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A (in)sustentável leveza da água

 
Não importa a escolha política, a orientação sexual ou a preferência religiosa, o tema é indiscutível: a importância da água para existência da vida humana. Por outro lado, o que vem se discutindo de forma recorrente é a sua escassez. De maneira quase onipresente, aprendemos ainda no colegial nas inesquecíveis aulas de Geografia que nosso planeta é composto por 70% de água, desse percentual apenas 2% está disponível para o consumo do homem (boa parte aparece retida, na forma de gelo, em calotas polares ou então na forma de águas subterrâneas). 
 
Estudos feitos pela UNESCO mostram que, desde o começo do século, o consumo d’água aumenta numa proporção de duas vezes o crescimento populacional. As ações ecológicas, que têm como função manter o equilíbrio, são baseadas em três diretrizes: destinação correta do lixo, geração de energia limpa e, uma das mais importantes, reaproveitamento da água. 
 
 
Segundo ambientalistas, o acesso à água sempre foi considerado uma necessidade primordial para todos, sem ele vários outros direitos também são afetados como o direito à vida, o direito à alimentação, o direito à saúde, o direito a um meio ambiente saudável. Há quase quatro décadas, quando os conceitos de preservação e ecologia começaram a ser mais populares, ouvia-se que a humanidade chegaria a um ponto no qual “água seria luxo”. Será que já chegamos a esse temido período?
 
Brasil
Para a engenheira agrícola e mestre em meio-ambiente da AquaFluxu [Consultoria Ambiental em Recursos Hídricos], Ana Caroline Jacob, os principais fatores que causam a falta de água estão relacionados a várias vertentes: má gestão dos recursos hídricos, desperdício e imprevidência, além do desmatamento desenfreado, falta de conscientização da população e crescimento da demanda por água - que aumentou seis vezes nas últimas cinco décadas.
Além disso, o balanço hídrico [a diferença entre quanto consumimos e quanto temos disponível de água] é importante na maioria das cidades do mundo, já que o principal problema entre a oferta e a procura da água é que ela não é igualmente distribuída e também não pode se adaptar às necessidades do mercado. Um país pode ter uma oferta de água grande o suficiente para abastecer toda a sua população e mais um pouco, mas se essa oferta estiver longe dos centros urbanos, pouco adianta esse recurso para o país. “Este é o caso do Brasil, que detém quase 12% da quantidade de água doce do mundo e, logicamente, não deveria ter problemas de escassez. No entanto, não é o que acontece porque apenas uma pequena porcentagem desse recurso está perto dos centros urbanos”, esclarece a engenheira agrícola. 
Observando de outra perspectiva, consumimos também muita água de maneira indireta quando usufruímos de outros bens que gastam água em sua cadeia de produção. O conceito de água virtual serve para “medir” a quantidade de água envolvida em todo o processo de produção de algum bem de consumo, principalmente os agrícolas. Por exemplo, para produzir 1 kg de carne bovina, são gastos mais de 15.000 litros de água, já para 1 kg de feijão, são gastos cerca de 359 litros, e assim acontece em outras linhas de produção. 
“Se considerarmos apenas o consumo direto de água [água de verdade, que chega a nossas caixas d’água], ele representa apenas cerca de 8% da água consumida no mundo. O restante se divide entre o consumo industrial, com a fatia de aproximadamente 22% e o consumo destinado à produção e alimentos, que demanda 70% da água consumida no planeta”, comenta Jacob. Boa parte dessa grande demanda para produção de alimentos é decorrente da irrigação, mas isso não a torna uma vilã por si só, pois ela aumenta consideravelmente a produção de alimentos e já existem sistemas bastante eficientes no mercado. “O fato de o consumo residencial ser a menor parcela da água consumida no mundo, não quer dizer que podemos gastar água de forma despreocupada. A atual situação do Brasil nos exemplifica porque devemos economizar água em nossas casas”, alerta.
A engenheira agrícola pontua ainda que os grandes problemas relacionados à falta de água não acontecem somente por causa da natureza, apesar de serem, às vezes, agravados pela irregularidade e espacialização não uniforme das chuvas. “Porém, alguns dos principais agravantes relacionados à escassez deste recurso tão essencial estão relacionados à ação do homem”, pontua Ana Carolina Jacob.
Na atual conjuntura, o governo, em suas diferentes esferas, tem um papel fundamental, principalmente nas questões de investimentos em infraestrutura e políticas públicas. Para especialistas, o setor de saneamento tem muito a crescer no Brasil. Para reduzir a vulnerabilidade das cidades brasileiras quanto ao abastecimento de água, deve-se investir na busca por novas fontes de abastecimento, aumento e modernização do sistema e principalmente na redução das perdas. “Por fim, acreditamos que ações governamentais que estimulem a racionalização da água e a redução do desperdício são interessantes, mas não deve ser uma política de punição para aqueles que mantêm o mesmo padrão de utilização deste recurso. Cobrar mais daqueles que não alteraram o seu consumo não é justo; o que deve ser feito é beneficiar aqueles que reduzem. Essa deve ser a ideia”, finaliza a engenheira.
 
