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REVISTA

A moda da vida real

 
Você se olha no espelho e acha que está muito gorda. Ou magra demais. Imagina que gostaria de ter seios maiores. Ou menores. Que seus braços são muito longos ou parecem roliços. Que seu quadril é pequeno. Que suas pernas são muito grossas. Que seu cabelo não está na melhor das fases. Que gostaria de ter um nariz mais afilado e uma boca mais carnuda. Esta pode ser a descrição do comportamento de qualquer mulher ao se olhar pela manhã no espelho do banheiro. 
 
Desde sempre a moda fez questão de estimular pequenas insatisfações femininas ao disseminar padrões ideais de beleza bastante distantes da realidade e pensar em produtos a partir deles. A boa notícia é que, hoje, cada vez mais grifes e grandes lojas de fast fashion tentam se aproximar da mulher real, produzindo coleções adaptadas às suas necessidades e ao seu corpo, bastante diferente daquelas que estamos acostumados a ver nas passarelas e nas revistas de moda.
 
Aliás, não é apenas a moda que vem buscando uma aproximação com a mulher de verdade. Na atualidade, chovem campanhas “pela real beleza”, como a da marca Dove, de produtos de higiene e beleza. A empresa de cosméticos Natura também desponta como uma das que mais investe em campanhas neste estilo. No ano passado, fez sucesso com uma propaganda de TV em que as mais diferentes mulheres enalteciam seus diversos tipos de cabelos. Com uma música divertida, a campanha incentivava as mulheres a amarem seus cabelos naturais.
 
Para Felicia Assmar Maia, mestre em Artes pela Universidade Federal do Pará, organizadora do Amazônia Fashion Week e professora de Design de Moda, o que existe hoje é um movimento intenso e significativo, que envolve os mais diversos setores, de aproximação com o consumidor real. “ A razão disso é muito simples: as empresas – e não só as de moda – perceberam que poderiam lucrar ainda mais ao moldar suas produções de acordo com as reais necessidades das pessoas comuns”, explica a professora.


 
Felicia acredita, ainda, que, ao contrário do que tendemos a imaginar, esse não é um movimento recente. “Já faz algum tempo que as marcas perceberam o quanto a aproximação com a mulher real poderia ser positiva, mas acabavam patinando bastante em suas tentativas, o que levava a uma série de erros. Acredito que de uns três ou quatro anos para cá é que passamos a ter experiências de sucesso no Brasil”, explica.
 
Para ela, as marcas brasileiras também se inspiraram e aprenderam bastante com as europeias e as norte-americanas, locais onde as populações passam há mais tempo por processos de envelhecimento e ganho de peso, o que obrigou as marcas a se adaptarem à “nova” realidade. Recentemente, muitas lojas estrangeiras passaram a trazer para o Brasil suas linhas plus size, como a C&A, que mantém por aqui a linha Special for You, com modelagens entre 46 e 56. 

Já a norte-americana Forever 21, que chegou no início do ano ao Brasil causando frisson, foi bastante criticada por não ter trazido sua linha de tamanhos maiores, que, segundo foi prometido pela loja, deve chegar nos próximos meses. “É claro que ainda falta bastante para que o Brasil e o mundo democratizem, de fato, a moda em todos os sentidos – e não só no financeiro, o que já conseguimos. Mas acredito que estamos no caminho certo”, defende Felicia.
 
Novos públicos, novos rumos

Para conseguir entender quem é a tal mulher real, as empresas de moda contam com uma série de dados provenientes de pesquisas de público, como os reunidos pela Associação Brasileira do Vestuário (Abravest) e pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Recentemente, essas instituições mostraram que mais de 50% dos brasileiros estão acima do peso e que o mercado plus size chega a movimentar anualmente R$ 4,5 bilhões, o que representa 5% do faturamento total do setor do vestuário em geral. E esse número tende a aumentar, já que a Abravest aponta também que o mercado em questão cresce cerca de 6% ao ano.

