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REVISTA

Darwin nos Campos do Senhor

Fui convidado a abrir um seminário de extensão sobre a interação empresa e escola. Não podia me estender, nem querer ensinar Padre-Nosso ao vigário, então tive que fazer escolhas. Aliás, o cotidiano da administração, da gestão de qualquer empresa, escola, clube, condomínio, cidade ou país é ter que decidir, fazer escolhas. Nesse aspecto, todos nós temos motivações bem distintas para decidir, desde que não estejamos com a responsabilidade da decisão.

 É o caso do torcedor no futebol, essa paixão inebriante que nos cega. Até criamos um termo para isso, é o peru, aquele que fica na galera gritando: “tira esse jogador, ele é um cabeça de bagre”. “Ô técnico burro, fica só defendendo e nunca ataca”. “Tudo parece tão fácil, é só colocar o diabo da bola dentro da trave do outro time”, “por que esses pernas de pau não conseguem?”

Seria oportuno, para o bem do futebol, se todo torcedor fosse técnico por um dia. Daria até um quadro num programa de TV, um reality show de futebol. Ora bolas, no país do futebol e do BBB ainda não inventamos isso?

Acho que não inventaram porque seria um desastre. De fora, tudo parece simples. O problema, como diria o filósofo Garrincha, “é acertar com os russos”. Para os pouco afeitos aos trejeitos da pelota, reza a lenda que na Copa de 58 o técnico Feola, na preleção da partida contra a extinta URSS, dava orientações sobre como vencer a partida, quando o notável Garrinha saiu-se com essa pérola: “mas combinaram com os russos?” Esse é o problema, na vida como no futebol, há sempre o outro lado que não faz exatamente como nós prevíamos.

Seja num jogo, numa guerra, na gestão de negócios ou na sua própria casa, temos que tomar decisões diante de um cenário de incertezas e com múltiplas variáveis impossíveis de prever. Já vimos muitos comentaristas de futebol se tornarem técnicos e terem a carreira fulminada por maus resultados. Muitos gurus de administração não seriam executivos ou empresários de sucesso, não porque não saibam o que fazer, mas porque o jogo é extremamente complexo e com as regras sendo alteradas a todo momento.

O que a academia faz, e faz muito bem, é determinar alguns modelos e conceitos que não ferem o bom senso e submetidos a provas mostram-se eficientes. Isso é ciência e ajuda muito na tomada de decisões, mas não é suficiente, pois o jogo está mudando a toda hora, tanto com novos jogadores quanto novas regras. Se houvesse uma única e eficiente fórmula, nenhuma empresa afundaria, todos seriam empresários de sucesso. Mas, haveria espaço para tantas iniciativas de sucesso?

Não há como fugir da comparação, o mundo dos negócios é uma selva e nela Darwin já destacou os pontos nevrálgicos da sobrevivência das espécies: a adaptação. Não é o maior nem o mais forte; sobrevive quem melhor se adapta ao meio. E o meio está em permanente mutação. Como na natureza, há uma cadeia alimentar e os recursos são finitos. Todos os seres vivos disputam esses recursos e desenvolvem estratégias de sobrevivência próprias. Como disse Lavoisier, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. E, nessa constante transformação, nesse limite de recursos, os seres e as empresas têm que aprender como sobreviver. Para isso devem a todo instante observar o ambiente ao redor, entender os sinais, estudar alternativas, avaliar escolhas, desenvolver um plano e seguir em busca do alimento ou fugir de um predador.

Para as empresas, o alimento é o lucro, este é o combustível que movimenta e a faz seguir em frente. Contra as correntes do pensamento politicamente correto, uma empresa tem que perseguir constantemente o lucro, sob pena de definhar e desaparecer. E, nessa selva, o lucro se esconde e é difícil persegui-lo. Além disso, os predadores estão em todos os lugares, sejam eles concorrentes, o governo ou até mesmo qualquer outra empresa que dispute o bolso do consumidor, matéria-prima do lucro.

Foi-se o tempo em que se definia lucro como “o resultado do preço de venda menos o custo”. Hoje parte-se do preço que o mercado balizou, que o cliente está disposto a pagar e diminuindo-se o custo tem-se o lucro. A sobrevivência das espécimes corporativas está em estruturar custos para se obter lucro. Ou seja, como qualquer organismo vivo, tem que ter maior eficiência energética, gastar menos energia, portanto, ter menos custos, para que possa sobreviver com menor lucro, menos alimento. Isso é se adaptar é desenvolver estratégia de sobrevivência e cada espécie, a seu modo, desenvolve seu meio.

O camelo criou um depósito de água interno para sobreviver até 15 dias sem beber, dado o ambiente hostil em que vive. As abelhas, formigas, cupins desenvolveram uma inteligência social em que cada indivíduo não tem praticamente inteligência alguma, mas o coletivo desenvolve um trabalho maravilhoso, inigualável na natureza. Os ursos hibernam e assim economizam energia no inverno quando escasseia o alimento. Cada animal, cada ser vivo desenvolveu sua estratégia ao longo da evolução. Algumas são similares, outras consagradas, mas só importam as estratégias que deram certo, as outras ficaram pelo caminho e não é porque a natureza é má. É o ciclo da vida, não há eternidade, tudo é passageiro. Você pode apenas alongar sua permanência e da sua espécie.

Então, como empresa, temos que pensar como elementos da natureza que a cada dia buscam alongar sua permanência entendendo como alcançar os poucos recursos que todos disputam. Para isso, estamos sempre estudando e entendendo o ambiente à nossa volta para tomar as decisões oportunas, não as certas, não as definitivas, mas aquelas que o momento e todas suas variáveis impõem. E a vitória é a longevidade, não a eternidade. Pragmatismo darwiniano.


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