´╗┐´╗┐

REVISTA

Experimente sentir

Se você quer ser feliz, não compre coisas. Prefira investir em experiências. A frase poderia passar como uma dessas mágicas “fórmulas da felicidade” que se lê em manuais, mas foi a conclusão de um estudo divulgado em 2015 e liderado pelo professor de psicologia Thomas Gilovich. Realizada pela Universidade de Cornell, nos EUA, a pesquisa “Uma vida maravilhosa: o consumo experimental e a busca pela felicidade” mensurou, durante três anos, a forma como mais de dois mil consumidores se sentiram em relação a suas compras.

 

Os participantes deveriam relacionar a própria felicidade com experiências ou compras materiais. Segundo Gilovich, que pesquisa sobre felicidade há pelo menos duas décadas, a satisfação daqueles que haviam comprado coisas diminuía gradualmente, enquanto as experiências – como passeios, viagens e shows – acabavam se tornando parte daquela pessoa, rendendo lembranças e laços que poderiam durar por toda uma vida. Os bens materiais, portanto, proporcionavam apenas uma sensação momentânea de felicidade. As experiências compartilhadas, por outro lado, além de passar a fazer parte da história de cada um, seriam capazes de conectar pessoas.

A conclusão do pesquisador norte-americano poderia também ser resumida em um slogan para a plataforma Asas. Criada há três anos pela publicitária carioca Isabella Cunha, a ferramenta oferece a turistas estrangeiros, brasileiros ou mesmo residentes do Rio de Janeiro que desconhecem o “lado b” da cidade, novas “experiências” a serem desfrutadas coletivamente, de uma maneira nada óbvia, por lugares menos conhecidos que os consagrados nos cartões-postais. Disponíveis em quatro categorias (cultura, gastronomia, esporte e bem-estar), as opções vão muito além daqueles passeios obrigatórios e já bastante explorados, como flanar pela noite boêmia da Lapa, contemplar o pôr do sol no Arpoador ou observar a cidade do alto do bondinho do Pão de Açúcar.

As experiências ofertadas na plataforma incluem desde um passeio de veleiro pelas ilhas Cagarras a um piquenique sensorial na floresta da Tijuca. Você pode ainda ajudar a preparar um jantar com uma chef de cozinha, na casa dela – recostada na Mata Atlântica – ao mesmo tempo em que recebe dicas gastronômicas; pode dar um “rolê” na favela Santa Marta, com direito a oficina de pipas; ou assistir a uma aula de capoeira na beira da Lagoa Rodrigo de Freitas.

A ideia de criar um site que oferecesse como serviço uma vivência única no Rio de Janeiro surgiu após a publicitária passar uma temporada na Austrália, em 2006, e se dar conta, na volta para casa, que sentia imenso prazer em receber os amigos em sua terra natal. “Conheci gente de todo o mundo e fiz muitos amigos lá. Passei então a recebê-los no Rio e, ao lhes apresentar meus lugares favoritos na cidade, descobri em mim uma anfitriã”. O novo hobby fez com que Isabella se questionasse se não haveria outras pessoas com a mesma habilidade, interesse e prazer em compartilhar sua paixão por lugares, histórias, sensações e atividades no local em que reside. E não é que ela descobriu que existia muita gente apaixonada pelo que faz morando ali, na mesma cidade que ela?

A escolha de pessoas verdadeiramente envolvidas com a vivência oferecida no site é a maior preocupação de Isabella, que conta hoje com 35 anfitriões – além destes, ela divide as tarefas com um sócio e uma assistente. A lógica principal da plataforma é monetizar as paixões dos anfitriões e os estimular a compartilhar o melhor de si, fornecendo informações sobre o local em que residem, proporcionando uma experiência única ao usuário. “Mais do que oferecer uma experiência interessante, queremos que os anfitriões possam irradiar a paixão pelo que fazem, e assim também passar adiante todo esse entusiasmo”, define.

Carioca e apaixonada pelo Rio, a publicitária Luiza Portella, 31 anos, foi a primeira cliente do Asas. Ela comprou a experiência da trilha do Pico da Tijuca e, desde então, não parou mais: fez outras trilhas, aulas de stand up padle, degustação de drinks, meditação e por aí vai... Ela garante que umas das melhores coisas proporcionadas pelas experiências está na singularidade de cada anfitrião: “Vivenciar e sentir a cidade através de pessoas que amam o que fazem é muito especial. Nunca uma experiência é igual a outra, porque cada uma tem um pedacinho de quem acolhe e de quem recebe”.

 

Na contramão do consumismo, vivências

Quantas vezes você já foi a uma palestra ou evento e recebeu dos organizadores um objeto como forma de “lembrança”, para marcar aquela ocasião, mas que, muito possivelmente, não teve muita utilidade na sua vida e ficou esquecido no fundo de uma gaveta? “Imagine que você já tem 10 garrafinhas, 10 blocos de notas, 10 chaveiros... Provavelmente você não quer mais um, porque isso não te marca mais”, exemplifica Isabella. Diante dessa constatação, ela e o sócio passaram a prestar consultoria para empresas que desejavam criar experiências marcantes para seus clientes.

