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REVISTA

Aqui, o futuro

Este é o brinquedinho que promete transformar a vida de todo mundo

 

Avanços tecnológicos quase sempre geram febres de consumo imediatas. Mas às vezes, elas são precedidas de uma onda global de desconfiança. Veja só o exemplo do iPad. Apresentado em janeiro de 2010, o novo produto da Apple só não foi chamado de santo. A principal dúvida era se um dispositivo pequeno demais para competir com netbooks e grande demais para entrar no mercado de smartphones realmente emplacaria. Passada a avalanche de chacotas e críticas, o iPad deu sua resposta. Vendeu 1 milhão de unidades nos 28 dias seguintes ao lançamento nos Estados Unidos, em 3 de abril. E em 80 dias, chegou à marca de 3 milhões de compradores, o que o leva a ser o gadget de adesão mais rápida no mercado. Nem o iPhone, hoje um habitué dos viciados em tecnologia, vendeu tão rápido. No Brasil, o produto foi lançado no início de dezembro e promete ser uma das vedetes do Natal de 2010. Mas por aqui já teve gente que nem esperou o lançamento nacional e já agregou à vida o aparelho que obriga o mundo a se readaptar: o mercado editorial, a educação e a indústria do entretenimento.

Para entender o iPad, é necessário fugir de comparações com aparelhos já existentes. Ele não chegou para substituir o seu netbook e nem o seu smartphone, e sim ocupar uma lacuna entre os dois. É o que se convencionou chamar de tablet, que poderia ser traduzido como "prancheta" em português. Tablets são computadores ultraportáteis com tela sensível ao toque, que dispensam a necessidade de mouse ou teclado. Se antes esses dispositivos tinham como público-alvo os profissionais do engravatado mundo corporativo, o iPad parece direcionar seu foco para os usuários básicos de informática. Quem usa o computador para ler e-mails, navegar na web, participar de redes sociais, ver vídeos e escutar música, não precisa mais passar horas sentado ou carregando no colo um notebook de mais de 2 quilos. Um iPad resolve tudo isso de forma mais rápida, ainda que seja menor e mais leve que uma revista: 1,27 centímetro de espessura e 680 gramas de peso. Além do mais, pode acessar a internet por Wi-Fi e 3G, sem nenhuma necessidade de cabos.

 

Carlos Barreto foi um dos primeiros a ter um Ipad em Belém

 

"O iPad é um centro multimídia móvel", define o argentino Roberto Igarza, doutor em Comunicação da Universidad Austral (Buenos Aires) e pesquisador de novas formas de consumo cultural. Igarza usa o novo tablet como um exemplo de uma metáfora que costuma fazer: a Apple é uma espécie de "alta costura" da tecnologia. "Mais do que tudo, Steve Jobs lança conceitos. Nem todas as pessoas terão um iPad, mas ele já dita tendências do mercado e virou objeto de desejo. E o conceito trazido pelo iPad nos fez descobrir a mobilidade associada a uma tela sensível ao toque e colorida, com uma disposição ergonômica extraordinária frente ao que víamos até três anos atrás", explica.

O médico Carlos Eduardo Barretto foi um dos primeiros paraenses que se deixou seduzir por este novo conceito. Pediu a um amigo que viajou para os Estados Unidos que lhe trouxesse um iPad. Aficionado por tecnologia e fanático dos produtos da Apple, ele acompanhou a transmissão pela internet da apresentação oficial do produto em janeiro. E descreve a primeira impressão de uma forma bastante romântica. "Na mesma hora que vi o iPad, me apaixonei. Você aperta o botão de liga/desliga e lá está a web, o e-mail, o Twitter e mais milhares de aplicações exclusivas ou iPhone compatíveis, bem no seu colo. Além disso, toda a capacidade de exibir vídeos em alta definição, ouvir as músicas do iPod. Tudo isso sem precisar esperar um longo boot de um sistema operacional. É o sonho da internet portátil e descomplicada", opina. Os jogos já disponíveis para iPad seduzem os dois filhos do médico, a quem ele permite que se divirtam um pouco. "Desde que seja sob minha estreita supervisão e literalmente em estado de stress elevado. E eles ainda querem mais", brinca.

 

A praticidade atraiu a estudante Larissa Ramalheiros

 

A praticidade foi o que levou Larissa Ramalheiro, estudante de administração de empresas e gerente de uma loja em Belém, a comprar um iPad em setembro deste ano em uma viagem a Buenos Aires. "Como viajo com bastante frequência e estar conectada à internet sempre, vi no iPad a facilidade de acesso sem ter que andar com um notebook mais pesado e com carregador. Dentro da bolsa ele fica super discreto", explica. Larissa usa o iPad para trabalho, entretenimento e lazer e, apesar de já ter boas expectativas sobre o produto antes de comprá-lo, ainda teve as expectativas superadas. "Por mais que eu soubesse das versões de jornais e revistas, pensei que usaria pouco esta função. Mas atualmente utilizo mais do que pensava. Não dá mais pra viajar sem o iPad!", brinca.