Crise em SP
No centro dessa polêmica sobre a disponibilidade de recursos hídricos, São Paulo, a maior capital do Brasil, vive um dos momentos mais conturbados e críticos da sua história. Em alguns bairros da região metropolitana o racionamento já é realidade. 
A comunicóloga Stephanie Frasson, 26 anos, mora na Saúde [bairro na Zona Sul de SP] e seu prédio já sofre com o racionamento de água com restrições em relação ao horário. “Agora, entre 20h e 6h, fecham o fornecimento para todos os apartamentos. Só usamos o que fica na caixa do prédio, o que muitas vezes não consegue suprir todos os moradores. Eu, por exemplo, que moro no 13º andar sofro ainda mais, pois depois das 20h, a pressão da água das torneiras é mínima”, explica Stephanie, que também reclama da qualidade da água fornecida. “Além de não termos muita água, ela ainda vem amarelada e com um cheiro muito forte”.
Sendo afetada diretamente com o racionamento, Stephanie acredita que esta é uma solução paliativa. “Acredito também que a conscientização precisa ser incentivada. Ensinar ao povo o porquê e como não desperdiçar. Do que adianta cortar a água e não explicar ou não ensinar como economizar? O problema não se resolve sozinho e a prevenção é a melhor forma de resolver qualquer coisa”, completa. A rotina da comunicóloga mudou de forma ocasional. “Tenho que encher dois galões para eventuais emergências, deixar baldes para lavar louça, dar descarga e etc. Tem dias que eu preciso sair mais cedo do trabalho para reservar água”, conta.
Segundo a engenheira ambiental Luiza Ribeiro, também da AquaFluxus, a situação das cidades de SP que dependem muito ou exclusivamente do Sistema Cantareira é crítica. “O Estado ficou anos sem investir nesse setor e hoje várias cidades são altamente dependentes desse Sistema que, atualmente, está com níveis baixíssimos. Alguns estudos antigos apresentavam algumas soluções para tornar o sistema menos vulnerável, mas pouca coisa foi feita. Hoje, a região passa por sérios problemas de escassez”, explica. Dentre as possíveis soluções, estavam as transposições de água de outras bacias – o que só veio a ser feito recentemente. 
O Sistema Cantareira, com área total de aproximadamente 2.270 km², é considerado um dos maiores do mundo. É composto por cinco bacias hidrográficas e seis reservatórios interligados por túneis artificiais subterrâneos, canais e bombas, que produzem 33 m³/s, o que corresponde a quase metade de toda a água consumida pelos habitantes da Grande São Paulo, abastecendo mais de 8 milhões de pessoas. 
Historicamente, o Nordeste sempre sofreu com a escassez de água. A seca nessa região se concentra numa área conhecida como Polígono das Secas e envolve parte de oito estados nordestinos: Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, e ainda parte do norte de Minas Gerais. Ao contrário da situação na região Sudeste, as principais causas da seca do nordeste são naturais. “Esta região está localizada numa área que recebe pouca influência de massas de ar úmidas e frias vindas do sul e, portanto, há pouca incidência de chuvas durante o ano. É uma região de clima semiárido e de baixa umidade, o que também prejudica a formação de chuvas”, detalha a engenheira ambiental.
 