“Hoje, as ‘coisas’ não satisfazem mais as pessoas. Por isso, é muito mais interessante oferecer ao seu cliente, em vez de um objeto, uma experiência que irá marcá-lo”, justifica. A primeira empresa a apostar no serviço voltado para o mercado corporativo foi a Farm, que presenteou um grupo seleto de clientes com um passeio de barco. “Quando você dá a alguém uma experiência, o que fica com ele são as memórias daquele dia, em que ele pode vivenciar e sentir e o que a marca acredita e aquilo que ela prega. E isso é muito mais forte”, defende a publicitária.  

Além de promover experiências customizadas sob medida para empresas ou grupos, a equipe do site oferece o serviço também para quem deseja realizar uma experiência em ocasiões especiais – cabendo aí desde a comemoração de aniversários até um pedido de casamento. Foi assim quando a cantora Rihanna esteve no Rio, em 2014, e sua agente procurou o Asas para organizar um dia inesquecível para a cantora e seus amigos. A experiência customizada especialmente para a artista incluiu um passeio de stand up paddle nas ilhas Cagarras.

Existem algumas empresas, no Brasil e outras fora do país, que oferecem serviços dentro da mesma modalidade ou de forma similar. É o caso das estrangeiras Vayable, Peek, If Only e as brasileiras Razoom e Sabiar. As opções de experiências na plataforma carioca são variadas, mas a maioria é focada nas proximidades da zona sul, cenário que pode mudar com a sugestão de novos roteiros. “Estamos abertos a novas possibilidades, vindas das zonas norte e oeste, com pessoas das mais diversas origens e classes sociais, porque queremos mesmo diversificar o leque de opções”, destaca Isabella.

Na mesma semana em que conversou com a revista Leal Moreira para esta matéria, Isabella recebeu a notícia de que a Asas foi uma das cinco empresas escolhidas, entre cerca de 700 inscritas, pela maior aceleradora de empresas da América Latina, a Aceleratech. Com isso, ela e o sócio vão se mudar para São Paulo e a aposta é que o serviço cresça bastante ainda este ano, em que irão promover ações para grandes marcas durante os Jogos Olímpicos no Rio.

 

Paixões e interesses compartilhados

Um dos primeiros passeios oferecidos pela plataforma foi a visita à antiga casa de Elis Regina, regada a um bate-papo sobre Bossa Nova e histórias que se passaram com a cantora na época, guardadas entre as paredes do imóvel e reveladas seguindo o ritmo dos vinis escolhidos criteriosamente pelo DJ Marcelinho da Lua. Além de propor ao usuário um convite a novas descobertas ou mesmo o resgate de sensações até então adormecidas, a plataforma serve também para, por meio das experiências ofertadas, conectar pessoas que não teriam a oportunidade de se encontrar não fosse a ferramenta.

É o caso dos turistas britânicos Robin Harries e Cordelia Gover, pai e filha, que visitavam o Rio de Janeiro pela primeira vez, em abril deste ano. Por meio da plataforma, eles chegaram até Nelson Porto, anfitrião que, desde 2012, recebe os usuários para a experiência no Morro da Conceição, na Zona Portuária da cidade, no Rio antigo. O passeio percorre os casarios históricos e construções coloridas das ruas pacatas do morro, desembocando na Pedra do Sal, reduto tradicional do samba e berço da religiosidade africana, um ícone de resistência da cultura negra na cidade. Ali, por volta do século XVIII, funcionou um dos principais locais de desembarque de navios negreiros no Brasil, que mais tarde se transformaria em um grande mercado de escravos. Enquanto guia os visitantes até o templo carioca dos bambas, Nelson explica sobre o sincretismo religioso e musical brasileiro. Ao final, leva os turistas ao tradicional “Angu do Gomes”, onde, pacientemente, traduz para os visitantes os itens do cardápio da casa, que atende desde 1955.

“Como o anfitrião explica sobre o lugar de uma forma mais próxima, sem muito didatismo, a experiência se torna mais humana”, classifica a britânica. “É como se você estivesse pagando não por um guia turístico, mas para ter a companhia de um amigo que conhece bem o local e o ajuda nas escolhas. Acaba sendo uma opção prática também, porque eu jamais saberia o que pedir para comer neste restaurante. Talvez nem viesse até esse aqui, justamente por não ter qualquer referência sobre ele”, complementa Cordelia, que se despede de Nelson com uma sincera expressão de satisfação e o convida a visita-lá na Inglaterra, quando os dois trocarem de lugar, e for a vez dele ser o turista. Afinal, após essa agradável experiência juntos, eles já se tornaram bons amigos.  


Comentário