteto, Elaine gostava, quando criança, de ver o pai desenhar. “Eu olhava para ele com encantamento. Eu era uma criança que não convivia com outras crianças da minha idade, então eu ficava em casa sozinha, desenhando”, contou. O interesse pelas gravuras em metal despontou anos depois, em 2002, na Fundação Curro Velho, em Belém. “Eu fiz um curso com o Armando Sobral e me apaixonei pela técnica, não parei mais de fazer. Depois, comecei a dar aulas de gravura, a estudar e a pesquisar”, disse, citando o amigo e artista plástico com quem concebeu e pôs em prática, ao lado de Véronique Isabelle, Pablo Mufarrej e Starllone Souza, o projeto do Atelier do Porto, em 2011.

Localizado no Porto do Sal, um patrimônio histórico da cidade, o Atelier do Porto nasceu do desejo comum de movimentar o mercado de arte independente em Belém. Montado primeiro no bairro da Campina, e por isso denominado originalmente Atelier da Campina, o espaço começou como um local de produção particular, pertencente a Armando e a Elaine. Porém, não tardou a ter suas portas abertas ao público. “Sentimos vontade de torná-lo um espaço ativo para fazer gestão de projetos, expor os trabalhos, convidar artistas”, contou Arruda.

Frequentado, sobretudo, por pessoas oriundas de regiões ribeirinhas, o Porto do Sal abriga embarcações tipicamente regionais e indústrias de beneficiamento de Castanha do Pará e outros produtos do extrativismo vegetal da região norte. É um pólo cultural complexo, cuja rotina inspira e motiva a todos os artistas do Atelier. No caso específico de Elaine, foi o lugar onde ela obteve a estrutura necessária para produzir suas gravuras, a partir da parceria firmada com a Oficina Santa Terezinha, situada nas imediações. “O Porto do Sal faz parte do meu projeto poético”, declarou, ressaltando que “o artista contemporâneo é aquele que compreende e opera com o seu contexto”.

Na metalúrgica Santa Terezinha, Elaine Arruda pôde trabalhar com placas de zinco em grande escala. “A possibilidade de colocar isso em prática desdobrou muito mais a minha pesquisa”, garantiu. Ao ser indagada sobre a relação com os profissionais da oficina, ela contou que foi um processo lento. “Eu era um ser estranho ali dentro. Eu, mulher, no meio de um monte de operários, no Porto do Sal... Imagina, foi uma construção!”, disse.

Entre os anos de 2009 e 2013, a artista traçou uma relação de confiança com os funcionários da metalúrgica. “Eles me apoiaram e eu conquistei um lugar ali dentro. Uma rede foi construída”, afirmou, enfatizando que a sua experiência ressignificou o ambiente profissional dos operários. “Agora, eles veem o meu trabalho como uma coisa séria. Antes, achavam que era uma loucura”, brincou. “O Rubens, um dos funcionários da Santa Terezinha, sempre me dizia: “tu ficas aí batendo nesse metal, isso parece paixão pelo Paysandu!””, ri a artista, fazendo referência ao time de futebol paraense.

O fato é que, se no começo os metalúrgicos não conseguiram ver nada de especial na atividade desempenhada por Elaine Arruda, depois da primeira exposição esse panorama mudou. “O trabalho se potencializa quando eles vão à minha exposição e dizem: “olha, eu acho que tu gravaste demais naquele lado”. Eles começam a se implicar no trabalho e isso, para mim, é muito interessante porque a arte também tem essa função de tornar o olhar mais sensível”, avaliou. “Por que antes eles olhavam desconfiados para mim e agora conseguem enxergar alguma coisa e, mais ainda, conseguem enxergar o que eles fazem de uma outra maneira?” A pergunta ficou no ar, mas o olhar seguro confirmou que ela estava certa da resposta.

Traços de música e dança

Elaine Arruda garantiu que conhecer o processo de produção é um fator importante para a compreensão do trabalho com as gravuras em metal. “Durante o processo, eu construo camadas de ritmo. Primeiro, faço uma sequência de linhas, depois sobreponho com outra e assim vou tensionando a imagem, até que se torne uma coisa impenetrável, como uma floresta”, comparou, ressaltando que o mais importante não é a figuração, mas a vibração, a tensão implícita em cada peça. “A gravura é uma linguagem cega, muito mais sensorial que visual”, definiu.

