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Íntimo e pessoal



Do pai pernambucano, apaixonado por Roberto Carlos e instrumentos musicais, o paulistano Marcelo Jeneci herdou o fascínio pela música. Cresceu embalado pelas estações de rádio populares e trilhas sonoras de novelas. Aos 15 anos já tocava sanfona na banda do cantor Chico César. Desde então, construiu uma carreira marcada por parcerias com Arnaldo Antunes, Zé Miguel Wisnik, Paulo Neves, Zélia Duncan e Vanessa da Mata – com quem compôs o hit “Amado”. Ao lado de Tulipa Ruiz, Karina Buhr, Criolo, ele faz parte da safra de artistas que tem sido chamada de “a nova MPB”. No entanto, diferente destes músicos, geralmente relacionados ao circuito alternativo e a selos independentes, Jeneci assinou com uma grande gravadora e se propõe a ser um cantor popular. “Não quero ser hype”, ele diz. Estreou o primeiro disco, o “Feito para Acabar”, pela Som Livre, eleito um dos melhores discos de 2010, de acordo com a revista Rolling Stone. Fez turnês pelo Brasil e EUA, recebeu prêmios e após anos de dedicação aos instrumentos, descobriu-se como cantor, firmou-se como compositor e assumiu a frente dos palcos. No final de 2013, lançou o segundo álbum De Graça, com a produção de Kassin, coprodução de Adriano Cintra e patrocínio do projeto Natura Musical.

O semblante já é diferente do daquele artista novato. O rosto que encara o público de frente na capa do de “De Graça” evidencia a nova postura, menos tímida, mais segura. Sem medo da música, do novo, do não explorado e principalmente, sem medo de si. Acredita que a arte é afirmação da vida. E se a vida tem sofrimento, vai aparecer na canção. A experiência do segundo disco foi mais densa, reclusa, sofrida. Por outro lado, trouxe aprendizados, amadurecimento e renovação. Dessa mescla de tantas vivências e sentimentos, nasceram letras que falam sobre os contrastes da existência, do amor e refletem sobre o quão saborosa é a redescoberta dos prazeres mais simples da vida, que são de graça. “É extraordinário viver, com sofrimento ou sem. Esse é o mote do disco, positivar as coisas”. O músico largou a sonoridade despojada do primeiro álbum, Feito pra Acabar, enveredou por outros caminhos, mas manteve-se no tronco da música pop. Das 13 faixas do novo disco, todas autorais, seis são coassinadas por Isabel Lenza, atual namorada de Jeneci, três são assinadas só por Jeneci, Arnaldo Antunes aparece em duas e outros parceiros incluem Luiz Tatit, Arthur Nestrovski, Raphael Costa e Laura Lavieri – dona da voz feminina de quase todas as faixas do primeiro disco do músico. A canção “Um de nós”, do De Graça, compõe a trilha sonora da novela global Em Família, marcando a estreia de uma música autoral sem parceiros e na voz do próprio Jeneci. O cinema, outra grande paixão do músico e fonte de inspiração, é também herança deixada pelo pai Manoel, cinéfilo. Não por acaso, o cinema está sempre presente em seu universo, seja nos arranjos de orquestra, momentos melódicos nas canções, no lúdico, na imaginação, nas cores, ideias,  e no sonho de fazer trilha para as telonas.

Com os pés firmes no chão, entregue de corpo e alma à carreira solo, o momento é de colheitas, descobertas, de melhorar a percepção, a vida! Seguindo, espalhando a ideia de que a alegria pode estar nas pequenezas da vida, em um jardim pronto para florescer de novo, nos recomeços. Afinal, diz ele, as melhores coisas da vida não são coisas. E são de graça.



Você sempre teve uma carreira dedicada aos instrumentos musicais. Desde que lançou o primeiro trabalho solo passou a assumir a frente dos palcos. Atualmente você se dedica exclusivamente à carreira solo. Como você vive esse momento?
O desdobramento foi naturalmente. Conforme o trabalho cresce, é redimensionado, vamos  tendo que nos dedicar mais a ele, pelo menos nesse começo. Agora está rolando essa fase, sem estar na banda de mais ninguém, totalmente livre para me dedicar ao meu trabalho solo. É bom, um momento de mais segurança artisticamente, de melhorar a percepção, a vida! Sinto saudades do Arnaldo e de outros amigos músicos, mas ao mesmo tempo sinto a necessidade de direcionar a minha carreira. Mas que bom que há a saudade, né?  É legal sentir saudades também!

Você parecia mais tímido. Hoje, parece bem mais tranquilo no palco. Sente a diferença?
Sim! Aprendi muita coisa entre um álbum e o outro, inclusive a ter mais segurança. A interatividade da música com o público, a necessidade de fazer uma música ou cantar de um jeito que ocupe um espaço inteiro, fazer a voz chegar mais longe. Me vejo diferente, tudo vai mudando, né? Sinto o ano diferente, a minha barba está maior, estou mais magro, menos tímido... mudam até os restaurantes que você frequenta e as viagens que você quer fazer. É como uma nova fotografia: vejo uma foto mais recente de mim e do que eu vivo.

