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REVISTA

E de repente... Gabriela

Dos corredores dos hospitais para os tablados do teatro, Daniela Blois vive a história mais fascinante de sua vida. Não só por ter sido escolhida entre 700 atrizes e cantoras de todo o Brasil para viver Gabriela, personagem mais icônica de Jorge Amado, mas pela forma como isso aconteceu: inesperadamente, às vésperas do seu baile de formatura em Medicina. “Quando cheguei ao baile, eu já era Gabriela (risos)”. Com 26 anos, nascida e criada em Porto Trombetas, oeste do Pará, Daniela já flertava com a música desde pequena e arriscava subir aos palcos manauaras, cidade onde cursou Medicina, mas nunca pensou que essa paixão fosse leva-la tão longe. “Antes eu achava que eu gostava de cantar, mas que ninguém gostava de me ouvir”.

 

Durante as seletivas para viver a personagem principal Gabriela, um musical, sua timidez, beleza e autenticidade conquistaram o diretor João Falcão, que declarou “Foi um encontro mágico. Quando ela apareceu, deu uma coisa assim: tem uma Gabriela ali e ela é de Manaus”.

Para Daniela, a escolha é mais do que uma superação pessoal. “Eu fico muito feliz de estar vivendo isso, porque a gente sabe que no Norte temos um isolamento geográfico e cultural. As coisas demoram para chegar, demoram para sair, então acho legal ter esse movimento de cada vez mais coisas estarem acontecendo conosco para que o Brasil conheça a nossa cara”.

Gabriela, um musical, é dirigido por João Falcão, também responsável pelo roteiro musical, que selecionou canções brasileiras de diferentes estilos e épocas, incluindo composições de Dorival Caymmi, Tom Jobim, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Martinho da Vila, Lulu Santos, Gonzaguinha, Arnaldo Antunes e Marisa Monte.

O espetáculo estreou no Teatro Cetip, em São Paulo, onde ficou em cartaz até 31 de julho. Em setembro, a equipe desembarca no Rio de Janeiro, no Teatro Bradesco, e, em seguida, deve iniciar uma turnê nacional.

Como a Daniela Blois, que estudou cinco anos para ser médica, foi parar nos palcos?

Eu fiz medicina, mas sempre gostei muito de arte. Eu já cantava em Manaus, mas entre amigos. Com o tempo eu fui me envolvendo e gostando cada vez mais. Então, quando eu concluí o curso, no final de 2015, surgiu o anúncio da seleção na internet. Como eu já tocava nos bares com a galera, nos shows de algumas bandas, o pessoal me identificou como uma possível Gabriela. Daí eu mandei um vídeo com uma música de autoria própria e fui chamada para fazer a audição em São Paulo com outras 50 meninas.

E como tu encantaste o João Falcão, deixando todas as outras atrizes para trás?

O João gostou muito do vídeo. Nele, eu estava trocando violão e cantando embaixo de uma árvore, um vídeo bem Gabriela (risos). Era uma música minha e ele disse que gostou do timbre da minha voz. Acho que foi uma coisa de intuição. Ele olhou e sentiu   que tinha uma Gabriela, talvez no meu jeito tímido.

Tu foste escolhida para ser a nova Gabriela, mesmo com quase nenhuma experiência em atuação. Conta um pouco da tua trajetória.

Uma vez uma amiga me chamou para fazer um curta sobre a história de uma estudante de música da UFAM (Universidade Federal do Amazonas) que refletia sobre questões sociais. Ela achava essa personagem muito parecida comigo e acabei ganhando um prêmio de melhor atriz no Amazonas Film Festival. Depois teve a banda Dona Celeste, que me convidou para atuar em um videoclipe. Foram só essas duas experiências, mas cantar é diferente. Eu sempre cantava com a galera. Quando eu comecei a me envolver mais com a música, já no fim da faculdade, começaram a surgir vários convites. Foram três meses em que aproveitei muito. Eu tava gostando de cantar, tava com vontade de fazer algo mais. Até pensei que quando terminasse o curso de medicina, tentaria alguma coisa.

