REVISTA

CLÓVIS

O carnaval chegando e a Vera Lucia começando a ficar incomodada. É que o Carlos Eduardo, seu namorado (e que ela pensava ser bem normal, do tipo chegar em casa na hora, ir à missa aos domingos, jantar fora na sexta ou no sábado, cineminha antes, enfim, essas coisas que todo mundo faz) tinha um problema. O problema era o carnaval.

Antes que vocês pensem que no, digamos, “período momesco”, Carlos Eduardo ficava louco, caía na farra três dias seguidos, se vestia de mulher e se intitulava Carmem Miranda (o que seria motivo suficiente para a Vera Lucia se aborrecer, do jeito que vocês já perceberam que ela é), devo dizer que no carnaval, o Carlos Eduardo saía de “Clóvis”. Sim, de “Clóvis”, aquele palhaço, com a cabeça toda coberta e no lugar da boca, um apito. Ele disse que era uma tradição de família. O pai, seu Carlão, já falecido, saía fantasiado – primeiro pelo Boulevard, ali na frente da Estação das Docas, depois pela Presidente Vargas, brincando com as pessoas. Tudo de maneira bem inocente, ingênua, brincadeira, na boa. Quando o Carlos Eduardo fez oito anos, o pai deixou que ele o acompanhasse. Ninguém sabia quem eram os dois palhaços. O segredo era parte da coisa.

Mas quando chegou perto do carnaval, ele contou. Ela não acreditou. Ele jurou. Ela achou tão bonitinho que se apaixonou mais ainda. Quando o pai morreu, ele continuou com a tradição. Mas os tempos são outros. O carnaval está acabando em Belém. A violência, aumentando. Houve um ano em que bateram no Carlos Eduardo. Ele estava brincando com uma criança. Acho que pensaram ser um pedófilo. Que maldade. Logo com o Carlos Eduardo...

Aí veio a vontade de ir para Salinas, durante o carnaval. O Carlos Eduardo não queria. E como ficaria a homenagem? Mas não tem mais carnaval... Ficou triste, chateado, até chorou. E o pai? Ah, faz lá esse teu palhaço, né? Iluminou o rosto. Isso mesmo. Mas será que os amigos não vão ridicularizar? Ai meu Deus, logo agora que nós estamos fazendo amizade com os Dantas Chagas, os irmãos Lima, e aquela mulher do Renato, com nariz empinado. Puxa vida, escuta, Carlos Eduardo, não dá pra deixar pra lá essa homenagem? Já foram tantas vezes! Conformou-se. No sábado, quando chegou no Atalaia, estava todo mundo. A turma. Perguntaram pelo Carlos Eduardo. Começou a contar, até mesmo para avisar, para argumentar. Era uma homenagem ao pai, algo bem poético, para as crianças, mas também para os adultos, sabem?

Você tem certeza que o Carlos Eduardo vem de palhaço? Não é bem um palhaço, é um “Clóvis”...O que é “Clóvis”?

Carlos Eduardo havia descido no começo da praia, e iria andando até onde estava Vera Lúcia. Era o combinado. Daria seu passeio e homenagearia o pai. Levou algumas vaias. Outros aplaudiram. As crianças vinham brincar. Um jogou água. Areia. Tolo. Os ambulantes começaram a se aproximar, aproveitando que já se constituía um pequeno cortejo atrás. Começou a encontrar pessoas conhecidas. Nem sonhavam quem estava por trás da máscara. Acostumara-se com isso desde que saía com o pai. Que saudade. Lagrimou.

Foi quando algo chamou sua atenção. Uma “Clóvis”. Uma “Clóvis”? Mulher, com certeza. Pelo corpo, leveza. Mas que corpo tinha essa “Clóvis”! Chegou próximo e começou a brincar. Respondeu. Dançaram. Palmas. E vão brincando. Essa “Clóvis” é o máximo, pensou. Tão distraído estava que nem percebeu que o cortejo chegara ao ponto onde estavam os amigos. Vera Lúcia. Eles chegaram próximo. As crianças. Carlos Eduardo começou as brincadeiras. O problema foi quando a mulher do Renato, sempre ela, fez o comentário sobre a “Clóvis”... Não prestou. Primeiro o marido vestido de palhaço e agora, a seu ver, fazendo-a de palhaça, com aquela sirigaita, ao lado, fantasiada? Que história é essa?

Confusão. A Vera Lúcia não parava de falar. Vocês sabem como é... A Vera Lúcia é barraqueira... Entraram no carro. Onde havia ido parar a “Clóvis”?
Parece que a viu, de relance. Havia uma expectativa, pensava, em sua máscara. Olhou para Vera Lúcia, à sua frente, os braços feito um açucareiro, esculhambando, esculhambando... E a “Clóvis”, lá adiante, dançando, linda, fazendo uns sinais. Vem... Vem... . Às vezes a sorte te solta um cisne na noite. O que fazer?
 


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