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REVISTA

Depois daquele beijo

 
Texto da tragédia carioca “O Beijo no Asfalto” ganha sua primeira versão musical, com letras e canções inspiradas no contexto histórico da peça, em que o beijo de dois homens está no cerne de uma trama sobre aparências e julgamentos morais da sociedade, ética jornalística e desejos reprimidos.
 
Você negaria um último pedido a alguém que estivesse a poucos segundos de morrer? Por compaixão, Arandir desviou o caminho que fazia até o banco, numa tarde qualquer, para ceder à vontade de um moribundo que acabara de ser atropelado por um lotação. Em um apelo dramático, o desconhecido lhe pede um último beijo, na boca. Arandir atende o pedido ali mesmo, em plena praça pública. Logo em seguida, o homem morre. Mas, para seu azar, aquele gesto de clemência desencadearia em sua pacata vida uma sucessão de fatos inesperados, que denegririam sua reputação no trabalho, levantariam julgamentos morais sobre seu comportamento na vizinhança e colocariam em cheque sua posição no núcleo familiar.   
 
Esse é o mote da trama de “O Beijo no Asfalto”, considerada uma das principais obras de um dos maiores dramaturgos brasileiros, Nelson Rodrigues, montada pela primeira vez em 1961, e escrita sob encomenda para a companhia de Fernanda Montenegro. O texto teve dezenas de adaptações para o teatro e duas versões cinematográficas. Agora, ao completar 55 anos, volta aos palcos em sua primeira versão musical, sob a produção de Claudio Lins e Isabel Themudo e com direção de João Fonseca. O elenco conta com o próprio Claudio Lins, vivendo Arandir, Laila Garin, como Selminha, Gracindo Júnior, como Aprígio, Yasmin Gomlevsky, como Dália, Claudio Tovar no papel do Delegado Cunha e Thelmo Fernandes interpretando o jornalista Amado Ribeiro.
 
A cena inicial se passa numa movimentada Praça da Bandeira, na zona norte do Rio de Janeiro, dos anos 1960. O episódio é testemunhado pelas pessoas ao redor, entre elas, Aprígio, sogro de Arandir; e Amado Ribeiro, repórter policial inescrupuloso que escreve para um sensacionalista “Última Hora”, o mesmo jornal em que Nelson Rodrigues atuou durante décadas. O ardiloso repórter vislumbra no acontecimento a possibilidade de estampar na primeira página do dia seguinte uma manchete bombástica: O Beijo no Asfalto. Para isso, convence o delegado Cunha a ajudá-lo na coação de testemunhas e na dissimulação de fatos que não condizem com a realidade.
 
  
 
Afinal de contas, o que importa mesmo é vender jornal. E se isso lhes trouxer outros benefícios para sua imagem, tanto melhor! Dias antes, em sua coluna, Ribeiro havia espinafrado o Delegado Cunha, afirmando que ele havia agredido uma mulher grávida. A notícia sensacionalista e distorcida é, portanto, do interesse de ambos. Onde já se viu, um homem beijar outro, na rua, durante o dia, na frente de pessoas de bem? Aquela é a sua chance de receber a marca de “defensores da moral e dos bons costumes”.
 
E assim, os dias subsequentes se tornam um inferno na vida de Arandir, um jovem bancário recém-casado com a sonhadora e apaixonada Selminha. Namorados desde a infância, os dois moram com a irmã mais nova dela, Dália, e sempre recebem a visita do pai das meninas, Aprígio. Levam uma vida morna e feliz de uma família do subúrbio carioca. Mas, a partir da reportagem de capa no Última Hora, a masculinidade de Arandir é questionada publicamente. Os fatos se confundem com uma ficção rocambolesca e Arandir passa a sofrer com a maledicência moral que vem de todos os lados – da imprensa, da polícia, da vizinhança, dos colegas de trabalho. Até chegar ao ponto de a própria família passar a acreditar mais no jornal do que nele.
 
Intérprete de Selminha recebeu dicas de Fernanda Montenegro
Laila Garin carrega a responsabilidade de interpretar um personagem que foi vivido por Fernanda Montenegro, que fez Selminha pela primeira vez e encomendou, ela própria, o texto a Nelson Rodrigues, para sua companhia “Teatro dos Sete” – ela passaria meses cobrando a peça do dramaturgo e chegou a telefonar diversas vezes para a redação do “Última hora”, onde ele escrevia a coluna “A vida como ela é...”, procurando-o. Ele alegava estar sobrecarregado – e estava mesmo. A mesma Fernanda abrandou esse fardo, ao conversar com Laila sobre as facetas da personagem e dividir histórias dos bastidores, nos intervalos de gravação da novela “Babilônia”, trama da rede Globo, em que as duas atrizes contracenaram.
 
“Fernanda me abençoou como Selminha: de uma maneira muito carinhosa, me disse que eu faria muito bem. Ela me contou algumas histórias de quando encomendou a peça e demos muita risada. Também falamos sobre o texto de Nelson, com aquela pontuação tão particular, as falas fragmentadas... Ela me deu exemplos, dizendo trechos da peça e enfatizando que aquela fragmentação não deveria nunca ser algo formal ou histérico, mas sim fruto de uma conversa interior. E eu ali, de boca aberta, enquanto ela dizia o texto. Tenho muita admiração por ela!”, recorda.
 
