Belém, 04/07/2019

Gente

Paixão (pelo ofício) de pai para filho

Por: Carolina Menezes

Por: Carolina Menezes

Foto: Dudu Maroja

 

 

Muito mais do que repetir uma história de sucesso ou dar continuidade a um legado, filhos que seguiram a profissão dos pais e hoje os tem como colegas de trabalho, falam sobre um amor que nasceu de forma natural até o alcance do entendimento de que a vocação pode (e como pode!) estar gravada no DNA.

Em casa, Paulinho, mas no consultório é Dr. Paulo Junior. E o pai, virou “paitrão”, com toda licença, digamos, poética, para um neologismo que define bem a relação entre os cirurgiões dentistas Paulo Mecenas e Paulo Mecenas Junior. Aos 50 e 24 anos de idade respectivamente, eles se tornaram sócios há pouco mais de dois anos e descobriram que na relação de pai e filho existia espaço para a construção de uma segunda relação, que ajudou a crescer ainda mais a admiração e o respeito mútuo.

No começo, era até uma questão de logística. Paulo Mecenas, com quase 20 anos de atuação em Castanhal e estrutura pronta e estabelecida, naturalmente convidou o filho recém-formado para acompanhá-lo - até porque exigiria um alto investimento que Junior tivesse sua própria clínica ou consultório. O dentista experiente gostou foi de ver que o filho, formado em um sábado, já estava a postos na segunda-feira para trabalhar. “Desde então, estamos juntos todos os dias da semana, e sábado também. Sempre o quis trabalhando somente na nossa clínica, pois a intenção era expandir o que iniciei. Assim, ampliei nosso espaço construindo uma sala somente para ele, a qual é, inclusive, maior que a minha!”, reconhece.

“Ele é meu chefe sim, há uma hierarquia, e eu o respeito como tal e como pai. Evito ao máximo chamá-lo de pai no ambiente de trabalho, mas confesso que de vez em quando escapa!”, confessa o filho. Os dois confirmam: se o mais novo não cumpre com as obrigações rola uma chamada de atenção - não existe passar a mão na cabeça por ser filho, e os dois concordam nesse acordo como fundamental para não misturar o profissional e o pessoal. “Mas é difícil de acontecer. O Paulo possui uma auto-percepção boa, se está deixando a desejar em algo, tenta corrigir logo. Ainda sou chefe, mas, com o tempo, a tendência é que passemos a nos ver como sócios e, quando eu sair, ele será o dono da clínica”, anunciou.

É importante para eles que os pacientes sintam, principalmente, que há esse distanciamento. ‘Buscamos sempre nos tratar como colegas de profissão no consultório para assim não permitir que a relação pai e filho interfira no trabalho”, avalia Mecenas.

Junior acredita que todo e qualquer sucesso profissional que venha no futuro terá o peso decisivo do apoio do pai. “Desempenhamos funções diferentes, eu trabalho com ortodontia, aparelhos fixos, além de procedimentos mais simples, já ele é um dentista mais raiz (risos) faz de tudo, canal, prótese e implante... além de resolver questões administrativas, embora eu o ajude nisso também”, explana. Aqui o pai discorda e acaba deixando a paternidade mais evidente que as luvas e instrumentos cirúrgicos.

 “Com certeza ele tem relação com o meu sucesso, bem como sua irmã e minha esposa. Foi por eles que eu me especializei depois de formado, ficava trabalhando até tarde e viajava para cursos de aperfeiçoamento. Ele pode não ter trabalhado comigo nessa época, mas, com certeza, era fonte de motivação para mim”, declara-se.

Genética nas alturas
“Aconteceu que eu peguei, de bandeja, 45 anos de experiência e fui aprender o que faltava”, conta o piloto Pedro Pagno, 30, filho do também piloto Luiz Pagno, 64. O pai até tentou estimular para que ele seguisse outra profissão - talvez Engenharia Mecânica... de repente, um curso de Administração. “Eu fiz, mas não levei em frente. Queria era ser piloto, não teve jeito. Acho que é genético”, conta.