Na capital paraense, pouca gente pode avaliar tanto o sucesso do iPad nesses primeiros meses após o lançamento como Raul Parizotto. Dono de uma loja de acessórios para dispositivos da Apple, ele oferece também um serviço de personalização para os clientes de Belém instalando aplicativos e arquivos multimídia.

 

Raul Parizotto já recebeu mais de 500 clientes desde o lançamento mundial do aparelho da Apple

 

"Já recebi uns 500 clientes com iPad aqui. E a segunda-feira é um dia de movimento espacial, já que é o dia da semana em que as pessoas que viajam a Miami costumam voltar para Belém", conta. Raul tem um grande acervo de programas, músicas, filmes e episódios de seriados que instala no aparelho de acordo com o perfil do cliente. "Tenho aplicativos para médicos, advogados e várias outras profissões. Eles são fundamentais, já que, por si só e sem aplicativos, o iPad não te leva a lugar nenhum", explica.

Impactos

O novo brinquedinho da Apple já nasceu em berço esplêndido no que se refere a programas. Os cerca de 150 mil aplicativos para iPhone disponíveis na loja online da Apple são compatíveis com o novo produto. Mas a produção direcionada para a tela de 9,7 polegadas do iPad deverá quebrar paradigmas em alguns segmentos de mercado. O mercado editorial deverá ser um dos mais impactados. Com as vantagens multimídia do iPad sobre os outros leitores de e-books, o conceito de livros eletrônicos deverá sofrer transformações significativas. A Ediouro, por exemplo, já estuda a criação de uma espécie de “e-book 2.0”, que deve trazer além dos textos digitalizados, vídeos e áudios.

No entanto, para que o iPad emplaque no segmento de revistas e jornais, ainda é necessário rever algumas distorções no que diz respeito a preços. Uma edição de revista para o iPad custa hoje de 3 a 5 dólares, não muito diferente do que se paga nas bancas, mesmo sem custos de impressão e distribuição. E se forem comparados os preços das assinaturas, a disparidade é ainda maior. Por exemplo, assinar a revista Time por um ano nos Estados Unidos custa 20 dólares. Comprar os 52 exemplares semanais avulsos na App Store da Apple sai por 254 dólares. A Apple já está tentando negociar com as grandes publicações americanas para criar parâmetros para as assinaturas no iPad, mas ainda esbarra em desentendimentos sobre política de publicidade e de preservação de dados de clientes.

A educação também deverá sentir os impactos do iPad. Já estão disponíveis dezenas de aplicativos que ajudam a professores, pais e alunos. Ensinar às crianças as cores, formas e primeiras palavras numa telinha de alta resolução e sensível ao toque ganha uma dimensão inimaginável pouco tempo atrás. A matemática, tão odiada por adolescentes, pode se tornar descomplicada e até atraente. E algumas necessidades muito específicas, como autismo e problemas no desenvolvimento da fala, ganham uma plataforma interativa.

O iPad teve o lançamento homologado pela Agência Nacional de Telecomunicações no final de agosto e chegou às lojas na primeira semana de dezembro. No Brasil, ele terá uma peculiaridade: será vendido também pelas operadoras de telefonia celular, que vão oferecer os planos de acesso a internet 3G. Nos outros países em que o iPad já pode ser encontrado, ele é vendido em lojas de eletrônicos.

A “exclusividade” no modelo de negócios tem duas opções de caminhos: os brasileiros poderão ficar reféns de um possível preço-padrão praticado pelas operadoras ou a concorrência será estimulada por promoções.  Os preços oficiais estipulados pela Apple no Brasil vão de 1650 reais (na versão Wi-Fi com 16GB de memória) até 2600 reais (na versão Wi-Fi 3G com 64GB). Mas especialistas acreditam que o mercado dos tablets poderá oferecer opções mais baratas em alguns anos, o que será fundamental para a popularização desse tipo de dispositivo. “É o que acontece com os principais lançamentos da Apple. As indústrias concorrentes desenvolvem produtos similares ou análogos que, por serem mais baratos, têm chegada mais massiva. Talvez daqui a dois ou cinco anos, poderemos analisar nas ruas os resultados”, explica o argentino Roberto Igarza.
 


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