 
Na mesma novela, Laila Garin também dividiu cenas com Cláudio Lins, que faz seu esposo na peça de Nelson. Mas eles já foram casados no teatro, quando ele interpretou o pianista César Camargo Mariano, segundo marido de Elis Regina, no premiado musical sobre a cantora, estrelado pela atriz. 
  
Música amplia aspectos dos personagens e do texto Rodrigueano
O musical é um ambicioso projeto pessoal do ator e compositor Cláudio Lins, que além de interpretar o personagem principal, é o responsável pela pesquisa musical e composição das canções inéditas. Para tanto, ele mergulhou, durante quatro anos, em uma extensa pesquisa sobre a sonoridade musical dos anos 1960. O resultado está em 15 canções inéditas, executadas por uma banda ao vivo, com bases pré-gravadas que lembram o som dos rádios da época. Como inspiração para o repertório que conduz a história, estão Cauby Peixoto, Tito Madi, Vicente Celestino, Orlando Dias, Roberto Silva, Nelson Gonçalves, Anísio Silva e, principalmente, Dolores Duran.
 
Durante a pesquisa, Lins teve a oportunidade de reunir alguns temas e músicas que fazem uma impressionante aproximação com o universo retratado na peça e sua conjuntura histórica e política. Mesmo não tendo qualquer relação com a obra de Nelson, algumas parecem ter sido escritas sob encomenda para a trama, como o repertório de Dolores Duran e o samba Jornal da Morte. “Já conhecia essa música há anos, mas foi através dela que conheci melhor esse grande compositor das décadas de 1950 e 60, o Miguel Gustavo, cuja obra merece toda a nossa reverência. Ao longo de toda a pesquisa, a figura que mais me chamou a atenção foi a de Dolores Duran. Sem dúvida, o clima de suas canções se encaixa muito bem no imaginário das personagens do Nelson”, define.
No espetáculo, as novas músicas são intercaladas com trechos de algumas canções do mesmo contexto, que possuem sonoridades ou temáticas afins. “Foi um processo de pesquisa delicioso, em que pude ter contato com um cancioneiro popular brasileiro riquíssimo e, infelizmente, quase esquecido. Citando as canções desse período, não só saciava a minha vontade de reverenciar esses grandes artistas do passado, como resolvia melhor a questão de localizar a peça na sua devida época”, detalha.
 
Ao lado do diretor, João Fonseca, ele entendeu que seria enriquecedor para o espetáculo situar o texto de Nelson no conturbado contexto da década de 1960. “O fundo histórico é único: a transferência da capital pra Brasília e o curto governo de Jânio Quadros. Sendo assim, não resisti e compus uma das canções em mash up com o jingle eleitoral do Jânio, ‘Varre, varre, vassourinha’”, resume Lins.
 
Apesar dos percalços e de muita polêmica, a primeira montagem de “O Beijo no Asfalto” acabou se tornando o maior sucesso de Nelson Rodrigues até então. Ao todo, foram sete meses em cartaz, com duas temporadas no Rio de Janeiro (Teatro Sesc Ginástico e Maison de France) e viagens pelo Sul do país. O sucesso só não foi maior devido à renúncia de Jânio Quadros, quando a peça completava cerca de um mês e meio de temporada. Obviamente, o fato fez o Brasil parar por quase 10 dias, ficando à beira de uma guerra civil.
 
Mas segundo consta em “O anjo pornográfico”, a biografia de Nelson Rodrigues escrita por Ruy Castro, a consagração da peça não foi nada tranquila. Mesmo sem conter sequer um palavrão (curiosamente, nenhuma das montagens de Nelson contém palavrões), muitos espectadores se sentiram ultrajados com os diálogos e alguns chegaram a vaiar as cenas antes de deixar suas poltronas. O que fez com que o próprio autor fosse todas as noites para o saguão do Maison de France, interpelar os espectadores que saíam no meio do espetáculo, tomando satisfações dos indignados: “Mas vem cá, me diz uma coisa! O que o ofendeu nesta peça?”. Quase sempre, Nelson os convencia a voltar para assistir ao desfecho.
 
De acordo com o diretor do musical, João Fonseca, que já montou quatro peças do dramaturgo e considera seus textos “observações preciosas sobre a alma humana”, o desafio de dirigir uma obra clássica de Nelson, com toda a sua carga dramática e miticamente consagrada, se expande ao ganhar o artifício da música. As canções funcionam como um componente a mais na trama, sugerindo aspectos que tornam ainda mais complexos e ambíguos os personagens, enriquecendo-os. “A ideia era exatamente essa, para que as músicas pudessem abrir mais algumas janelas nessa história genial”, destaca.
 
Fonseca revela ainda ter sido proposital a escolha do teatro Sesc Ginástico (na região central do Rio de Janeiro), o mesmo em que a peça foi apresentada pela primeira vez, para a estreia desta versão musicada. “Desde o primeiro momento, achamos que seria o melhor lugar para uma nova montagem. Suely Franco, que fez a Dália na primeira versão, conta que, na estreia, após a cena de Selminha sendo abusada pelos policiais, ela quase não conseguiu entrar para dar prosseguimento à peça, tamanha era a reação de indignação da plateia”, lembra. Após ser encenado no Rio, “O Beijo no Asfalto – O Musical” seguirá em 2016 para temporada em São Paulo.

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