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Em Off

"Agora todo mundo é artista”. Essa é uma das frases mais proferidas depois que as redes sociais [Instagram, de preferência] viraram verdadeiras “galerias” para “obras” virtuais. Esse era um dos pensamentos que poderia também ocorrer ao arquiteto Joaquim Meira, de 35 anos. Ele confessa que não conseguia entender o que levava uma pessoa a investir centenas de dólares, ou muitos reais, em um iPad, por exemplo, se o objetivo fosse somente o de observar fotos. “Isso daí é inútil para mim”, pensava Meira.

Até que em janeiro de 2012, um objeto de 9,5 polegadas de altura, 7,31 de largura e uma espessura de 9,4 mm caiu em seu colo. Era o famigerado iPad, o tablet da Apple. Para Meira, a comparação entre o iPad e uma folha de papel foi inevitável – o formato e a interação com a interface fisgaram o arquiteto. “A gente toca nisso pela primeira vez e percebe que se trata de um produto de altíssima tecnologia, que, apesar de não vir acompanhado de um manual de instruções, sabe-se como mexer perfeitamente”, diz, sem esconder o encanto que o universo eletrônica e suas múltiplas possibilidades lhe causaram. De posse do iPad, Meira passou a exercitar sua criatividade em várias vertentes, utilizando aplicativos do tablet para desenhos profissionais e croquis e para incursões pessoais no campo artístico.

A ideia de carregar debaixo do braço um instrumento que permitisse, por exemplo, desenhar livremente, conservando o traço que aprendeu na arquitetura, acrescido de elementos de pintura como aquarela - com um peso aproximado de 652 gramas - reativou em Joaquim paixões e hábitos antigos, como o gosto pela arte. “Posso levar meu iPad e sentar numa praça para desenhar uma igreja sem ter que levar pincéis, cavaletes, tintas, sem sujar as mãos. É como resgatar um hábito ancestral”, compara. A arte, aliás, sempre foi um tema presente na vida do arquiteto. Aos seis anos, começou a formar um arcabouço artístico e cultural com visitas frequentes ao tio Rui Meira, o artista da família. Na casa do parente, ele costumava pintar, moldar argila e “fazer arte”, de modo bem característico, como só as crianças bem sabem. O pai, Aurélio Meira, era consumidor e entusiasta das artes. Sua casa sempre foi frequentada por artistas e as discussões interessavam os ouvidos atentos de Joaquim.

A escolha pela arquitetura, que normalmente atiça a sensibilidade adormecida de quem a pratica, refletiu o interesse de Joaquim pela expressão de formas bonitas. Durante seu crescimento, ele exercitou seu olhar sob várias formas de expressão: gostava de pintar, fazer aquarela, esculpir, fotografar. Mas, em determinado momento, todas essas práticas foram deixadas em segundo plano, ofuscadas por compromissos profissionais. “Só quando peguei este ‘troço’, fui me reinteressar por esse mundo”, diz, esnobando e desdenhando do iPad, em uma manifestação velada de sua dependência do objeto. “O Steve Jobs é realmente o pai e o rei das inutilidades indispensáveis. Basta consumir um pouco do ‘ópio’ da tecnologia para veres o quanto aquilo é necessário para ti. Quando estou sem o iPad, me sinto até agoniado. Parece que não tenho nada para fazer”, confessa.

A abstinência que Joaquim demonstra provém da intensidade de sua relação com o instrumento. Como se trata de um dispositivo portátil, qualquer hora é hora e qualquer lugar, lugar para usar. O primeiro desenho que ele fez no iPad, aliás, usando o aplicativo “Paper” surgiu do nada. “Nunca tive interesse em desenhar figuras humanas, mas um dia, olhando o aparelho, vi que a tela tinha dimensões parecidas com as de um retrato. Então, uma vez, de memória, resolvi fazer um desenho de um arquiteto depois de ver o documentário do Álvaro Ciso. Comecei a riscar e, quando vi, saiu o rosto. Dali em diante, comecei a fazer de várias pessoas. A inspiração vem de qualquer coisa cotidiana”, diz ele, que normalmente utiliza uma foto para reproduzir graficamente. Em sua galeria, estão ilustres e desconhecidos: Joaquim desenhou colegas, parentes e seus animais de estimação, além de celebridades, como o roqueiro Mick Jagger, o poeta Vinícius de Morais, o lutador Lyoto Machida, o físico Albert Einstein.

Os retratos se juntam a outras gravuras. Desenhos vetorizados de paisagens cotidianas, como a passagem da Berlinda de Nossa Senhora de Nazaré, durante a procissão do Círio, dividem espaço com projetos e croquis arquitetônicos. Fotos despretensiosas de paisagens urbanas, com a intervenção de Joaquim, se transformam em ambientes soturnos, pouco iluminados, que lembram cenas de filmes de terror ou suspense.

Qualquer coisa pode se tornar alvo da intervenção de Joaquim quando o arquiteto tem no colo seu inseparável iPad - e qualquer tempinho livre de suas obrigações. “Isso é o ócio criativo visto de uma outra maneira. Quando desenho ou manipulo imagens, faço isso sem pretensões.

Às vezes, a pretensão é a de ajudar com um anúncio ou algo do tipo, mas não faço para buscar reconhecimento nem nada”, diz ele, que passou a cuidar da identidade visual da chocolateria administrada pela esposa.

Desde que retomou o hábito de desenhar, Joaquim já percebeu evolução em sua técnica - embora não tenha qualquer compromisso com a excelência. “Não faço isso para ficar melhor. Mas algumas vezes percebo que termino com mais agilidade um desenho. O que melhorou mesmo foi a forma como encaro as coisas. Consigo resolver dez coisas ao mesmo tempo e estou bem mais organizado. Essas práticas me abriram um panorama de possibilidades inesgotável”, diz Meira, que, apesar de ter também inúmeras fontes de inspiração - o próprio iPad é uma delas -, refuta com veemência o rótulo de “artista”. “Não sou artista. Não faço isso pelo ofício. É um hobby”, finaliza.

 

 


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