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REVISTA

Alguns tons de cinza

Vem de tempos imemoriais a intolerância. Já no Velho Testamento lê-se:
“Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca.”

Convenhamos, didaticamente é muito mais fácil separar tudo em dois grupos bem definidos: bons e maus, esquerda e direita, alto e baixo, quente e frio, amigo e inimigo, são e doente, preto e branco e por aí vai. Em “O Jogo do Anjo”, o autor espanhol Carlos Ruiz Zafon interpõe um editor e o escritor, a quem encomendou um livro sobre uma nova religião que pretendia fundar. Dentre as muitas ponderações do editor, esta se sobressai: temos que ter um inimigo, não podemos unir as pessoas em torno da nossa causa se não houver contra quem lutar.

O que seria do Remo se não houvesse o Paysandu? Seja no esporte, política, religião, tudo fica mais fácil quando temos um alvo, um adversário que nos mobilize. E se você não for nem Remo nem Paysandu? Acabou o papo, fica sem graça, pior, eu te vomito, pois és morno.

Mas a história é cíclica e, diferente do que prega Fukuyama no seu livro ‘O Fim da História’, ela não vai acabar. Nos irados anos 60, durante a revolução cultural, mulheres iam às praças queimar sutiãs protestando contra o machismo reinante. Não restam dúvidas de quanto a humanidade evoluiu nesse conceito, a mulher definitivamente mudou seu papel e equiparou-se ao sexo oposto em todos os aspectos. Inclusive na Literatura, onde se permitiu adentrar o universo do erotismo, de tal sorte que fui surpreendido recentemente ao adentrar uma livraria e encontrar um novo segmento: o “sex thriller”, inaugurado com ’50 Tons de Cinza’ e povoado com uma imensidão de títulos de exaltação ao macho alfa dominador e irresistível. Títulos como ‘Adorável Canalha’ ou ‘Irresistível Cafajeste’ povoam esse cenário “sado-masô”. Beth Friedman, aquela que liderava a queima de sutiãs, certamente estará revirando-se de ódio em seu túmulo.

E o título não poderia ser mais apropriado, nem preto nem branco, mas 50 tons de cinza. Acho que vou vomitar. Não, não devo vomitar, pois não gosto de resumir nada aos extremos. Sou daqueles que não têm nada contra nem a favor, muito pelo contrário. Sempre acho que, afora para animar discussões, o extremismo não contempla as melhores respostas. Elas estarão entre o preto e o branco, em algum tom de cinza, mais à esquerda ou à direita.

Nas impressoras monocromáticas atuais usam-se 256 tons de cinza para registrar imagens, textos, gráficos, fotos. Portanto, ainda temos um longo caminho de variações de tons para atingir a melhor expressão (ou será impressão?) das nossas cálidas almas. 50 é pouco!


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