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Alta Fidelidade

Quando se fala da tecnologia do entretenimento, a história recente enumera fatos que comprovam que o caminho natural é o do “quanto menor, melhor”. Portabilidade, leveza e praticidade se tornaram atributos tão importantes quanto a qualidade do produto. Assim foi com o DVD e o Blu-Ray, com o iPod e com os e-books, por exemplo. Mas, assim como os avanços tecnológicos são surpreendentes, o resgate de velhos hábitos de consumo não fica atrás. Provavelmente, nem os amantes mais fervorosos da cultura vintage poderiam adivinhar que o mercado de discos de vinil pudesse ser reaquecido como nos últimos anos.

Os números do último relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica chegam a impressionar. Segundo o documento, 12 milhões de discos de vinil foram vendidos em 2012, em todo o mundo. O número quadruplicou desde 2006 e fez com que os LPs tivessem tido o melhor desempenho de vendas desde 1997, ano do lançamento de clássicos recentes do rock, como “OK Computer”, da banda inglesa Radiohead; e de estouros pop, como o dos irmãos Hanson. Ainda de acordo com o relatório, o valor arrecadado com a venda de vinis atingiu 171 milhões de dólares.

Ao contrário do que se pode imaginar logo de cara, o perfil dos consumidores que contribuíram para essa retomada do fôlego comercial de LPs não se resume a saudosistas profissionais. DJs puristas e colecionadores compulsivos ganharam a companhia de jovens que provavelmente só consumiram discos infantis antes da proclamada “morte” do vinil. Os aficionados por novidades já podem encontrar lançamentos de bandas nascidas na era digital. E assim, as prateleiras dedicadas aos “bolachões” ganham frequentadores de diversas idades e gostos musicais.

Mas, numa época em que existe a facilidade dos downloads (legais e ilegais), o que seria determinante para o ressurgimento de um formato dado como morto há pouco menos de 20 anos? “Além do fetiche das capas, das cores do vinil e dos picture discs, acho que talvez houve um incentivo lá fora por parte dos selos independentes. Também tem o Record Store Day, um data criada para comemorar o dia do vinil na Europa e nos Estados Unidos. Isso tudo incentivou o consumo, uma vez que os CDs quase desapareceram com o download”, opina Kid Vinil, radialista, músico e dono de uma coleção de mais de 20 mil títulos, entre LPs e CDs. “Passo todo o tempo quando estou em casa ouvindo e pesquisando discos. O vinil é considerado por muitos um formato eterno, pois o rock começou com o vinil na década de 50”, conta.

No Brasil, a febre do consumo de discos de vinil teve um capítulo importante em 2010. Nesse ano, a Polysom, antiga fábrica de LPs, foi reativada depois de ser comprada por sócios da gravadora Deckdisc. O que seria uma negociação conveniente para lançar os álbuns do próprio selo, acabou impulsionando o mercado inteiro. Hoje, a Polysom é a única fábrica de discos de vinil em atividade na América do Sul e tem como cliente não apenas as principais gravadoras brasileiras (sejam elas grandes ou independentes), como também as de países vizinhos, como Argentina e Chile.

A investida, que hoje parece heroica, demandou energia, suor e dinheiro. “Quando compramos a fábrica, ela estava desativada e os equipamentos em processo acelerado de sucateamento. Além disso, havia dívidas com órgãos públicos e com fornecedores de energia. O que fizemos foi regularizar toda a situação, manter a antiga equipe, fazer uma ampla obra civil para melhoras as instalações e investir na recuperação dos equipamentos”, explica João Augusto, um dos atuais proprietários da Polysom. A persistência deu certo. Em 2012, a produção de discos na fábrica mais do que dobrou e chegou a 24.120 LPs e 12.000 compactos. Como a Polysom não tem concorrentes, esses números dão noção da situação do mercado brasileiro.

A quantidade de discos prensados está crescendo, mas a qualidade não é deixada de lado. Os discos produzidos na Polysom são de 180 gramas, mais pesados e robustos do que os LPs levinhos que eram fabricados no Brasil, no final dos anos 80. Além disso, álbuns clássicos de várias épocas da música brasileira têm tido relançamentos caprichados em vinil: de Secos e Molhados a Titãs, de Jorge Ben a Planet Hemp, de Jards Macalé a Ultraje a Rigor. A última fornada de redescobertas traz os três discos da fase psicodélica de Ronnie Von, da virada dos anos 60 para os 70: Ronnie Von (1968), A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre Contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970). Até bem pouco tempo atrás, esses álbuns eram inéditos, até mesmo em CD. Agora, podem ser apreciados como na época em que foram lançados.

O renascimento do vinil como formato não se limita apenas às prateleiras e aos consumidores domésticos. Os DJs, que têm a música como matéria-prima, têm agregado os bolachões ao trabalho não apenas como itens retrô, mas também numa relação próxima entre tradição e tecnologia. Patrick Torquato, idealizador do projeto Baile Tropical, explica que já existem softwares que conectam o toca-discos a uma placa de áudio no computador e transformam a passagem da agulha pelos sulcos do vinil num sinal digital. Assim, a possibilidade de sequenciar os sons dos LPs se amplia exponencialmente. “É como se fosse o conjunto de canetas e pads que os designers gráficos usam. É praticamente um simulador de realidade. Essa técnica dá mais domínio ao malabarismo que o DJ faz e também deixa a passagem entre as músicas mais suave. Além disso, a performance com o vinil fica mais bonita”, conta.

Para DJs como Patrick, trazer de volta os LPs para o dia a dia implica em um peso extra na mochila a cada apresentação, mas faz com que o consumo da música redescubra velhos hábitos. “Colocar um disco de vinil para tocar tem uma aura sedutora. É uma sensação diferente reunir as pessoas para escutar juntas um LP”, opina. Para João Augusto, da Polysom, a volta dos bolachões não é positiva apenas por uma questão de negócios. “Para mim, o vinil nunca deixou de ser importante. Continuei comprando LPs e mantive meu toca-discos. Quando topamos entrar nessa verdadeira cruzada que foi a reativação da Polysom, não tínhamos muita ideia do quanto o vinil ainda era cultuado. Agora, a sensação é que o formato acordou de repente. Todo mundo fala em vinil e, ao que tudo indica, todo mundo quer vinil”.


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