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E fez-se a Luz

Texto: Celso Eluan Lima

 

Se tivéssemos que fazer uma enquete para eleger as maiores invenções da humanidade não faltariam candidatos de peso: a roda, o domínio do fogo, a agricultura, a alavanca, a máquina a vapor, a vacina, o saneamento, o avião e até mais recentemente o computador ou a internet. Todos com uma imensa folha de serviços prestados e inúmeros outros que nem foram relacionados para não esgotar a paciência de quem vir a ler. No entanto, eu gostaria de citar dois que numa reflexão tardia em dias e quarentena eu alçaria ao topo: a linguagem e o conceito do divino.

Numa analogia simplista olhemos para nossos pets: é possível identificarmos sinais básicos de comunicação num cachorro ou gato. Eles desenvolvem uma linguagem simplista conosco para pedir água, comida ou carinho. São símbolos que percebemos e reagimos e satisfazem o desejo de quem iniciou o contato cumprindo a missão de toda linguagem: fazer-se compreender. 

Imaginemos então nossos antepassados remotos emitindo grunhidos que se faziam entender pelos demais do grupo. Ao longo de milhões de anos a evolução tratou de refinar esses sons guturais para evoluir em sinais mais sofisticados que incorporavam muito mais do que o necessário para simples sobrevivência até chegar no topo máximo, a DR uma derivação dos estudos de Freud. Ou filosofar em alemão, como diria Caetano.

E tem mais, não bastou definirmos sons para simbolizar milhões de objetos, estados ou sentimentos, criamos a comunicação escrita, um refinamento sem precedentes da capacidade de se expressar. 

É curioso perceber que os grupamentos humanos espalhados geograficamente e no tempo criaram símbolos próprios, únicos, sem ligação com outros grupos gerando essa Babel. Não havia internet nem redes sociais, o isolamento exigiu que a linguagem evoluísse circunscrita no tempo e espaço gerando uma miríade de línguas faladas e escritas ao redor do globo e dos séculos.

Da mesma maneira o conceito de divino foi incorporado por cada agrupamento humano como necessidade de controlar os ímpetos e impedir a auto destruição. Não por acaso há teorias que sustentam que as primeiras cidades, que mudaram o destino do nômade coletor-caçador, ocorreram ao redor de símbolos religiosos, igrejas desse passado remoto há cerca de 12 mil anos.

Independente de crenças, o código moral imposto pelas religiões foi um marco civilizatório necessário para evitar a barbárie. A simplicidade e amplitude de regras como os Dez Mandamentos foram capazes de controlar impulsos destrutivos que nos trouxeram até hoje.

Há um experimento simples e ilustrativo da importância da noção do divino exposta no livro Subliminar de Leonard Mlodinov. Psicólogos sociais testaram em salas de pré escola o controle das crianças através da presença de uma boneca que ficava sentada de frente pra elas e que estaria vigiando-as para que não maltratassem colegas e outros limites. A professora instruía sobre o que não podia ser feito e delegava a vigilância à boneca. As crianças sentiam-se vigiadas e protegidas por aquela princesa representada pela boneca, independente da presença da professora. Mais tarde retiraram a boneca e deixaram apenas a cadeira vazia com a professora informando que a boneca continuava lá, mesmo sem ser vista. O efeito observado foi o mesmo.

 Linguagem e religiosidade definem culturas e nações, são causa e consequência da formação de povos e identidades. Certamente criam problemas quando não há tolerância com o outro, mas seria o mesmo que culpar o avião por ser usado como arma de guerra. 

A tecnologia vem atuando para aproximar e traduzir instantaneamente linguagens para que todos se compreendam e ainda mantenham sua identidade. Seria ótimo também que pudéssemos entender e aceitar todas as religiões, sem querer impor nenhuma à outra. Assim como as línguas, todas são fundamentais. Amém.


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