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A ilustração belenense ganha novas formas

Texto: João Moraes

Fotos: Dudu Maroja

Aline Folha, Felipe Moia e Helô Rodrigues (ou Helô iIustra) vêm mostrando a nova cara do cenário artístico de Belém. Os ilustradores ganham destaque dentro e fora do estado com trabalhos carregados de personalidade e representatividade nortista.

 

Não é de hoje que as redes sociais se transformaram em grandes vitrines e galerias virtuais. Nessa matéria, apresentamos três jovens artistas paraenses que mostram a força que o Norte tem em seus trabalhos. Aline Folha, Felipe Moia e Helô Rodrigues são a nova cara do cenário que se transforma a cada dia.

 

O Começo na ilustração

Aline Folha conta que desenhar sempre fez parte das suas brincadeiras de infância e até hoje é uma válvula de escape quando pensa em relaxar. “Comecei profissionalmente entre 2011 e 2012. Gosto de trazer diversão e esse olhar leve que desenho livre tem. Gosto da poesia do dia a dia”. A artista, que também é professora, conta que sempre desenhou, mas a vida lhe levou por outros caminhos. “Eu sou formada em Direito e, depois que eu terminei a faculdade, fui embora de Belém fazer Moda em São Paulo, que era meu sonho. Fazendo Moda, descobri que, na verdade, o que gostava mesmo era de desenhar, e descobri isso trabalhando em uma confecção de moda”. 

 

Seu primeiro trabalho foi ainda em São Paulo, quando fez as ilustrações para o catálogo de moda da Associação Brasileira de Estilistas (ABEST). Aline conta que ainda ficou um tempo trabalhando nas confecções, e depois decidiu voltar à cidade natal. “Depois desse catálogo, rodei mais um pouco por São Paulo e voltei a Belém. Percebi que, aqui, o meu trabalho funcionaria um pouco diferente de como era em lá [em São Paulo], e então comecei a tentar me envolver com as artes aqui”. Ainda sem entender como funcionava o cenário artístico na época, Aline decidiu procurar instituições locais. “Como não sabia de que maneira funcionava, fui para o Curro Velho e comecei a dar aulas lá. Foi uma grande escola pra mim”, contou.

Folha diz que a Fundação foi fundamental para que ela começasse a entender e enxergar seu trabalho como arte. “Trabalhar aqui na cidade e nas comunidades foi muito bom para conhecer pessoas e artistas ativos que às vezes a gente não dá muita importância, e que são pessoas com um olhar incrível para a arte”.

Depois, também como professora, passou pelo curso de Moda de uma instituição privada. “Ministrei a disciplina de Desenho e ilustração de moda, que é a minha paixão”, contou.

 

 

Hoje, Aline está afastada da rotina na faculdade e se dedica ao seu ateliê, onde pretende dar suas aulas quando for seguro. 

Assim como Aline, Felipe Moia conta que também deu seus primeiros rabiscos quando criança. “Comecei bem criança, por volta de 5 anos de idade. Lembro de ver um tio meu desenhando e aquilo me chamou muito atenção”. O tio de Felipe não seguiu na carreira de artista, mas certamente plantou a semente no sobrinho que, aos 6 anos, fez o seu primeiro desenho sozinho, sem cobrir. “Desenhei o Scooby Doo e as pessoas ficaram impressionadas. Botei a folha do lado do desenho e fui fazendo igual. Foi o auge!”, disse. 

Aos 17, decidiu que queria ser ilustrador e divulgar o seu trabalho, mas ainda não tinha a visão comercial.

Já Helô Rodrigues teve o apoio do avô. “Ele me influenciou muito a pintar. Quando se aposentou da Marinha, começou a fazer as coisas em casa. Meu avô sempre foi apaixonado por bicicletas e, com a aposentadoria, se dedicou a montá-las. Ele pegava pedaços de aço e fazia as próprias bicicletas. Elaborava todo um projeto e eu ficava fascinada, tentava desenhar igual”. Nesse momento, o avô da ilustradora percebeu o interesse da neta, e então começou a investir em seu talento. “Meu avô passou a me dar material como lápis de cor, lápis para desenho e aí fui começando a me interessar mais pela arte”, completou. 

