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REVISTA

O tempo e as ameixas

Sempre olhei com desprezo para as ameixas secas que minha avó guardava em uma lata velha de panetone. Eu nunca sabia quem exatamente as comprava, mas a lata era mantida sempre cheia. Sempre. Eu nunca vi minha avó comprar ameixas secas, mas sempre vi a panela velha de açúcar queimar as tais ameixas e fazer a calda para o manjar de coco.

O manjar é uma sobremesa simples, que a vovó preparava nos tempos de dificuldades. Leva poucos ingredientes, rende bastante e adoça a boca depois dos almoços difíceis – que normalmente terminavam em uma grande discussão sobre as finanças da família, junto com o tradicional café. Depois que o creme de coco, o amido de milho e o leite esfriavam em uma assadeira de forma redonda com um buraco no meio já caramelada com as ameixas, ela o desenformava no mesmo velho prato de cristal, já lascado nos lados pelo tempo, e que sua própria mão havia trazido da Itália. Depois, descansava o manjar na geladeira até a hora do almoço. Em separado, ela embebedava algumas ameixas em cachaça.Quando era tempo de festa, vovó tirava os caroços e recheava com creme de baunilha.  

Há tempos em minha família não é servida essa receita. Sabe-se lá desde quando se deixou de comemorar os aniversários. A casa da vovó – quando outrora vivia cheia, com os quartos e camas bem arrumadas e macias – tornou-se só o lugar onde as brigas de domingo aconteciam.  As ameixas recheadas, hoje, não são mais servidas. Mas o manjar continua por lá... e também o pote de ameixas.

Era tarde da noite quando pensei que, um dia, as brigas iriam terminar e resolvi verificar as lata de ameixas outra vez. Como sempre, estava cheia. Foi quando minha avó apareceu pela porta da cozinha, com um velho pijama escocês e de pantufas. Quando ela disse: “um dia tudo acaba, até mesmo as ameixas”.

E a única coisa em que eu consegui pensar foi até quando minha avó faria o manjar de domingo... E em quem compraria as ameixas quando ela partisse.


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