Se a gente for analisar a infância do Pedro e dos outros quatro irmãos dele, realmente não tinha mesmo como ser muito diferente. O primeiro avião de Luiz, adquirido antes dos 30 anos, como ele mesmo diz, bancou a criação de todos os filhos. “Eu era criança, meu pai tirava os bancos e colocava colchões. A gente gostava, mas eu adorava. Foi entrando na cabeça naturalmente, né, e com 13 anos eu já ia para o aeroporto ler, estudar sobre aviação. Com 17, já estava no curso e aos 18 fui aprovado”, remonta Pedro. “Aí eu aceitei!”, lembra o piloto veterano, que iniciou ainda mais novo que o filho na área, aos 16. Curiosidade: Pedro tem esse nome em homenagem ao instrutor que ensinou Luiz a voar, ainda no Rio Grande do Sul, de onde é natural, ainda na década de 70. 

Piloto executivo com milhares de horas de voo, ele chegou a colocar o filho adolescente algumas vezes ao lado na cabine, para auxiliá-lo em trajetos de baixa complexidade. “Via que ele levava jeito, tirava boa velocidade. Aviação não tem manual, você aprende voando. Há quem estude a vida toda e não consiga”, admite. Com 13 anos de experiência, Pedro diz que é sua capacidade de, como se fala no meio, “sentir o avião” que lhe torna apto a seguir o caminho traçado também pelo pai. “Só quem sente isso, que é a sensação do avião mergulhando, descendo, é que consegue voar direito. Eu tenho esse sentimento há bastante tempo, meu pai mais ainda”, orgulha-se.

O filho também optou pela carreira em voos comerciais, o que já não é muito a praia do Luiz, e mesmo assim, o pai não deixa de dar pitacos e cobrar sempre que necessário. “Cobro muito porque tem que se fazer tudo certo. O preparo, que a gente chama de pré-voo, é tudo. 95% dos acidentes vem de falhas no pré-voo”, insiste. “E ele não está errado. Se eu falhar, eu morro, basta uma falha que seja”, reconhece Pedro.

No caso da família Pagno, pode ser que a sucessão siga adiante. A filha mais nova de Luiz está se preparando para fazer o curso para piloto, para voar só por hobby. Já o filho mais velho de Pedro, de apenas 5, anos, é um aficionado no assunto. “Mas eu espero que ele não trabalhe com isso...! Sabemos dos riscos, né? Me considero um sortudo na aviação, as coisas deram muito certo para mim. Mas mesmo assim o coração ainda aperta quando eu subo ou quando meu pai sobe, minha mãe que o diga!”, admite.  



Os dois divertem-se ao lembrar dos primeiros pousos de Pedro ainda no início. “A gente ia brigando até pousar, mas era legal!”, reconhece Luiz. “A verdade é que eu tive, na parte técnica, um excelente instrutor, que em 45 anos de história nunca teve um acidente. Me ensinou o que é disciplina, e que tem que fazer por amor”, elogia o filho.

Um tem 40 anos de profissão. O outro, onze. “Ele nunca desistiu de nada do que fez na vida. Começou em outro Estado, com dificuldade e gente puxando para trás. Admiro a honestidade, o trabalho, a dedicação, insistindo sempre que o bem vence o mal”. Não é preciso ouvir Kim Nunes falar por muito tempo com tanto orgulho do pai, o médico veterinário e pecuarista Joaquim Nunes da Silva, para entender que sempre foi muito mais do que simplesmente seguir a mesma profissão ou se deixar levar por uma infância e uma vida vivida na lida do campo, da fazenda. “Eu não sei, ele que sabe. Surpresa sempre é, porque há muitas opções na hora de escolher com o que trabalhar”, diz o patriarca, questionado sobre o motivo para o caçula de dois filhos, que acabaria virando seu sócio, seguir os mesmos passos.

