Belém, 23/04/2019

Gente

Caça às Bruxas

Por: Celso Eluan

A tragédia de Brumadinho, a despeito das centenas de vidas desperdiçadas, trouxe à tona um esporte nacional que talvez só perca para o futebol: a caça às bruxas. A busca por culpados e a crucificação do Judas ocupam as rodas de conversas e o noticiário, sem falar das indefectíveis redes sociais, eco de toda justa indignação. De fato, o desperdício de vidas e o desastroso impacto ambiental, por si só, merecem o alvoroço criado em torno da tragédia, mas concentrar-se na busca e punição de culpados podem não ser suficientes para evitar erros futuros, até porque Brumadinho já é uma repetição dos erros de Mariana.

A indústria da aviação já nos ensinou que um acidente não é fruto de um único erro, nem de um único culpado, mas uma série de incidentes somados que provocam algo maior. E essa é uma indústria que aprende com os erros e investe cada vez mais na segurança – não porque seja obrigada pelo Estado ou benevolente com a população, mas por uma questão de sobrevivência do negócio. Os passageiros têm que se sentir seguros para continuarem voando mundo afora: um acidente causa um alvoroço e medo suficientes para diminuir os embarques e gerar pânico nos aeroportos, por isso devem ser cada vez mais raros. Basta olhar pra trás e ver o quanto se evoluiu – o transporte aéreo é o mais seguro do mundo, só perdendo para o elevador considerando-se o quociente vítimas x passageiros transportados.

Outro exemplo fácil de observar é o automobilismo, um esporte que gesta as mudanças que chegam aos carros de passeio. A Fórmula 1 nasceu na década de 1950 onde registrou-se 16 mortes em oito anos. Na década seguinte, mais 11 acidentes fatais. Nos anos 70 foram 10. Na década de 1980 reduziu-se para quatro, para cair ainda mais para duas vítimas em 1994, incluindo aí nosso ídolo Ayrton Senna. Depois disso, somente em 2014 houve outra vítima. As regras, os carros, as equipes foram se modificando ao longo dos anos para tornar o esporte e o próprio meio de transporte mais seguro.

Os exemplos citados são apenas para alertar que a indústria de mineração, a sociedade e o governo também devem se mobilizar para que mesmo depois do impacto inicial haja perseverança na busca de modelos mais sustentáveis, não só do ponto de vista ambiental, mas na segurança e sem perder a rentabilidade. E eis aí um desafio grandioso. O minério é uma commodity e tem seus preços definidos no mercado mundial, com base na oferta e procura. O Brasil deve investir para melhorar esse quadro geral, mas sem perder competitividade num segmento que hoje é responsável por uma parte significativa das nossas exportações. 

O desafio se torna maior ainda quando analisamos que culturalmente não temos pendor para seguir regras com rigor. Sempre achamos que se o sinal está fechado e não vem nenhum carro podemos atravessar mesmo assim, contrastando com culturas mais desenvolvidas onde aprenderam que se existem regras é para serem cumpridas e não interpretadas ao gosto de cada um.

Na aviação aqui já citada, todo procedimento é repetido à exaustão pela tripulação, inclusive aquelas instruções que os comissários repassam insistentemente a cada pouso ou decolagem e ainda alertam, até passageiros frequentes têm que observar. Um piloto, por mais experiente que seja, deve seguir procedimentos rigorosos, repetitivos e metódicos. 

Afinal, a Lei de Murphy só perde em certeza para a Lei da Gravidade: se algo pode dar errado, vai dar.

 

Celso Eluan Lima

empresário

celsolima2210@gmail.com