A escola também foi importante para desenvolver o lado artístico da jovem artista. “No colégio também tinha um incentivo para esse lado artístico, coisa que já não vejo no ensino atual. Teatro, dança, desenho, pintura... A gente estudava artes”, explicou.

 

Inspiração

Quando perguntamos de onde vêm as inspirações para os trabalhos, Aline foi rápida na resposta: “mulheres!”. A paraense conta que observa o cotidiano de mulheres ao seu redor,   buscando referências nas histórias que presencia e ouve. “Vejo muito dessas mulheres no meu trabalho. Gosto de falar da mulher, da diversidade das formas das mulheres. O que pensam, o que gostam”. Além das mulheres, a paixão pela moda é outra fonte de inspiração. “A moda também me inspira muito, mas não é aquela moda de passarela, gosto de trabalhar o cotidiano. Quero mostrar como a gente se apresenta no dia a dia, de uma forma que ela [a moda] possa descrever a personalidade desse universo de mulheres que eu pinto”, contou. 

A primeira mulher que serviu de inspiração para Aline foi a sua avó, que era costureira. “Via minha avó desenhar e foi assim que comecei a desenhar moda quando criança. Já adulta, a minha primeira referência foi uma ilustradora americana que se chama Kate Rogers, que tinha um blog chamado Papper Fashion, e lá retratava essas figuras femininas tão importantes para mim, dentro desse contexto de moda sem focar nas roupas. Ela falava das pessoas.

Aline diz que a inspiração vem de todos os locais possíveis, inclusive de dentro da sala de aula. Como professora, acaba conhecendo muitas pessoas e trocando experiências. “Acabo tendo acesso a tantas coisas lindas dentro de sala, e muitas vezes posso acompanhar o início da carreira dessas pessoas que, de alguma maneira, pude ajudar. Como foi o caso da Helô”.

A ilustradora também conta uma das suas inspirações regionais. “Tem um artista, no Curro Velho, que eu admiro pra caramba. O Raimundo Calandrino. Ele tem trabalhos muito bonitos em aquarela e grafite”, contou. 

No mesmo gancho de Aline, Helô também tem muito da sua inspiração tirada do cotidiano da cidade. “A rotina paraense me inspira demais”, conta a artista que, como quadrinista, diz que é esta a narrativa que acha interessante de mostrar. Meu trabalho é reflexo do que vejo e do que vivo também. Basicamente é o cotidiano, principalmente daqui”.

Helô citou algumas artistas que servem de referência e inspiração para o seu trabalho. “Aqui na cidade tem o trabalho da Aline [Folha], que eu gosto bastante, tem a Renata Segtowick, que foi uma pessoa que eu virei fã desde quando vi o trabalho pela primeira vez. Já tive oportunidade de trabalhar com ela [Renata] diversas vezes”.

 

 

A artista citou também uma velha conhecida nossa: a Mônica. Essa mesma; baixinha, dentuça e pavio curto. “Muita gente acha que por trabalhar com quadrinhos, tenho muita referência de super-herói, e é uma coisa que eu odeio. Nunca gostei e não me vejo trabalhando desse jeito. Diferente dos quadrinhos da Turma da Mônica, onde já me via representada. Menina, baixinha, gordinha, sofria bullying. Eu sou a Mônica. Cresci sendo a Mônica e até minha mãe me chama de Mônica (risos)”.

Para Felipe Moia, a inspiração vem das ruas de Belém, da cultura paraense, fonte de grande parte das suas referências. “Sinto que a cidade e a cultura paraense me inspiram bastante. Estou sempre observando as pessoas e sinto que tudo ao redor pode virar material”.

Quando perguntado sobre ilustradores, Felipe diz que acompanha muita gente, com destaque para Laerte Coutinho (@laerteminoutaura), e artistas locais como Beatriz Paiva (@beatrizpaivart) e Caê Jastes (@caesj).