“Sempre gostei de mexer com gado, mas acho que o estalo foi quando meu outro irmão fez vestibular para Medicina. Lembro da minha mãe falando: ‘tens muita opção, se cuida, faz o que quiser, e estuda, porque o seu é mais fácil’. Ela já sabia que eu ia fazer Veterinária”, lembra. “Na verdade, ele é a terceira geração, porque meu pai também era pecuarista”, corrige Joaquim, que se autoproclama de comportamento ditador, até mesmo mais rígido que o avô de Kim - mas sem deixar de mostrar um lado de preocupação com a trajetória do filho.



 “Orgulho não dá, mas dá incentivo em investir, porque é uma sucessão. Não adianta ter orgulho se não trabalha e não produz. Não sou de conversinha. Sou de metas. Meu orgulho é ver produção”, justifica o pai. “Talvez se ele tivesse escolhido uma outra profissão eu teria mirado em outros investimentos, não concentraria na pecuária. Posso dizer que investi para ele poder viver de forma mais tranquila”, reconhece.

Sócios e com escritório em Belém e fazendas no interior do Pará, Kim e Joaquim passam praticamente o dia todo juntos. O herdeiro confirma o jeito durão do pai, mas valorizando a metodologia. “Eu digo que, enquanto ele mandar, dá!”, brinca o filho. “Mas falando sério, há um ditado popular no campo que diz: ‘se o filho não serve para o pai, não vai servir para ninguém’. E eu acredito que isso seja bastante verdadeiro”, reconhece Kim.

Adepto da máxima de que não é pegar pesado, e sim ser profissional, Joaquim já seguiu viagem para uma das fazendas sem o filho porque o primeiro havia combinado de buscar o segundo às 5h e no horário acertado Kim não estava pronto. “É muito ruim trabalhar com filho, porque tenho de ser rígido. Você perde horário de avião? Não, né. Então porque vai perder o horário no trabalho? É a mesma coisa. Fui educado assim, não custa combinar”, explica. O curioso é que, depois da faculdade, o filho mais novo foi para o mestrado, prestou consultorias, para só então ser chamado pelo pai para trabalhar - e já na condição de sócio, justamente para estimulá-lo a ter sempre bastante responsabilidade.

“Quando eu não tinha nada, eu acordava 3h para ter algo. Depois que comecei a ter, passei a acordar às 2h, para poder manter. Se não for bom financista e administrador, não adianta ser bom profissional. Ele é meu sócio, se quebra se não correr. Ele sempre teve opções, mas quis ter o negócio dele”, discorre o pai sobre a relação com o filho no meio dos negócios.



“Não tem como ser mais leve e se fosse não daria certo, como o pai falou. Se ele não cumpre horário, como que vai corrigir os outros? Se eu não for bom no que faço, saio do circuito. Vou fazer qualquer coisa, carregar um peixe. Mas eu já entrei na faculdade sabendo horários, salário, fui avisado, vi meu pai passar por tudo. Era a vida dele, eu já sabia. Quando se trabalha no campo é assim, Deus não escolhe hora pra chover 120mm, alagar uma plantação, cavalo cansar, se machucar e não ter como sair, ficar doente”, afirma o filho, um tanto satisfeito pela experiência que segue acumulando ao lado do pai.

Precavido, Joaquim confessa ter montado planos B, C, D e muitas outras para o caso de as coisas não darem certo, mas teve sorte de nunca precisar lançar mão de nenhum deles, e credita isso ao trabalho e empenho dispensado ao longo dos anos, seja ao lado do pai, de Kim ou mesmo das irmãs, que o acompanham na administração financeira. “E se algum me disser, em algum momento, que não quer mais trabalhar comigo, não tem problema. Vou dar graças a Deus por precisar trabalhar menos!”, diverte-se.