O “De Graça” é um álbum muito mais pessoal e você está mais assumidamente compositor. A vontade de compor é recente?
A minha ligação com a música existe desde cedo, mas a proximidade com a palavra veio depois da música. É algo novo e estou adorando essa relação com as letras! Posso dizer o que eu quiser e qualquer coisa pode virar canção. É um lugar bacana o da pessoa que diz, é interessante, precioso, uma fatia do povo concorda, se identifica, outra parte não. Mas o legal mesmo é dividir, trocar e aprender junto! Estou fascinado com isso! Apesar das parcerias todas, as canções são muito minhas, pessoais, desenvolvemos juntos, meus parceiros como interlocutores. Senti-me à vontade pra botar minha cara na capa porque eu estou mais convicto de todas as palavras ali.



Durante o processo de gravação do “De Graça” você esteve recluso no Rio de Janeiro intencionalmente, focado apenas no trabalho. Essa reclusão fez a diferença no resultado?

Foi necessária. Quis fazer um disco muito desenhado por mim musicalmente, sabe. Então, tive uma tortura diferente. No primeiro a ideia era uma criação mais coletiva e no segundo, ao contrário, a minha criação, o meu olhar prevaleceu. Quis acompanhar tudo, desde gravar os arranjos, mixar, editar, cuidando também dos detalhes. Mantive o tronco da música pop, que é inevitável aparecer, só que o acabamento foi mais ambicioso, mais elaborado, mais cheio de camadas musicais. Nesse disco a importância que eu dei pras canções foi igual a que eu dei pros detalhes musicais, pros efeitos, pros acabamentos estéticos. Fiquei três meses indo para o estúdio quase todos os dias, foi bastante artesanal o processo, muito meu.  Foi até um pouco chato da minha parte, mas foi necessário. Hoje vejo que é um retrato da complexidade musical que eu queria criar, eu precisava disso. Rolou um surto, foi sofrido. Mas digo que me fez um bem horrível! (risos).

E chegou ao resultado idealizado?
Sim, graças à Natura Musical. Para poder realizar um disco desse porte, só com patrocínio mesmo! Mas eu também investi, queria mais e por isso fui dando acabamentos mais impactantes. Sinto um amadurecimento profissional.

A segunda obra de um artista costuma exigir cobranças e pressões maiores, tanto dos bastidores quanto do público, especialmente pela comparação com o trabalho anterior. Houve esse processo pra você?
É claro que é um pouco mais tenso fazer o segundo álbum por causa das cobranças, mas acho que quando fazemos algo com a proposta de “você com você mesmo” ou “esse é o máximo que poderia fazer”, quando é legítimo, importa menos a opinião do outro porque a ideia é o diálogo e não o monólogo. Nesse disco me entreguei mesmo, de corpo e alma!

A música parece também ligar você ao seu pai...
Na verdade a gente sempre é a continuação de algo que vem antes da gente, seja o pai ou qualquer outra figura que a gente se identifique. Sou músico, primeiramente, por uma vontade do meu pai. E quando finalizei o “De Graça”, saí com a primeira cópia do álbum e fui escutar com os meus pais. Meu pai ouvia e concordava. É legal, gosto de ver isso! Acho que é raro realizar um trabalho que você possa mostrar e compartilhar dessa forma com o pai e ainda ter a aprovação dele. Meu pai é um cara que cresceu apaixonado por música e cinema, então cheguei a um ambiente que respirava as duas coisas. Acho que daí vem a vontade de ir para o ambiente cinematográfico nos meus trabalhos.

E você manifesta o seu interesse pelo cinema no seu trabalho...
... sim! Cresci vendo muito filme com meu pai, era meu sonho fazer trilha para cinema. Achava que era isso que ia rolar. Na verdade ainda acho que em algum momento vai acontecer. Identifico-me com as narrativas roteirizadas, curto essa coisa lúdica, inversões de cores, hiperdimensão, o lance da grandiosidade, instrumentais com sintetizadores, cordas, o épico dentro das canções, coisa de cinema. Não é coincidência, gosto mesmo de ter proximidade com o cinema no meu trabalho. Os arranjos de orquestra são uma maneira de aproximar a música do cinema, essa minha vontade de ter momentos melódicos nas canções e que busquem a imagem sonora da orquestra.

Em Belém você se apresentou em um festival, em 2011. Quando pretende voltar?
Adoro Belém! De tanto que gostei, já voltei apenas para visitar a cidade. Achei um lugar singular: as mangueiras, aquela chuva de todo dia, o Ver-o-Peso, o sotaque, a culinária. É possível que eu volte em breve, pois a ideia é a turnê do “De Graça” estar em todas as capitais ainda neste primeiro semestre. 


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