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REVISTA

Darf punk

O duo francês Daft Punk, ao que parece, não fez o novo álbum para ser vanguarda de música eletrônica. Quem estava na expectativa de uma nova e surpreendente experiência na e-music, após os oito anos que o separam do “Human After All” (2005), ficou certamente um tanto frustrado com o orgânico, pop e épico “Random Access Memories”, lançado oficialmente no último mês de maio.

Em tom de homenagens a referências da dance e do disco – como na faixa “Giorgio by Moroder”, em que a dulpa presta tributo ao mestre da disco music, o produtor Giorgio Moroder – o “RAM” (como o disco do Daft Punk é carinhosamente chamado) parece estabelecer uma jornada em que um espírito saudosista/robótico emerge, ressaltando o “humano” por trás dos homens de capacetes. É como se os músicos-robôs com seus tradicionais vocoders (timbre que é marca do Daft Punk e faz a voz ficar com textura robótica) e synths (oitentistas) se rendessem à melancolia humana, expondo, talvez, algo como uma crise existencial.

O projeto megalomaníaco – em parceria com Sony Music e com status de lançamento mais importante do ano, envolvendo muitos colaboradores e participações, entre elas Pharrell Williams e Nile Rodgers – ameaçou, mas não comprometeu a personalidade audaciosa de Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, que trouxeram, além do  synth-pop na faixa “Instant Crush, com Julio Casablancas no vocal (faixa que podia estar no último álbum do projeto solo do frontman do Strokes), rock progressivo na arrastada “Touch” (com participação de Paul Williams) e uma assumida reverência disco em “Lose Yourself to Dance”. A irresistível “Get Lucky” foi lançada num single, numa poderosa, estudada e competente campanha publicitária junto ao clipe, já assumindo o posto de um dos maiores hits do ano em todo mundo.

Muitos disseram que o RAM pretende ser o “Thriller” deste começo de século. Apesar das notáveis semelhanças (até na tipologia da capa e contracapa),  os homens dos capacetes brilhantes nos dão um trabalho cheio de força subjetiva e personalidade, um discopop, dançante e com muitos momentos levemente tristes. O experimentalismo das máquinas cede aos labirintos da alma. Homem e máquina se fundem nesse épico que acaba de nascer. Homens não choram, mas já as máquinas.... Chico Science teria uma citação improvável, mas necessária: “computadores fazem arte, artistas fazem dinheiro”.


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