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REVISTA

Amigas e (nada) rivais

texto: Camila Gaia

fotos: Daryan Dornelles / Divulgação 

 

Após mais de 60 anos, Nicette Bruno e Eva Wilma voltam a contracenar juntas na inédita adaptação para o teatro do clássico O que terá acontecido a Baby Jane?

 

 

O texto narra a dramática história das irmãs Hudson, adaptada para o cinema em 1962 e estrelada por Bette Davis e Joan Crawford. Após ser uma estrela mirim, Jane (Eva) precisou lidar com a decadência de seu prestígio e o posterior sucesso de sua irmã Blanche (Nicette), em Hollywood. Após um trágico e misterioso acidente, elas se encontram confinadas – e abandonadas – em uma mansão, onde dividem um cotidiano recheado de mágoas e ressentimentos.

om carreiras mais que consolidadas e inúmeros projetos para a televisão, cinema e teatro, Eva Wilma e Nicette Bruno dizem ainda se sentirem desafiadas diante de um novo projeto. Foi assim com a inédita adaptação de “O que terá acontecido a Baby Jane?”, que estreou nos palcos paulistanos em agosto, em curta temporada. A estreia mundial do thriller psicológico escrito por Henri Farwell, cuja montagem americana só irá para a Broadway em 2017, esteve a cargo de Charles Möeller e Cláudio Botelho, que já assinaram clássicas montagens como o A Noviça Rebelde, O Mágico de Oz, As Bruxas de Eastwick, Sete – O Musical, entre outras.

“Diferente de Joan Crawford e Bette Davis, nós nos queremos muito e nos damos muito bem (risos)”, revela Nicette Bruno, em referência à conturbada relação das estrelas americanas, que eram de estúdios rivais e famosas por serem grandes inimigas. “Eu já tinha em conta que era um convite atraente, principalmente quando fiquei sabendo que teria uma parceria com a Nicette. A gente se sente assim, meio irmãs”, evidencia Eva Wilma.

 

 

 

DNA teatral

A escolha das atrizes para interpretarem Jane e Blanche não foi aleatória. Botelho e Möeller fizeram questão de ressaltar que Eva e Nicette trazem em seu DNA a história do teatro brasileiro e, mesmo que a peça fosse ruim (o que certamente não é), tê-las juntas no tablado é uma verdadeira celebração das artes cênicas nacionais.

“Quando recebemos o convite, logo nos foi enviado o texto e eu gostei muito da adaptação, da concepção. Depois, logo nos primeiros encontros os dois colocaram com uma clareza muito grande toda a proposta cênica, que não é fácil, mas que nos agradou muito”, ressalta Nicette. “A gente está evoluindo, aprendendo, tem sempre mais para aprender, tem que aprender para mergulhar de verdade no seu ofício”, pondera Eva.

A dificuldade e desafio certamente têm relação não somente em interpretarem famosas vilãs do cinema, o que por si só é tarefa árdua, mas por precisarem se odiar em cena, sendo grandes amigas na coxia. “Com a direção segura do Charles e o trabalho de toda a equipe, nós conseguimos esse distanciamento gostoso que o teatro exige, para que nós pudéssemos enfrentar mais esse desafio de interpretarmos essas duas irmãs que são um conjunto de amor e ódio”, conta Nicette. “O que nós fazemos quando termina uma cena muito forte, nos damos a mão, um beijinho, para criarmos um distanciamento”, completa.

Para Eva, a experiência é um mergulho na interpretação. “O que me fascinou no texto é uma coisa da qual eu gosto imensamente, o humor. E a proposta é um drama terrível, mas que nunca perde o humor, tem uma leveza, e isso me encanta. (...) A gente mergulha na proposta do autor e vai se encontrando sempre, cada vez mais, e também na nossa maneira de interpretar o tema, o prazer, sobretudo o prazer e a paixão sobre o que a gente está fazendo”.

 

 

O grande (re)encontro

Esse não é o primeiro trabalho em conjunto dessas duas veteranas. Em 1954 elas subiram ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro para encenar o espetáculo “Lição de Botânica”, de Machado de Assis. Também contracenaram juntas na novela Meu Pé de Laranja Lima, em 1970. Mas apesar dos anos de experiência, que as consagraram como duas das maiores atrizes brasileiras, um novo projeto é sempre um aprendizado.

“Cada peça que fazemos, cada personagem que interpretamos, é um ensinamento a mais na nossa caminhada, na nossa trajetória profissional”, diz Nicette. “Sobretudo, a gente está de acordo que este é um baita desafio. Um desafio porque a gente está numa fase que já mostrou um pouco de tudo, né? E aí de repente chega uma coisa que assusta e atrai”, completa Eva.

Contemporâneas, elas iniciaram as carreiras praticamente juntas. Vivinha, como Eva também é conhecida entre amigos, estudou balé clássico e fez parte do São Paulo Ballet, de Maria Olenewa, tendo tido também aulas particulares de canto, piano e violão com Inezita Barroso. “Dentro da minha formação, foi muito forte o lado musical por parte materna e paterna. Na segunda e terceira infância mergulhei para valer na música, nessa magia, tanto que estava certa de que iria seguir a carreia de bailarina clássica”, conta.

Mas tudo mudou quando Eva precisou fazer o que diz ter sido a primeira escolha difícil da sua vida: pedir demissão do São Paulo Ballet para emprestar seu talento às outras artes. “Eu tive convite para fazer teatro, cinema e televisão no mesmo ano. E eu acho que eu consegui equilibrar esses três veículos sem nunca perder a opinião de que o teatro é escola. Eu digo sempre para os jovens, ele é onde você estará ao vivo, de corpo inteiro, de alma inteira, se entregando”. Eva, aliás, faz questão de ressaltar que a nomenclatura “palco” deveria ser substituída por “espaço cênico livre”, devido às diferentes linguagens e espaços de atuação.

Nicette também iniciou nas artes ainda criança. Estudou piano no Conservatório Nacional e aos seis anos ingressou no balé no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. “Naquela época eu participava dos grupos dos clubes. Eu estudei no Instituto Lafayette, que tinha em seu currículo o curso de expansão cultural, no qual nós tínhamos o exercício de declamação, canto, dança”, conta.

Depois, fez parte do Teatro do Estudante, de Pachoal Carlos Magno, e do Teatro Universitário, de Jerusa Camões. “Foi onde comecei então a dedicar mais ao meu lado de exercício para o teatro, para a dramaturgia em si. A música e a interpretação caminham juntas. Você não pode fazer teatro sem ter uma experiência musical, mesmo que seja conhecimento da sua sensibilidade musical. Isso é fundamental”, pondera a atriz, que também foi dona de três teatros.

Sobre o ofício de atuar, Nicette é enfática ao ressaltar que o ator precisa exercitar suas diversas formas de humanidade. “Para que eu possa executar uma cena em que eu tenha que puxar um ódio, uma dor, eu tenho que remexer dentro de mim, algum ponto para que isso seja aflorado. Porque acho que todos nós temos em nosso interior todas as gamas de sentimentos e emoções, depende de como você elabora a sua caminhada e a sua trajetória”.

 

 

 

 

 


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