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Da Lapa ao Mascote: Sebastião Tapajós

Tapajós, o rio, enche de horizonte a visão dos mocorongos*, tanto quanto Tapajós, o mestre maior do violão paraense, enche de beleza o coração de quem ouve seus trinados, levadas e acordes. Há muitas décadas, Sebastião Tapajós potencializa, sem muito esforço, a criatividade do violão brasileiro.
Nas suas incontáveis viagens pelo mundo deixou rastros: discos e apresentações memoráveis. Tocou com Astor Piazzolla, Paquito D’Rivera, Hermeto Pascoal, Zimbo Trio, Waldir Azevedo, entre outros. Gravou Radamés Gnattali, Guerra-Peixe, Villa-Lobos e Dilermando Reis. São mais de 50 anos de carreira em mais de 50 discos.

“Tião” é da turma dos gênios simples, quero dizer, dos que prezam por simplicidade. Talvez por isso o interesse em gravar um álbum dedicado à boêmia e às noites dos homens simples dos botecos e rodas de samba. Fez o elo entre as os redutos centrais do samba-choro carioca e a sonoridade amazônica. Essa é a ideia do “Da Lapa ao Mascote”, mais recente trabalho do mestre que acaba de chegar em cd.

Em doze faixas compostas pelo Tião, o disco traz a síncope do samba-jazz na maioria das músicas, com sopros mais tradicionais e lances ousados de percussão, vindos das mãos virtuosas e precisas do Márcio Jardim (que também assina a direção de estúdio). Trata-se de um álbum de composições onde todos os músicos têm muito destaque, não é um disco do solista Sebastião. Edmárcio Paixão (violão), Dhionny Vianna (contrabaixo), Andresson Dourado (Teclado), Júnior Castro (Flauta e Sax Soprano), Gean Araújo (Trombone) e Yuri Lima (Bateria) são os músicos participantes na maioria das faixas.

Ney Conceição, antigo parceiro, com quem já dividiu vários discos, aparece nos baixos de “Mascote”, “Didi Manu” e “Aos da Guitarrada”, esta última, música que Sebastião Tapajós dedica aos músicos da guitarrada, gênero típico do Pará, forjado nos anos 70 das mãos de guitarristas como Vieira, Aldo Sena, Solano e Marinho. Sérgio Ábalos, argentino que tem sido parceiro de Tapajós nos últimos anos, também mostra categoria brasileira em algumas faixas do álbum.

Sebastião Tapajós é caudaloso, brasileiro e lírico como o rio que margeia Santarém.

(*) NE: mocorongo – como carinhosamente é chamado quem nasce em Santarém, oeste do Pará.


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