REVISTA

A palavra

Era a primeira entrevista real. Não só. Era o primeiro encontro com um escritor. Ela exacerbava a figura, idealizava. Mas, na esquina, a ilusão desmilinguiu quando o entrevistado surgiu.
Ele se sentou. Sorriu apenas com as bochechas e a expressão comprimiu os olhos, ressaltou as rugas e escondeu a ausência de um dos caninos.
A mocinha contraiu-se para esconder o nervosismo, abriu o caderninho e empunhou a caneca. Abriu o sorriso límpido e não percebeu o ajeitar dos óculos com um movimento simultâneo dos músculos da testa e do lábio superior.
E então?                             
Ela começou a explicar. O descontrole do corpo cessou e surgiu em um princípio de gagueira. Ele não prestou atenção em nada. Até que a moça pronunciou a palavra. A palavra! Pela primeira vez, olhou para ela de verdade.
Ela queria compreender os mecanismos mnemônicos usados no parto cansativo dos livros. Sabia que a obra era cosida linearmente, embora ele se envergonhasse dessa linearidade. Sim, era ela a sua única leitora de verdade.
Ele começou pela infância. Ela estimulava. Molhava os beiços de saliva entre uma questão e outra. A gagueira passou sem ninguém registrar. Havia um interesse real. O homem respondia por vontade. Falava pelos cotovelos.
Ela observou a falta do dente, o cabelo fino no cocuruto, a perda de água no corpo, as olheiras penduradas, o esforço para juntar os cacos e as coincidências que o levaram ao buraco da literatura mirrada. Disfarçou a comiseração numa pergunta seguinte sem vigor algum. Esqueceu as anotações. Ele pediu uma cerveja. Acendeu um cigarro. Ofereceu outro a ela que, de pronto, aceitou. A brasa acendeu a brasa. Ela riu.
A palavra. Mencionou de novo. Agora de propósito. Mexeu no cabelo, pensou como ele era muito mais feio. Esqueceu-se do nervosismo inicial. Sentia-se mais velha. Ele descontraiu o semblante, pareceu mais moço, menos enfezado. Mais um gole. Ela amarrou um rabo de cavalo.
Entre uma mão esbarrada na outra e o convite, ninguém entendeu muito bem o percurso. Não estavam embriagados. Não pelo álcool. Migraram sem escalas para o fetiche vulgar do escritor pela leitora e vice-versa.
Minutos depois, estavam no quarto. Ela na beira da cama. A postura expectante de quem quer entender os próximos capítulos. Ele pensando na maldita linearidade, no bagunça do dormitório. Ela desatou os cabelos, cortinas de um último pudor. Um beijo nas mãos. Deitaram-se, lado a lado. O teto, a respiração, nenhuma pergunta. Nenhuma objeção, constrangimento, obrigação.
Dentro, o calor, a novidade para ela. Fora, a surpresa, a espera até outro tempo para ele.  Entre, a palavra. Sussurrada. Espremida entre os amantes recentes.
Estiveram os dois suspensos por horas por aquela palavra que disparou todos os gatilhos imagináveis entre eles.
Perderam-se tarde afora.
Ela voltou na quarta-feira seguinte. No sábado, também. Retornou repetidas vezes por três anos, sete meses, 12 dias até se despedirem em um réveillon qualquer numa praia, sem branco, sem festa, numa conversa travosa, difícil, pausada, quase um soluço.
Lembrariam cada um a seu modo – sem jamais mencionar a ninguém – o primeiro encontro, o apego à linearidade, a festa naquele cômodo abafado e a palavra. Bendita, doce e única palavra.


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