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Disney zona

Transito pela Presidente Vargas desde que me entendo. Moro no coração desta avenida hoje dilacerada, com veias abertas, apodrecendo, se degradando sem que ninguém de direito faça algo. Trabalho próximo, no Edifício Palácio do Rádio. Trabalho no Teatro Cuíra. Conheço quase todo mundo. Grandes personagens, que frequentam meus livros, meus escritos. Uns já se foram. Outros, permanecem. Tem o Baldo, que toma conta de carros somente à tardinha, na Praça da República, em frente à Banca do Alvino. O Imperador, com sua esposa Pantera. O gringo, uruguaio, conhecedor de vinhos, que um dia desses vi vagando pela João Alfredo. Realmente, com o Teatro Cuíra, minha coleção aumentou muito. Felizmente temos ótima convivência. Nos protegem. A Primeiro de Março é o quintal da Presidente Vargas e se esta é uma avenida em decomposição, imaginem seu quintal, onde todos os prédios jogam lixo, figuras absurdas transitam, vivem, comerciam, traficam, enfim. Procuremos pérolas no chiqueiro. Foi em uma noite quando Kiko, para nós T. Rex, estava descolando algum como “olhador” de carro, durante uma sessão de “Laquê”, no Teatro Cuíra, que tive a ideia. Parece cruel. É cruel e assim mesmo, não há como não usar humor. O Kiko é um rapaz que tem uma série de deficiências. Mental, certamente, embora não saiba dizer quanto, tampouco o quanto piorou com a ingestão contínua de cola de sapateiro e derivados. Física, porque é como ter os tendões dos braços e das pernas atrofiados, com os braços curtos demais e as pernas também, em comparação com os pés. Isso, mais o formato de sua cabeça, resultou no apelido de T. Rex. Vive entre as casas de prostituição da Primeiro de Março. Quando bebe ou cheira, dorme nas calçadas. Quando se aborrece, levanta a voz. Todos, ali, falam muito alto. Como vivem ao ar livre e mesmo as prostitutas ficam todas à porta, o mundo é sua casa. E assim, falam alto para todo esse mundo ouvir. Talvez estejam é gritando por socorro, sem parar. Acho que é isso. Pois é, o T. Rex estava fazendo sinais, com seus bracinhos, ajudando uma moça a manobrar seu carro. Noto que a manobra cessou, embora o carro ainda não esteja estacionado corretamente. Quando vejo, percebo a motorista, boca aberta, num misto de medo e curiosidade, encarando T. Rex e seus sinais. Fui até lá e com gestos, dei-lhe a segurança que precisava. É um pária. Vive do que consegue amealhar. Com sua deficiência, não consegue sequer assaltar, tomar o que precisa. Tem equilíbrio frágil. Precisa de ajuda. De quem? Grande figura.

Temos a Muda. Prostituta muda? Sim. Não deve ter mais do que 30 anos, branca, bonita, sim senhor, bonita. É violentamente belo vê-la oferecer seus préstimos, com gestos. Sexo oral, vaginal, anal e o preço. Uma vez estava fora de seu ponto. Na esquina da Assis de Vasconcelos com a Osvaldo Cruz. Passei de carro e ela chamou, sem me reconhecer. De volta, acenei apenas. Dois dias depois veio desculpar-se. Parece tão cuidadosa, boa pessoa. Quando se aproximam cheirando cola, fumando maconha ou coisa pior, afasta-se revoltada. Imagino quando faz sexo, como é a comunicação. Bem, talvez nem haja comunicação, não é?

Colega dela, Célia, conheço mais de vista. Tem amizade com a turma do Cuíra. Mora bem ao lado, pela Riachuelo. Quem visitou diz que sua casa, seu quarto, são um mimo de arrumação cafona, mas decente. As cortininhas, tapetinhos, fronhas de travesseiro. Ela própria, morena farta, gorda, digamos, anda cheia de dengo, lentamente, gordamente, com sua cabeleira de dreadlocks e clientes fixos, geralmente senhores de alguma idade.

Temos a Pantera, já mencionada por conta de seu Imperador. Era prostituta da área, mas dizem, foi o excesso de drogas que a levou à insanidade. Mora na calçada, com o Imperador, mas sai circulando, falando sozinha, sempre se defendendo de alguma acusação, mancando de um ferimento na palma de um dos pés. De repente, tira a roupa. Anda nua, magricela, esfomeada, os seios duas muxibas, coitadinha, afrontando o mundo. Pede dinheiro e ameaça tirar a roupa se houver negativa. Ninguém faz nada. Devia ser retirada da rua. Ter um lugar para morar. Receber tratamento. Seu desfile quase que diário é mais uma das chagas da Presidente Vargas.

E o Júnior? É um psicopata. A partir do que conta, vivia com a mãe até esta falecer. Sem ninguém no mundo, mora na rua. Fala sozinho. Autoflagela-se com murros fortes, no peito. Às vezes discute com outros e é severamente agredido. Come o que dão. Veste o que recebe e já troca por qualquer coisa, de pasta a cola. É de natureza boa. Parece incapaz de agressão, mas sua doença não recomenda tanta aproximação, além de lanches e peças de roupas. Anda sumido.

Com um leve retardo, penso, temos Vitória, que está no elenco de “Laquê”. Prostituta, mente livre, sem hora nem lugar para nada, diz para quem quiser ouvir que é compositora e cantora de brega. Que tem repertório para um disco inteiro e que ainda fará sucesso. Uma noite, diante de Nilson Chaves, despejou umas quatro ou cinco de suas canções para que avaliasse. Há também uma família da pesada. A polícia estourou uma fábrica de drogas lá no meio da Riachuelo. Lacrou a casa. A família veio morar ao lado do Cuíra. Durante o dia, o “barão” acende cigarro e lê jornal, tranquilo. Após o almoço, rola um carteado. No começo da noite, banho tomado, calça branca, sapato branco, faz pose. A Polícia pegou. Traficavam, claro. Prendeu todos. Ufa, que alívio. Pena. O “barão” já voltou, cheio de marra. A turma é grande, mas fico por aqui. Esses personagens ficariam no antigo Trem Fantasma do Parque de Nazaré. Carrinhos toscos, em trilhos, o bastante para assustar as crianças. Lembrei do carrinho passando e cada personagem acenando. De alguma maneira eles são lindos, verdadeiros, profundamente humanos e amigos deste mundo, mundão largo, onde vivemos. Meus amigos são baratos!     


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