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À risca

Beba dois litros d’água por dia. Ande de bicicleta. Tome banho por apenas três minutos. Não saia de casa sem o guarda-chuva. Faça exercícios físicos. Coma o brócolis do prato. Não fale alto. Não diga o Santo Nome em vão. Dobre à esquerda. Não estacione em lugar impróprio. Maneire o palavreado. Siga a seta. Cumprimente os vizinhos. Arrume a cama depois de levantar. Tenha calma no trânsito. Seja razoável com o próximo. Mostre que venceu. Anuncie a felicidade aos quatro cantos. Ponha o amor no outdoor. Crie uma página no Facebook. Tenha uma árvore, plante um livro, escreva um filho. Beba Coca-cola, viva e deixe viver. Corra, não pare, não pense demais. Leia a bula, vide o verso. Vire o disco.

O ser humano perdido no próprio pensamento perguntou a si mesmo as respostas que tanto procurava e, dentro do quarto mais escuro da própria alma, encontrou um velhote metido a sabichão. Não de túnica e barbas longas. Estava em mangas de camisa e a cara lisa por causa do calor. Careca reluzente, chinelo de dedo. Preenchia a palavra-cruzada com cara de poucos amigos. Ouviu o questionamento, olhou por cima dos óculos. Calou-se por calar. A certeza é que a resposta estava lá fora.

Chute uma pedra por aí e debaixo encontre, pelo menos, três conselhos e sete soluções para problemas diversos. Balance uma mangueira e de lá deve despencar o pacote perfeito em embalagem perfumada aos anseios mais íntimos; a correção do erro crasso, uma vida inteiramente nova. Se bobear, a última atualização do Whatsapp, o anúncio do novo console da Sony, o último modelo da Apple.

Os oráculos se multiplicaram e as decisões mais importantes estão nas gôndolas do supermercado, nos sites de compras coletivas, nos pop-ups da publicidade do site de notícia. Em pequenas doses diárias de sabedoria instantânea despejada em banda larga. Você aflita e alguém a sussurra no ouvido esquerdo. Você desespera e outro berra na orelha direita. Caem as máscaras de oxigênio na menor turbulência... assim só para prevenir. O manual prático se abre na página certa antes do peito se apertar.

Não há enigma ou mistério a ser resolvido. O riso é frouxo e o choro, apesar de livre, é o penetra da festa. Tudo é café pequeno, tudo já foi dito e redito, repisado. Sabe-se de cor e salteado e a prova é de consulta. Não nos livros, mas no Google. No lugar do susto, um home office já que ali só acumulava poeira, ninguém usava mesmo. Em vez da surpresa, uma nova sacada gourmet para jantar a receita de antes de anteontem. Está tudo dentro do orçamento, na planilha do Excel. Seguimos à risca.

O script é o de sempre, ninguém quebra o protocolo. Crescei, multiplicai e aposentai. Acorde cedo, escove os dentes, vá à escola, frequente uma faculdade, arrume um bom emprego, compre um carro veloz, adquira uma casa em suaves prestações, case-se, crie os filhos, trinque os dentes de raiva, embranqueça os cabelos, peça o divórcio. Surja com uma namorada 30 anos mais nova, refaça o guarda-roupas, volte para academia. Faça um cruzeiro. Tenha um vício secreto, pague o plano funerário, faça o bem sem olhar a quem. Tome as pílulas, durma cedo, acorde com as galinhas.

E depois de tanto obedecer a placas, receitas, leis, avisos, semáforos, ordens, alertas, sintomas, etiquetas, sistemas, alarmes, gurus, dietas, quem sabe o tempo o mostrará quem manda de verdade e o quebra-cabeça se complete para revelar o irrevelável antes de qualquer fim possível. Aí, será tarde e o resumo derradeiro da existência virá permeado de marcas famosas e a sagrada propaganda de 40 segundos com aquele galã superengraçado que você adora.


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