Belém, 04/07/2019

Gente

O tempo e o vento

Por: Leila Loureiro

Outro dia foi meu réveillon. Não aquele do dia 31 de dezembro, mas o que marca a minha virada de ano pessoal. Reuni amigos e celebrei meu aniversário com uma programação intensa, como sempre gostei de fazer. No dia seguinte, acordei exausta, com o corpo fraco, sem forças pra levantar da cama. Abri meus olhos “de cigana oblíqua e dissimulada”, como os de Capitu, tropecei até o banheiro, olhei no espelho e logo caiu por terra a tentativa Machadiana de poetizar minha cara amassada. Não tem mais como negar: eu estou, oficialmente, envelhecendo.

Certa vez ouvi alguém dizer que “mulher não mente, apenas administra verdades”. Pois bem, era chegado o dia em que tive que administrar seriamente o fato de que, chegados os 40 anos, o corpo começa a dar sinais de gasto, e a arrogância da juventude escorre pelo ralo, sobretudo quando surge a primeira crise do nervo ciático, fruto daquela hérnia de disco que surgiu do nada. 

Do nada? Creio que não foi bem assim. Comecei a investigar de onde veio essa hérnia. Lembrei que na infância eu vivia me ralando, caindo de bicicleta, pulando muros, subindo em árvores...sempre voltava pra casa com um joelho ralado, um galo na testa, um roxo nos braços. Aos 13 ganhei um patinete motorizado e virei o “terror” do bairro. Mais temida do que as visagens e assombrações paraenses, os vizinhos corriam do meio da rua para as calçadas ao ouvirem o som do motorzinho que atropelava tudo e todos, no maior estilo “o massacre da serra elétrica”. Eram cenas típicas de Quentin Tarantino, só que na Marambaia.

Depois dessa fase, aos 15 anos, enquanto minhas amigas sonhavam em debutar, eu pedi um jet-ski de presente ao meu pai, e a paixão por aventuras continuou, com vários tombos e manobras altamente arriscadas. Lembro que aos 16 anos um amigo me deixou guiar a sua moto “master-ninja” e até hoje eu posso sentir aquela sensação do vento batendo no rosto a 200 km por hora. Bem, uma “administraçãozinha de verdades” de vez em quando não faz mal a ninguém.

Um tempo depois, por volta dos 27 anos, eu sofri dois acidentes: um enquanto eu praticava wakeboard nos rios amazônicos e outro enquanto eu surfava em Salinas, litoral do Pará. No entanto, uma infiltração no quadril e 8 pontos na perna não foram suficientes para me aposentar das manobras radicais da vida. Segui acelerada e destemida. Larguei segurança por liberdade, vivi paixões impossíveis, me joguei de asa delta à 510m de altura, arrisquei em muitas tomadas de decisões, ganhei, perdi, magoei, sofri, pulsei, sorri, levantei, caí...

Entorpecida de tanto baque, a gente cria uma couraça de coragem depois de ver que a pele corta, o sangue escorre, a carne inflama, mas tudo se regenera, cicatriza, renasce. O mesmo ocorre com as feridas da alma. Depois de erros e acertos, a vida sempre segue mais forte. 

Até onde pude investigar, estava muito claro de onde vinha aquele cansaço um dia após o meu aniversário. Era uma simples ressaca. Apenas isso. Ok, é certo que a ressaca depois dos 30 já corresponde a uma dengue, mas continua sendo uma simples ressaca. Ressaca de quem vive, de quem celebra, de quem segue em pé. O meu corpo e suas dores e sinais do tempo são apenas o resultado lógico de tudo que já vivi tão intensamente até aqui. 

Quantos de nós já perdemos tempo comparando nossa vitalidade de hoje ao vigor dos 20 anos? Eu poderia citar aqui vários argumentos em defesa da beleza e maturidade dos 30, 40 ou 50 anos, mas vou sugerir um outro enfoque: que tal se passássemos a nos comparar com nossas futuras versões de 80, 90  anos? Certamente o seu “eu” de hoje está muito mais jovem que sua versão de amanhã. Aproveite!

E nos dias de cansaço ou ressaca eu sempre bebo muita água, jogo a preguiça para o alto, calço o tênis e saio para minha corrida diária. E a hérnia de disco? Bom, eu tive uma única crise ano há anos, quando os médicos disseram que eu tinha que operar e que jamais voltaria a correr. Coitados, eles não sabiam do poder de regeneração natural do meu corpo e do quanto a “mini-aventureira” que o habita ama sentir o vento batendo em seu rosto.