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Eu vou voltar pro meu Cerrado

Eu não sei onde estava com a cabeça quando adiei todas as possíveis viagens para a Chapada dos Veadeiros, no Centro-Oeste do país. Pessoas são assim, andam pelos extremos, dando saltos de norte a sul em sua existência, mas o “centro” de cada um fica ali, reservado, esperando o momento certo de ser explorado. 

Tudo começou quando a Layana, uma amiga querida, propôs que viajássemos para a Chapada. Ela tem a gargalhada mais autêntica que conheço, e ainda abraça apertado. E não só abraça, como pede colo com a mesma maestria. E hoje, topar com alguém sem medo de mostrar suas vulnerabilidades é uma loteria. Que delícia gente de carne, osso e coração. Gente que chora, sente medo, mas que segue lutando a cada dia, e – pasmem! – sendo feliz até quando se está meio perdido. Chupem Coachs!

Convite aceito, não demorou para que a Lay convencesse outras pessoas e conduzisse a “trip”. Só tive o trabalho de relaxar e seguir as ordens da nossa administradora do grupo de whatsapp, a maior patente digital dos tempos modernos. 

A Chapada dos Veadeiros fica em Goiás, em pleno cerrado brasileiro, rodeada de lendas místicas e um visual deslumbrante. O tempo tomou outro ritmo ali na nossa “comunidade”. Éramos doze pessoas ao todo, de diversas nacionalidades. Sem conexão com a internet, todos se olhavam nos olhos e se divertiam com absoluta atenção.

Os dias offline passavam tranquilamente, até que um lampejo de sinal telefônico nos trouxe duas notícias: a avó da Tatá havia falecido e a sobrinha do Raj havia nascido. Arrepiamos todos. Acolhemos o choro de tristeza e alegria. “C’est la vie!”, disse a francesa.

Logo lembrei de um trecho do único livro que levei na bagagem. O “livro do desassossego”, do Fernando Pessoa. “O próprio viver é morrer, porque não temos um dia a mais na nossa vida que não tenhamos, nisso, um dia a menos nela”.

E assim, como os 12 apóstolos disseminando a palavra de um líder radiante em forma de céu azul e poentes escandalosos, sentamos e fizemos nossa última ceia. Entre vegetarianos e carnívoros, um belo brigadeiro selou a comunhão daqueles dias. Na manhã seguinte, tivemos que trair nossa promessa inicial de vivermos ali para sempre. O trabalho nos chamava. Maldito Judas!


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