E qual a primeira lembrança musical que tu tens? Teus pais tiveram influência no teu envolvimento com a música?

Eu sempre gostei muito de música. Meus pais ouviam muita música em casa, mas nenhum dos dois toca nada. Minha mãe canta também, mas nada profissional. Meu pai ouvia muita música popular brasileira, tipo Djavan, Chico Buarque, Milton Nascimento. Já a minha mãe gostava de música estrangeira, Beatles, Bee-Gees, Janis Joplin. E a moça que trabalhava lá em casa ouvia muito brega. Eu gostava de cantar tudo isso (risos).

Quando eu era criança, eu ficava imitando os cantores, fingia que fazia shows. Acho que tudo começou com um concurso de videokê em Porto Trombetas, aos 11 anos. Eu ganhei um prêmio e daí fui aprender a tocar violão. Por volta dos 13 anos eu comecei a tocar e cantar na escola. Era uma coisa que eu gostava de fazer.

E como foi a preparação para viver a Gabriela no teatro?

Eu assisti o filme para participar da primeira audição e ter uma noção da história. Eu achei surreal ter sido chamada para o teste, então nem me aprofundei muito, porque achei que não ia rolar. Daí quando fui selecionada, eu li o livro. Eu busquei pegar na fonte mais original possível, por isso não busquei outras adaptações. Tirei muitas conclusões de quem era a Gabriela do livro. Aí comecei a conversar com o elenco, com o João, para saber o que eles achavam, pensavam. Eu quis fazer algo novo, mais solto.

Quais os aspectos ou características da Gabriela que mais se assemelham a ti?

Eu sou do interior do Pará, então tem toda essa conexão com a natureza, essa característica de sermos muito íntimos das pessoas, de estarmos na casa dos outros, de conversar, de brincar. Acho que o que mais se assemelha é esse lado moleca da Gabriela, de se permitir, de ser solta, apesar de viver em uma sociedade ainda muito machista. Acho que o que eu tenho da Gabriela é me permitir, sendo mulher, ser do jeito que eu quero e como acho que devo ser.

E como tem sido a recepção da crítica sobre o espetáculo e a sua atuação? Li um relato da Paloma Jorge Amado, filha do Jorge, dizendo que tu és a Gabriela que ela imaginava quando leu o livro aos 12 anos.

Cara, tudo está sendo uma benção, porque esse musical é bem diferente de todos. Tem muita musica brasileira, então é diferente. O João Falcão é renomado e é um artista muito criativo. Ele me escolheu e me colocou no meio de um elenco muito bom, com atores, músicos, técnicos excelentes. Eu fiquei muito emocionada por estar no meio disso tudo e a crítica toda vem elogiando. O relato da Paloma me emocionou demais, porque me deu certeza de que o que está acontecendo era para ser, sabe?

E em Porto Trombetas?

Ah, foi muito legal. A galera ficou muito emocionada. Por ser um local pequeno, todo mundo se conhece. Tem um espirito de irmandade muito presente e foi uma torcida muito grande. A galera me abraçou com a conquista. Quando eu fui no Jô (Soares) e falei de Trombetas a galera pirou (risos). Qual é a melhor parte dessa nova experiência de vida, porque mudar o rumo da vida, da forma como aconteceu contigo é surreal. Ah, primeiro esse carinho todo que tenho recebido. É lindo de ver todo mundo torcendo muito. Eu não senti inveja de ninguém, só senti amor. Tem também a experiência de conhecer coisas novas, estudar canto, expressão corporal, conhecer ambientes diferentes aos que você está acostumado e, claro, fazer algo que eu amo e que estou descobrindo amar cada vez mais.

E agora? Médica, cantora, atriz ou um pouco de tudo?

Então, no começo eu nem tava pensando nisso porque tudo foi muito rápido. Eu estou começando a digerir agora. O que eu posso falar é que tô gostando muito e pretendo continuar desenvolvendo trabalhos com a música. Por enquanto, a medicina vai ficar de lado.


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