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REVISTA

Boas novas

Lamento informar às multidões de turistas que acorrem ao Rio de Janeiro no verão: o período do ano que oficialmente vai do final de dezembro ao final de março é o pior para se estar na cidade. Ela está inchada de gente, encarecida e, claro, muito, muito quente. Porque apenas quente, ela sempre está: o Rio é a capital mais tórrida e figura entre as dez cidades mais escaldantes do Brasil. Perdão se volto brevemente ao tema da coluna passada, o calor, mas agora o faço – trago boas novas! – para saudar-lhe a queda. O Rio de abril a novembro faz jus, sim, ao título da marchinha Cidade Maravilhosa.

Fico matutando se a exaltação ao verão no Rio não teria algo de propaganda deliberadamente enganosa: uma maneira de atrair os turistas para a temporada menos bela enquanto o carioca da gema – expressão que designa o carioca filho de cariocas, meu caso – escapole para outras praias e para as montanhas. Celebrar o verão seria, então, um modo ardiloso de preservar para si o melhor momento da cidade. Tá certo, não para si só, pois há um fluxo constante de visitantes; para si e para os turistas que têm a perspicácia e a disponibilidade para aqui aportarem no miolo do ano.

A primeira mudança que o carioca percebe é na luz do Sol. Ela não fica somente mais fraca: ela fica mais límpida. Os vapores do verão a turvam, emprestando ao céu um aspecto leitoso, sujinho. De quebra, essa nebulosidade cria um efeito estufa local, que retém o calor mesmo durante o adiantado das noites. De abril a novembro, não. O azul fica ao mesmo tempo mais nítido e mais suave. Mesmo quando a temperatura se eleva durante o dia, o que é comum, a noite proporciona o frescor que torna mais fácil conciliar o sono – sobretudo para quem, como eu, evita o ar-condicionado.

(A luz de abril é tão radiosa que, enquanto escrevo, ela penetra no escritório pelo meu flanco e, refletida na tela do computador, ofusca o meu olho direito.)

Se sair à rua no verão, afastando-se ao menos temporariamente de qualquer forma de refrigeração, exige disposição para suar, sair à rua neste periodão sem nome próprio que abarca outono-inverno-primavera é um prazer para o corpo e, em particular, para os olhos. Passado o desconforto físico de simplesmente existir sob as temperaturas extremas que caracterizam o verão carioca, a cabeça pode se fixar nas coisas e nas gentes da cidade. Passada a histeria de viver “a sua estação”, ou o que os forasteiros esperam que seja a sua estação, o Rio pode ser ele mesmo, mais relaxadamente.

Mais relaxadamente, taí uma expressão importante. É difícil dizer se é o calor em si ou se são a superlotação e a inflação na cidade, mas o fato é que o carioca se torna mais tenso no verão. Há uma impaciência grupal em resolver logo as coisas e ou ir para a praia ou voltar ao ar-condicionado. O trânsito, esse sensível termômetro da civilidade (ou da falta de civilidade) brasileira, se torna mais difícil, mais lento, mais irritado. Não adianta nem argumentar com o carioca que se ele está parado, está parado diante de algumas das paisagens mais belas do mundo – diferentemente do engarrafado vizinho paulistano. Nessa hora, nem apelar para o bairrismo de gosto duvidoso funciona. No miolo do ano, o número de automóveis diminui sensivelmente, conforme os veículos de outros estados retornam para casa, o que ajuda o trânsito a fluir melhor.

Então, cara leitora, caro leitor, se você pretende vir ao Rio, considere trocar janeiro ou fevereiro por julho ou agosto. O estado de espírito da cidade se torna mais hospitaleiro, suas belezas se tornam (mais) visíveis sob o suor na testa, a vida é bela.

Acho que acontece algo parecido com a propaganda das grandes cervejarias. Elas concentram seus esforços em apregoar seus produtos em associação com verão, calor, gente semidespida na praia (gente, aliás, que parece nunca ter tomado uma cervejinha, tal a perfeição geométrica de seus ventres). Entendo que o hábito local de se beber cerveja estupidamente gelada refresque de fato a goela, apesar do notável prejuízo à capacidade de se sentir à vera o sabor da bebida, o que é péssimo no caso de uma boa marca, como a paraense Cerpa ou a paulista Colorado. O álcool, porém, desidrata se consumido em grandes quantidades. E haja cerveja para tentar afastar o calor do verão carioca... Como o próprio calor desidrata, é óbvio, fica o pessoal ressecando por dentro na praia do Leblon. Outro caso de propaganda enganosa. Biritar é bom no friozinho, como bem sabem os mineiros, que celebram suas grandes pingas nas noites de inverno.

No calor da praia, vá por mim, água de coco é melhor e mais saudável, sobretudo se não tiverem jogado o preço nas alturas, como acontece a cada novo verão. Não faz muito, deve-se dizer, um coco gelado custava R$ 1 na orla do Rio. Seu preço parecia congelado por um acordo tácito – ou seria um cartel do bem? – entre os vendedores. Hoje, no verão de uma cidade que recuperou sua autoconfiança, se você encontrar um coco por menos de R$ 5, ganha um beijo da garota de Ipanema.


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