Greenpeace
Atuando no Brasil há 21 anos, o GreenPeace também coloca em pauta as questões relacionadas à escassez dos recursos hídricos. Recentemente, eles lançaram uma ação inusitada e até curiosa: foi produzido um desfile em uma das ruas mais luxuosas de São Paulo, a Oscar Freire, em que os modelos desfilaram com baldes de ouro para armazenar água - artigo cada vez mais escasso na atualidade. “Queríamos alertar para o cenário dramático de falta de água que afeta a maior metrópole do Brasil, além de reforçar a responsabilidade dos governos e a urgência em adotar medidas para enfrentá-la com transparência e eficácia”, ressalta Cristiane Mazzetti, porta-voz da organização não governamental. 
Cristiane acrescenta também que o desmatamento da Amazônia tem grande relevância no regime de água do País. “A floresta Amazônica traz grande umidade do oceano Atlântico para dentro do continente e esse vapor é levado para os Andes, o que ocasiona chuva por quase todo o Brasil. Logo, quanto mais o desmatamento avançar, menos chuvas teremos”, defende Cristiane. Para o GreenPeace é preciso repensar na utilização desenfreada dos  recursos hídrico por toda a sociedade: governantes, indústrias e cidadãos comuns.  
 
Exemplos Paraenses
Com o intuito de evidenciar a necessidade de se estimular outras formas de convívio entre os moradores de Belém e os rios e igarapés, além de alertar para o elevado grau de poluição dos mesmos, o engenheiro ambiental Paulo Pinho, 42 anos, comanda um projeto chamado Belém Ribeirinha. “O principal objetivo é alterar o padrão de utilização das áreas vizinhas aos cursos d’água em Belém”, explica. A ideia do projeto surgiu a partir de um conjunto de ações dos ‘Amigos de Belém’ que acreditam que a sociedade civil organizada tem poder para mudar a realidade local. 
Segundo Paulo, é de suma importância a participação e sensibilização da população de uma maneira geral. “Dessa forma, nos sentimos corresponsáveis pela manutenção, recuperação e preservação dos recursos naturais”, explica Paulo e acrescenta ainda que a conscientização é fundamental para alertar o consumo desenfreado. As campanhas dos ‘Amigos de Belém’ têm como elemento estruturante ações de engajamento e de disponibilização de informações que visam a mudança de atitude.
“A água é um recurso natural finito. Muitos países já importam água para o seu consumo e muitos conflitos diplomáticos e militares têm como causa a disputa pela água. Este quadro deve ser agravado devido às mudanças no clima que vem acontecendo”, alerta Paulo. A proposta global do projeto é mostrar uma nova mobilização em prol da sustentabilidade, quando a relação do poder público, sociedade e empresas privadas pode ser o caminho da melhoria da qualidade de vida dos moradores de Belém.
Assim como Paulo, o engenheiro civil Antonio Petillo, 62 anos, também faz a sua parte quando o assunto é preservação ambiental. Proprietário de uma empresa de materiais de construção civil, o empresário reutiliza a água da chuva para diversos fins - iniciativa esta que já vem sendo feita há 10 anos. “Nós vivemos na Amazônia e é indispensável nos preocuparmos com essa questão. Como a nossa região é altamente chuvosa, decidi começar a utilizar a água da chuva. Nós temos uma cisterna com capacidade de 32 mil litros e a captação de água é feita no telhado. E o melhor, tudo é sem custos: os únicos investimentos que tive foram no início com as obras”, comemora Antonio. 
O sistema de reaproveitamento de água, instalado na empresa de Antonio, é realizado por meio de um processo simples: a chuva cai no telhado e, através de calhas, a água vai para o condutor e depois para a cisterna. “Quando resolvi fazer o reaproveitamento, a preocupação não era apenas redução na conta de água, e sim servir de exemplo para empresas e pessoas mostrando que, com uma ideia simples, é possível aderir a práticas ecológicas de maneira racional e econômica”, afirma o empresário. 

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