Resumidamente, o processo de trabalho inclui três etapas: gravação, entintagem e impressão. Na primeira, a matriz de metal é gravada com ferramentas da metalúrgica, entre as quais machados, pontas de vídea e maçaricos. “É uma etapa muito processual, que requer força e persistência”, explicou a artista. Durante o procedimento de construção da imagem, ela se baseia apenas em suposições do resultado final. “Eu sei que em determinada área, dependendo da linha ou do corte no metal, eu posso ter um cinza, e que onde eu desenhei mais intensamente, eu posso ter um negro intenso”, detalhou. “A composição visual das minhas gravuras acontece nesse jogo de tons: o leve e o pesado, o suave e o grave, o claro e o escuro, que obviamente se misturam, se sobrepõem, construindo muito mais uma sensação visual do que uma representação ou narrativa”, disse. Influenciada pela música, Elaine comparou as linhas no metal a uma melodia, “ritmada pela atmosfera que a imagem evoca”.

O efeito obtido com a gravação nas matrizes vem à tona na etapa seguinte, a entintagem. Nessa fase, a artista contou com o apoio de uma equipe. “Eu trabalhei com quatro assistentes. Pegamos matriz por matriz, passamos tinta preta em todas elas e depois limpamos com a tarlatana, um tecido que parece uma fralda engomada”, descreveu, esclarecendo que a imagem não termina de ser construída ao final do processo de gravação. “Durante a entintagem, cada gesto que eu faça, que seja limpar uma linha, por exemplo, ainda pode trazer uma sensação diferente”, assegurou. O trabalho em frente a uma matriz grande e pesada, por exigir esforços de todo o corpo, pode ser comparado, segundo Elaine Arruda, aos de uma dança.

Para lá da criatividade e do vigor físico, o êxito da última etapa do processo, a impressão, depende também do horário de realização. “Tivemos que passar a tinta à noite, deixar a matriz descansando e começar a limpá-la pela manhã, para poder realizar a impressão por volta do meio-dia. Nessa última fase, é importante que tenha sol, porque a tinta é à base de óleo, então, no sol, ela fica mais líquida”, explicou. Enquanto a gravação e a entintagem foram realizadas na Santa Terezinha, a impressão das gravuras foi feita em outra metalúrgica, “A Reconstrutora”, no bairro do Reduto.

“Não é imagem, é um jogo de sensações”

“O Armando Sobral diz que cada gravura é como uma palavra em um texto e hoje eu entendo o que isso significa. Eu construí uma narrativa”, disse a artista, que define o seu trabalho como “uma experiência subjetiva aberta”. Com a bagagem de cinco anos de testes em diferentes escalas, Elaine reconhece, em sua pesquisa, um diálogo “muito intenso com a paisagem amazônica”. E esse dado está relacionado, muito mais do que à sua história de vida, à experiência no Porto do Sal.

No convívio com as pessoas do lugar, ela testemunhou um enfrentamento diário “com a dureza da realidade”, marcada por problemas sociais como falta de saneamento básico, miséria e prostituição. “Eu não sei dizer se pesa mais o que a gente realiza por lá ou o que aquele entorno tão rico nos traz de potência”, admitiu.

Por seu esforço cego, isto é, por não poder determinar, durante o processo de gravação no metal, qual será o resultado exato das gravuras, Arruda empregou a expressão “jogo de sensações”. “Quando eu cito a paisagem amazônica ou o cotidiano no Porto, não quer dizer que busque representar isso ou aquilo em imagens. O que eu proponho é uma imersão em algo que pode nos levar a um outro tipo de relação com a vida, que não é mais prática, lógica ou objetiva”, disse, em depoimento que se assemelha às palavras do poeta Paul Valéry sobre a necessidade do ócio interno no mundo moderno: “o nosso ócio interno, algo muito distinto do lazer cronometrado, está desaparecendo. Estamos perdendo aquela paz essencial nas profundezas do nosso ser, aquela ausência sem preço na qual os elementos mais delicados da vida se renovam e se confortam, ao passo que o ser interior é, de algum modo, liberado de passado e futuro, de um estado de alerta presente, de obrigações pendentes e expectativas à espreita.”

Entrar no jogo de sensações de Elaine Arruda, portanto, é como lançar-se em um espaço desconhecido, de recolhimento. “No ano passado, eu fui a Macchu Picchu, no Peru, e a experiência de entrar naquela paisagem, que não é a minha, de percorrer o caminho até o cume, foi muito forte”, disse a artista, que também esteve, em 2013, no Salar de Uyuni, deserto de sal localizado no sudoeste da Bolívia, em busca de uma “religação necessária com a natureza”.

 

Agradecimentos

Metalúrgicas Oficina Santa Terezinha e A Reconstrutora


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