Belém, 03/07/2019

Gente

Dona de si

Por: Vanessa Van Rooijen

Por: Vanessa Van Rooijen

Foto: Gabryel Sampaio

 

 

O amor pela música sempre existiu, mas as apresentações começaram longe dos grandes palcos e hits de sucesso. Iza, uma jovem cantora e considerada hoje um ícone da luta da mulher e a cara da música no Brasil, começou a se apresentar nas festas da família e igreja que frequentava. Formada em Publicidade e Propaganda, também aproveitava os momentos do happy hour na agência onde trabalhava para se apresentar. Nada era profissional até decidir mudar de vida e se dedicar ao que realmente amava: a música. 

Foi quando Iza decidiu criar um canal no Youtube e gravar covers de algumas músicas. Não tardou até que a voz grave e o carisma começassem a ser conhecidas e conquistassem fãs. Em pouco tempo, Iza tornou-se dona do hit de sucesso “Pesadão”, ao lado de Marcelo Falcão. Depois de conquistar inúmeros primeiros lugares como a música mais tocada, Iza não parou mais de fazer música. “Ginga”, “Dona de Mim” e “Brisa” são alguns dos sucessos da cantora que compõem o setlist da turnê “Dona de Mim”, o primeiro álbum da artista. 

Mas a arte produzida por Iza vai além da música. Ela é símbolo da luta da mulher, racial e de renovação. Para transmitir mensagens, a cantora usa e abusa de figurinos únicos, letras ousadas e frases de efeito, quando a hora é de se posicionar sobre determinado assunto. Ela afirma: “A maneira como nos apresentamos no palco, na nossa vida pessoal; as roupas que vestimos, com quem nos relacionamos, tudo isso passa uma mensagem. Então, eu fico sempre atenta a isso para que tudo passe a mensagem que condiz com o que eu penso”.

Em entrevista para a revista Liv, Iza fala sobre as inspirações de seu trabalho, os sonhos para a carreira e a importância da representatividade da mulher negra nas músicas e cultura brasileira. 



Suas músicas falam sobre empoderamento, amor próprio, felicidade e luta. Quais são tuas inspirações musicais e o que essas músicas representam para você?

Na verdade, eu não abordo esses temas intencionalmente. Eu acho que são coisas que acontecem na minha vida, são minhas vivências e meu ponto de vista. Eu lembro a menina que fui e sei como é importante me ver nos lugares, me sentir representada, ter uma mulher forte me dizendo todos os dias que eu posso e “quem sabe sou eu”. Então, sempre que eu puder, quero passar essa mensagem através do meu trabalho. Todas as mulheres fortes da minha família são inspiração para minha carreira e minhas músicas. Minhas tias, minha avó nordestina que veio pra cá e fez a vida acontecer. Minha mãe, principalmente. Ela me ensinou a sempre confiar em mim mesma.

Hoje você é considerada um ícone pop da luta da mulher. Qual teu posicionamento sobre o feminismo e preconceito no Brasil?  

Acho que tem se conquistado muito em prol da mulher, mas ainda falta muito a se conquistar. Não somente em prol da mulher, mas principalmente da mulher negra. Ainda somos a parcela da população que mais sofre com homicídios, preconceito, racismo e machismo. A gente precisa se reerguer todos os dias. Eu sinto que tenho responsabilidade sobre o que eu falo e canto, para onde eu vou, com quem me relaciono.



A representatividade é importante, não há dúvidas - depois que você surgiu na cena musical, você consegue perceber um movimento mais expressivos de artistas negros? Como você enxerga o racismo no país e cenário musical? Além disso, você possui vários discursos de combate a cultura de ódio. Como você acha que pode contribuir para uma sociedade melhor a partir do teu trabalho? O que falta (e está sendo feito) na cultura e música brasileira em prol de uma sociedade mais justa e igual?

Enxergo da mesma maneira que o preconceito com as mulheres. As coisas vêm melhorando, andando, mas ainda há muito a ser feito. De certa forma, a fama me protege hoje em dia do racismo, do preconceito e do assédio. Eu não sou mais assediada quando ando na rua, não ouço mais aquelas coisas horrorosas que me davam medo. Mas não dá pra negar que isso ainda existe. Eu fico lisonjeada quando eu ouço que inspiro muitas meninas. E se meu trabalho ajuda cada uma delas a serem mais fortes, isso com certeza vai refletir na sociedade. O diálogo e o respeito são sempre o caminho.

Sobre a carreira, como estão seus planos para a mídia internacional? Você tem projeções de lançar discos e/ou parcerias em outros países? Quais seus planos? 

Eu sonho em cantar pra sempre, para o maior número de pessoas que eu puder. Uma carreira internacional é algo muito trabalhoso, que deve ser pensada com muito cuidado. Eu acabei de começar, quero dar um passo de cada vez. Quero fazer tudo com muito cuidado.



Sua primeira música de sucesso foi “Pesadão” e último sucesso lançado até o momento “Brisa”, que tem uma pegada diferente das tuas primeiras músicas. Como está sendo essa transição de temas, ritmos e produção?

 Não há uma transição programada. “Brisa” representa um pouco do que estou ouvindo atualmente: reggae, música jamaicana... é uma vibe que eu gosto e que as pessoas não tinham visto eu cantar ainda. Quando a gente produz algo que é fiel ao nosso sentimento e pensamento, o público sente na hora de receber a música. Gostaria só de agradecer ao carinho que tenho recebido do público, estou feliz demais e espero que eu possa levar a minha música para o máximo de gente possível.

Você vai assumir, em julho, uma cadeira como jurada do The Voice, no lugar de Carlinhos Brown. Como está a expectativa para essa estreia? Você chegou a conversar com o Carlinhos? 

É uma grande honra e, ao mesmo tempo, uma grande responsabilidade estar nesse programa – e, mais ainda, substituir o Brown. Eu o considero um dos maiores produtores do mundo, uma artista incrível, premiado, além de ser uma pessoa muito inspiradora. Sou muito fã do programa, sempre assisti e gosto muito da proposta. Nunca pensei que pudesse fazer parte de um time tão estrelado. Fiquei lisonjeada com o convite e estou muito ansiosa para viver esse momento. 



Neste tocante, imagino que tua história inspire muitos outros jovens aspirantes a músicos. O que chama tua atenção quando ouves alguém cantar: técnica ou postura no palco? Serás uma técnica rigorosa ou mais emocional?

O que me chama a atenção é o conjunto. O The Voice é um programa muito completo, que ensina demais os participantes. Não sei ainda se serei rigorosa ou emocional, isso deve acontecer com o andar do programa. Mas quero fazer com que os participantes se sintam cada semana mais seguros. Esse é o caminho que devo seguir. Além disso, tenho certeza que o programa vai mudar meu olhar como artista e vou aprender muito também.

Eu imagino a loucura que é tua agenda e o assédio mesmo - por isso, pergunto: o que mais gostas de fazer quando precisas desacelerar da pressão da carreira?

Gosto de estar com meu marido, minha família e meus amigos em casa. Reunir todo mundo e aproveitar o tempo com eles.