Mas não são apenas esses dados que influenciam as marcas no momento de confeccionar suas coleções. Mulheres comuns servem cada vez mais de inspiração e exercem influência significativa nesse processo, como Juliana Romano, autora do blog Entre Topetes e Vinis, cuja proposta é conversar com qualquer mulher que não se encaixe nos padrões impostos pela sociedade. Jornalista, Juliana já trabalhou para vários veículos e seu blog é indicado pela revista Nova Cosmopolitan.

No blog, Juliana monta looks, conta as novidades do mundo fashion, dá dicas de produtos de moda e beleza, fala de maquiagem, entre outros assuntos. Com quase 71 mil seguidores no facebook, a blogueira foi chamada pela Xica Vaidosa, marca brasileira especializada em plus size, para produzir uma coleção com a sua cara. “As blogueiras estão muito mais próximas da mulher real do que as modelos que estamos acostumados a ver nas passarelas. Então é natural que muitas vezes elas consigam pensar não só no que é bonito, mas também no que é prático, confortável, no que dá certo no dia a dia”, explica Felicia.

Experiências semelhantes viveram a recifense Camila Coutinho, do blog Garotas Estúpidas, e a mineira radicada nos Estados Unidos Camila Coelho, do Super Vaidosa. Ambas foram chamadas pela Riachuelo para assinar coleções com seus nomes. O primeiro já foi apontado como um dos cinco blogs de moda mais influentes do mundo e conta com uma média de seis milhões de visualizações mensais. Já a outra Camila começou a chamar atenção com seus tutoriais de maquiagem e hoje assina até uma linha de esmaltes.

A coleção “Torcida Fashion”, pensada para a Copa do Mundo, foi assinada por Camila Coutinho para Riachuelo; e a Coelho, depois de assinar uma coleção de outono inverno inspirada em Nova York, acaba de lançar sua segunda parceria com loja, agora de primavera-verão. Embora sejam vistas e tratadas como celebridades, essas blogueiras se aproximam da mulher real na medida em que colocam a moda em prática e conseguem perceber o que realmente tem chance de vingar e o que se resume à beleza conceitual de passarela.

Diante desse cenário, podemos portanto dizer que a fonte de inspiração vem mudando? “Até pouco tempo atrás, as grandes lojas que hoje chamamos de fast fashion tinham, na verdade, pouco de fashion. Eram lojas funcionais que vendiam roupa básica por um preço acessível. Com o tempo, passaram a se inspirar nas tendências das passarelas mundiais e aplicar isso às suas coleções. Hoje, uma nova e rica fonte de inspiração surge com as influências que vêm dos blogs. Mas não podemos dizer que uma coisa substitui a outra, mesmo porque as blogueiras são bastante ligadas na tal moda conceitual, de passarela”, explica Felicia.
Thássia Naves é outra blogueira de sucesso no Brasil. Herdeira de uma família tradicional de Uberlândia (MG), a moça já assinou coleções de lojas de fast fashion, é garota propaganda e principal inspiração da grife mineira Iorane, por quem também é chamada para opinar nas coleções. Com 1,68 de altura, ou seja, mais baixa do que as tradicionais modelos, pele morena, magra, mas com pernas também mais grossas do que o padrão normalmente exigido pela moda, o corpo e o estilo da blogueira são determinantes no processo de criação da Iorane.

Para Felicia, é inquestionável que as blogueiras são fonte de inspiração para milhares de mulheres e, acima de tudo, geram processos de identificação nas pessoas que, de uma maneira ou outra, se veem nelas. “Acho positiva a participação das blogueiras na produção de moda porque isso acaba levando a uma democratização maior deste mercado. Mas as marcas precisam tomar alguns cuidados. A grande maioria destas meninas não tem formação em moda, por isso, precisam ser supervisionadas por profissionais. Caso contrário, caminharemos rumo a um amadorismo não mais desejado ou esperado na atualidade”, encerra.

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