REVISTA

Fôlego

Acho que tu não me amas mais.
A frase pipocou no silêncio breve de um filme barulhento, dos vistos no quarto do casal naquelas sextas-feiras avulsas em que ninguém tem paciência para sair de casa.
Ele fingiu que não ouviu.
Na tela iluminada, o homem caminhava pela noite fria, acendia um cigarro e soltava a fumava. Pensativo.
Quer água? Perguntou o que estava na cama, não o da película.
Ela não respondeu – o que significava um “sim” ou provavelmente um “talvez”. Como não olhou o cenho franzido e o bico enorme dos contrariados armando na boca da mulher, nem pensou em “não”.
Levantou-se.
Abriu a pequena geladeira. Surrupiou de si mesmo uma azeitona mofada. Pôs a água. Deixou o copo meio cheio, meio vazio. Entregou à esposa. Ela bebeu. Olhando a televisão.
Em cena, a atriz dirigia com lágrimas nos olhos. Produção ruim, interpretação pior.
O homem revolveu-se.
- Ai, teu pé tá gelado. O muxoxo era sinal de quem a tevê ligada era só parte do cenário.
Ele se encolheu. Mexeu no controle da central de ar condicionado. Lembrou-se do ventilador vermelho que era muito melhor, mas foi obrigado a aposentá-lo – por um pedido com jeito de ordem, partido dela. “Estava novinho ainda”, lamentou em pensamento, mentindo para si mesmo porque o objeto estava imprestável e com muito tempo de uso.
Ela passou o copo. Agora vazio por completo.
Ele deixou no chão.
Ela perguntou: vai deixar no chão?
Ele não respondeu.
Recolheu e foi deixar na pia. Antes o lavou, enxugou, guardou no armário. Voltou ao quarto e os atores agora estavam correndo por algum motivo que ele desconhecia. A camiseta da atriz ficou à mostra dando destaque aos ombros e ao colo, um decote bonito. Ele repousou a mão esquerda na perna direita da mulher, a da cama, claro.
Ela revirou-se.
- Acho que tu não me amas mais.
Não houve silêncio no filme. Melhor. Seguiu-se um diálogo em que os personagens falavam do risco de uma conspiração em que um cidadão comum era uma ameaça colossal para nação. A paranoia de sempre.
Ele segurou o controle da tevê. Deu uma ampla respirada. Segurou o ar. Se soltasse seria um suspiro. Um suspiro que daria a largada para o começo do primeiro round.
Manteve-se sem respirar.
Um minuto e quarenta e sete segundos. Quase um recorde nos últimos quatro anos, três meses e dezessete dias de casado. O maior tempo fora um minuto, cinquenta e sete segundos na véspera da Páscoa passada, proeza que evitou a terceira guerra mundial ou, em outras palavras, um novo embate sobre Psicanálise e a relação ambígua do amor entre mãe e filho, sempre puxado por ela.
Soltou o vento aos pouquinhos. Estava virando um craque na arte de prender o ar e liberá-lo na mais pura discrição.
- Vai mudar o canal? Não está gostando? Pode falar. Se quiser, desliga.
Ela soltou compassadamente as frases como quem procura uma farpa na tábua lixada. Ele torceu a boca e fez um gesto medido, soltando o controle, como quem diz “não, que isso! Longe de mim. O filme está ótimo!”. Não disse nada. Não ofereceria a farpa buscada no escuro. Nem morderia a isca.
- Você está muito calado. O que foi que aconteceu?
Uma bomba. Na tela, que fique claro.
Ele impávido, de olhos vidrados. Sentiu a planta do pé mais grossa que o normal. Indagou, como quem nada quer:
- ainda tem hidratante?
Agora foi a vez de ela levantar. Foi ao banheiro. Voltou com o frasco. Entregou. Ele leu o rótulo, com atenção redobrada, com exagerada atenção. Pelas informações, tudo ficaria muito bem depois de aplicações regulares. As calosidades reduziriam, a área ganharia uma textura mais saudável e uma maciez perceptível.
Os créditos começaram a subir.
Ele passou o creme sentado à beira da cama.
- Que porcaria de filme!, puxou conversa.
- Acho que tu não me amas mais.
A tela ficou azul e ele se coçou para a mulher. Olhou para os cabelos bonitos, cinematográficos, ela banhada pela radiação azulada do aparelho ligado. Puxou a respiração novamente e começou a contagem sem parar a hidratação com muita desenvoltura.


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