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Feliz sonho novo

Texto: Leila Loureiro

No intervalo do trabalho, em meio à correria de fim de ano, eu paro para contemplar, uma sabedoria recente que tem me feito muito bem. No Palácio do Catete observei que os jovens andam em bandos, abraçados aos amigos, ou se beijam sentados na grama. Já as crianças correm livres, atrás dos patos e pombos, vigiadas por suas babás. 

Os velhos, não. Os velhos sentam solitários em bancos cativos. Eles passam horas ali. Sentados, sozinhos, observando o tempo dos jovens e das crianças. Os velhos conseguem prever o futuro, como cartomantes. Eles sabem que aquelas crianças serão sufocadas por suas versões adultas. Eles sabem que aqueles jovens vão sofrer por amor.

E uma vez recuperados da primeira decepção amorosa, vão se formar, arrumar um bom emprego, casar com o “verdadeiro amor da sua vida” (que, misteriosamente, aparece entre os 25 e 35 anos), ter filhos, comprar um apartamento, um carro, viajar uma vez por ano, desenvolver doenças psicossomáticas e morrer.

Eles, os antigos, sabem que toda criança some dentro da gente. Toda criança, um dia, desaparece. E por mais que espalhemos cartazes em busca dessa criança que um dia fomos, ela dificilmente é reencontrada. É quando os sonhos de infância morrem, e passamos o resto da vida de luto pela ingenuidade que perdemos. Adultos amargos que dedicam seus dias a julgar a alegria alheia, a criticar a brincadeira do vizinho que ousa não levar a vida tão a sério.

O adulto não precisa aprisionar a sua criança no passado, e sim seguir caminhando de mãos dadas com ela pela vida. Essa criança continua aprendendo coisas novas com mais facilidade, enquanto o cérebro adulto vai perdendo as sinapses com o tempo. Esse papo de “perseguir realizações” na vida, perderá todo o sentido quando, ao sentarmos no banco da praça, por volta dos 70 anos, percebermos que as memórias inesquecíveis são as das brincadeiras de infância, daquela paixão avassaladora, das perdas e tropeços, das aventuras e perrengues naquele “mochilão” com os amigos.

“O inconsciente é a memória do esquecimento”, já dizia Freud. Toda essa epidemia de depressão, Burnout e síndromes de pânico, que crescem vertiginosamente em nossa sociedade, podem surgir dos gritos que ecoam do seu próprio porão. Pegue a chave e liberte sua criança de lá. 

As horas voaram e quando dei por mim, já era tempo de voltar ao trabalho, mas antes sentei ao lado de um velhinho solitário e sorri. Como só as crianças conseguem fazer com estranhos. Ele olhou bem dentro dos meus olhos, me ofereceu um pirulito e disse: “Feliz ano novo”. Eu agradeci e confiei na sua bênção. Os velhos são videntes.


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