 

Trabalhos marcantes

Quando admiramos o trabalho da artista Aline Folha, podemos perceber que existe um forte lado emocional trazido pela ilustradora. “É até difícil falar de um trabalho específico, mas tem dois que eu poderia citar aqui e que são muito importantes pra mim. Um deles foi quando eu estava saindo de uma depressão e um espelho quebrou na minha casa. Guardei os cacos e fiquei meses trabalhando nesse material. O resultado é uma mulher vestida com os cacos desse espelho quebrado e que agora fica na casa da minha mãe”, revelou.

Outro destaque que Aline recordou foi o convite para trabalhar em uma produção muito sonhada por designers paraenses: “quando fui convidada para desenhar os mantos oficiais dos Círios de 2016 e 2017. Entrei em uma pesquisa para buscar a humanidade de Maria. Queria entender quem era essa mulher. Foi um momento que ajudou a enxergar a minha espiritualidade de uma maneira diferente.  Foi a entrega de tudo que eu sou”, contou.

Quem conhece o Círio de Nazaré sabe da relação que o paraense tem com este momento tão importante, e para Helô não é diferente. A artista conta que a família tem uma história forte com o Círio, e é um momento que os une bastante. “Uma vez, tive um sonho com Nossa Senhora e significou muito pra mim. Então fiz uma ilustração da “Nazinha” no meu braço, e esse desenho chegou ao responsável pela Galeria Benedito Nunes, que me convidou a participar de uma exposição junto a outros artistas. Foi minha primeira exposição em uma galeria importante, com artistas renomados. E esse foi o momento que me marcou bastante, inclusive fiz uma tatuagem que representa esse momento”, relembrou.

Com um trabalho voltado ao dia a dia da cultura local, Felipe diz que sua criação mais marcante foi uma ilustração de uma figura muito presente no folclore local. “Tenho um carinho muito especial pela ilustração do Cabeçudo, que é um personagem que marcou muito a minha infância. Ia pros eventos culturais quando era criança e sempre tinha aquele boneco com uma cabeça rosa gigante”, disse Moia, frisando que foi com essa ilustração que seu trabalho ganhou maior visibilidade.

 

 

Conceito VS mercado

Com identidades bem definidas, os ilustradores dizem que não enfrentam muitas dificuldades em relação ao mercado e suas obras. 

“Gosto de desenhar pessoas. Elas são meu objeto preferido, e, quando um cliente me procura para um trabalho, sempre aviso que não vai ficar igual, como uma pintura realista. Faço uma interpretação do que vejo da pessoa e das histórias que ela me conta”, explica a artista. “Tenho um trabalho delicado e que exige uma entrega absurda. O mais importante é a história que vem por trás das imagens”, contou.

Helô diz que, assim como Aline, não teve grandes problemas com seu público, que já entende a sua proposta. “As pessoas já entendem o meu traço. Percebem a minha identidade”, afirma a quadrinista.  “Eles conhecem o meu estilo, e se não for o meu tipo de trabalho, explico para a pessoa, faço indicações de outros profissionais. Mas meu público acaba chegando até mim por já conhecer o meu estilo”.

Seguindo no mesmo caminho que as colegas, Felipe conta que não sentiu o peso do mercado. Já a venda do seu material acaba ficando em segundo plano quando está produzindo.

“Admiro muito quem se dedica à arte comercial. É uma coisa que é para quem consegue. É preciso estar se reinventando todo o tempo e acompanhando o mercado. Como não tenho essa dedicação, acabo criando sem intenção de vender. Produzo, publico e acaba caindo no gosto das pessoas. Claro, tem quem chegue para fazer encomendas, mas eles já entendem a proposta e não foge do que eu já apresento”, disse.

 

Relação com as galerias tradicionais

Não é de hoje que artistas independentes usam as redes sociais para divulgar seus trabalhos e, com o cenário de pandemia, estas plataformas se tornam cada vez mais presentes na vida de quem trabalha e vive da arte. 

