Belém, 28/10/2020

Gente

"Nunca baixei minha cabeça!"

Por: Lorena Filgueiras / Dudu Maroja

                                                                                                                                                                                                      O campeão do UFC Deiveson Figueiredo nasceu no Marajó, onde foi apresentado à luta marajoara - uma modalidade muito comum e praticada na região, e onde viveu até o começo da vida adulta. Mesmo diante de muitas dificuldades, Deiveson jamais desistiu e conquistou o mundo, embora sempre faça questão de voltar a Soure. Só uma dor o incomoda: a ausência do vô João Leal de Deus, a quem sempre considerou um pai.
 
 
Ao primeiro contato com Deiveson Figueiredo, fico surpresa, admito. O campeão do UFC é um profissional extremamente acessível e muito atencioso. "Venham acompanhar meu treino", ele convidou. O pé no chão, descobriria eu, é característica de quem passou por vários perrengues e que teve de saber contorna-los, enquanto também tentava sobreviver. "As dificuldades na minha vida foram muitas. Meu pai era vaqueiro e muitas vezes, ele e minha mãe não tinham alimento para mandar pra mim e para meus irmãos, que morávamos na cidade [de Soure]", conta.
 
 
Mas precisamos voltar na história desse atleta incrível para compreender um pouco mais de sua alma e sua trajetória. 
 
"Meu interesse pela luta começou muito cedo. Eu era bem criança quando meu pai começou a me ensinar a luta marajoara - típica dos conterrâneos do Marajó. Com o ensinamento do meu pai, fui pra cidade [Soure] aos 12 anos. Me criei em fazenda", conta. 
 
"Comecei a estudar e nas férias, ia sempre pra uma fazendo onde meu avô trabalhava. Lá, a luta marajoara era constante. E ele, meu maior incentivador", rememora.
  
O tempo passou rápido e logo o jovem Deiveson perdeu o amor pelos campos das fazendas. Tudo se encaminhava para que ele também fosse vaqueiro, mas quis participar dos grandes campeonatos de luta marajoara. Ali, uma luz se acendia, porque foi num desses encontros que conheceu o conterrâneo e também lutador Iuri Marajó, que lhe abriu as primeiras portas de oportunidades. "Pedi pra treinar junto com ele. A resposta foi positiva e imediata". Foi só então que Deivenson conheceu o jiu-jitsu, box e muay thai. A estreia no MMA, como não podia deixar de ser, foi na cidade de Soure.
 
Não tardaria até que os campos do arquipélago começassem a ficar pequenos para os grandes sonhos do jovem atleta. Junto com o irmão, Figueiredo Júnior, embarcou para Belém. Novamente, na capital paraense, quem lhe abriu as portas - literalmente, a de sua casa - foi Iuri Marajó. O irmão conseguiu emprego, mas Deiveson voltaria pra terra natal. "Sempre fui persistente", afirma. 
 
Dois anos depois, com o irmão já empregado e, de alguma forma, estabilizado, retornou a Belém. "Num mês, pagávamos o aluguel. Mas não tinha o que comer. No mês seguinte, não pagávamos o aluguel porque só tínhamos dinheiro pra comer". Mesmo assim, jamais deixavam de estender a mãos aos amigos marajoaras que iam pra capital em busca de oportunidades no MMA. "Lembro que tinha um amigo, cujo pai sempre mandava peixe. Se ele mandava peixe, tínhamos o que comer. Nunca baixei minha cabeça, mesmo sem ter alimentação adequada a um atleta. Passei fome em Belém e Soure". 
 
Os dias difíceis foram vencidos, graças a Deus, com toda a insistência (e persistência). Hoje, já consolidado, Deiveson consegue ajudar até mais garotos do Marajó. "Posso mais que antes", diz. Pergunto se ele sofreu preconceito por ser pobre e do Norte, ao que ele responde nunca ter tomado conhecimento. "Sempre atropelei quem tentou ter preconceito comigo. Não dei liberdade e mostrei que era maior. Sou maior. Muitos duvidaram que eu fosse do Norte, pela maneira de me expressar, por minha espontaneidade".
 
Uma saudade que não passa
 
Sempre que voltava a Soure, o primeiro compromisso oficial era com o vô João Leal de Deus, a quem sempre considerou (e considera até hoje, mesmo depois de sua partida) como seu pai: era o café, momento em que ele narrava, com riqueza de detalhes, todas as aventuras e distâncias percorridas. Em maio, depois de um AVC, vô João Leal de Deus [ele faz questão de falar o nome completo do segundo pai] não resistiu e partiu do mundo físico, porque na cabeça de Deiveson ele está mais vivo do que nunca. "Meu vô... o papel dele na minha vida foi ser meu pai quando meus pais se separaram. Foi ele quem tomou conta de nós todos. Ele que punha comida em nossa mesa. Ele foi um pai em casa, no esporte. Era meu maior fã. Era um vô que hoje, amanhã ou depois, seja lá onde for, vou amar sem limites. Pra eternidade! Fico até sem palavras. Eu o amei muito em vida e mesmo depois de sua morte".
 
Após conquistar o cinturão do UFC, o filho do vô voltou à casa e foi pessoalmente levar o troféu ao túmulo do avô amado. "Prometi isso a ele!".
 
 
O mesmo se a vida não é a mesma?
 
Com toda certeza! Nosso entrevistado não é deslumbrado e mantém os pés bem firmes no chão. "Após a conquista do título, me mantive o mesmo cara, apesar de o trabalho ter aumentado e as entrevistas também", ele declara entre risadas. "Continuo treinando com a mesma equipe. Prefiro não pensar no cinturão, focando em ser um bom lutador, um campeão. Quero trazer mais vitórias pro Brasil e pro meu Soure, pro meu Marajó. O cinturão foi um reconhecimento ao meu trabalho. Sou um lutador em busca de mais vitórias". Tamanha gana se reflete na rotina dos treinos - pasmem, ele treina três vezes ao dia. "Treino MMA. Sempre, a cada dia da semana, alternando muay thay, jiu-jitsu e MMA. Finalizo com um treino bem técnico, pra me manter em
alto nível".  
 
 
Minha preparação para as lutas começa três meses antes. O próximo desafio já tem data e oponente definidos: 21 de novembro, contra Cody Garbrandt.
 
 

"Estou me preparando e indo pronto pra nocauteá-lo".