“Participei de exposições coletivas e solo também. Gosto muito desse espaço e foi bem como eu imaginava. Senti uma imersão das pessoas na minha história”, explicou Aline sobre a exposição que realizou na galeria do Tribunal Regional do Trabalho, em Belém, no ano de 2015.

“Penso que a arte tem que circular como der. Seja em galerias, redes sociais, por onde der, mas entendo que as galerias podem afastar um pouco o público de alguma maneira, por isso gosto de explorar outros ambientes, como os livros. Não trago essa ambição de expor em galerias, nem de ver o meu trabalho sendo categorizado em cabe ou não em uma exposição”, explicou a ilustradora.

Caçadora de exposições para divulgar seu trabalho, Helô diz que já perdeu as contas de quantos lugares já teve mostras de suas obras. 

”Já estive em muitas exposições, não sei nem dizer quantas porque sempre me enfiava em tudo que era lugar (risos). Mas a primeira galeria mesmo, foi a Benedito Nunes, onde a minha arte pode ser vista por muita gente.” Contou a quadrinista que, assim como Aline, também diz não ter grandes interesses em galerias tradicionais. “O meu foco mesmo é aumentar meu estúdio e poder trabalhar com as minhas ilustrações autorais, meus quadrinhos e criar independente do que vier”.

Moia vê as redes sociais como grandes difusoras de seus trabalhos. “O Instagram é uma plataforma bem legal de divulgar minhas coisas, e não vejo que o meu trabalho tenha um formato de galeria. Sinto mais ele sendo representado em quadrinhos ou uma revista, que é o que eu almejo para as minhas artes. Me sinto mais confortável na internet. Faço do meu jeito, sem interferência de ninguém”, contou.

Prata da casa

Percebendo certa abertura do mercado para o consumo de ilustrações, Aline Folha diz que ainda sente dificuldades em alguns pontos, mas que o cenário vem melhorando. “Acho que aqui, em Belém, a gente tem um mercado que talvez esteja se voltando um pouco mais para a ilustração. Sinto ainda uma lacuna em relação à ilustração de moda, mas é um déficit do mercado de moda paraense que ainda caminha em passos de formiga”, disse.

Para Helô Rodrigues, o grande ponto do mercado local é a desvalorização do trabalho do artista. “Não tem uma valorização do nosso trabalho. Tem gente que tem medo de colocar o valor real na sua arte por receio de não vender. A gente sabe o trabalho que deu e o quanto investiu, mas tem muita gente se rebaixando, se desvalorizando e isso afeta o mercado local como um todo”.

No meio de tudo isso, é preciso manter a esperança de um ambiente de mercado melhor, como conta Moia. “Acho que hoje estão começando a valorizar o trabalho do artista local. Percebo que tem mais gente de fora do estado que compra nossa arte, do que as pessoas daqui. Estamos vivendo um momento em que a cultura paraense está sendo mais valorizada, tanto aqui quanto fora. Vejo que está melhorando, em passos lentos, mas está indo. É preciso que as pessoas se abram para conhecer artistas autorais das suas cidades. Desse jeito vai chegar o momento que a gente se torna referência”, finalizou Felipe. 

Diante da formação de uma nova cena artística na cidade, somada ao cenário de pandemia e isolamento social, é um privilégio ver artistas que vêm pavimentando esse caminho alternativo e abrindo espaço para que o novo floresça. É um presente ter o olhar da professora Aline e a subjetividade que ela imprime em seus trabalhos. O humor que as obras da Helô traz, específico aos paraenses, assim como Felipe Moia, que é capaz de deixar qualquer um com água na boca com a ilustração de uma bela cuia de tacacá.

 

Assim, conseguimos reconhecer os rostos desse futuro que já se mostra em galerias, sejam elas virtuais ou físicas. Talentos que desenham novas oportunidades, dando novos ares à nossa bela cidade. 

 

Aline Folha

@aline.folha (Instagram)

 

Felipe Moia

@flpmoia (Instagram)

www.behance.net/felipemoia

 

Helô Rodrigues

@heloilustra_ (Instagram)

linktree.com.br/new/heloilustra


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