Belém, 29/09/2016

Gourmet

Cozinha Pop

Por: Trisha Guimaraes

Filha de mãe paulista e pai mineiro, neta de quatro avós libaneses, a chef paulistana Rita Atrib já nasceu em meio a grandes festas e banquetes. O encanto pelas panelas vem da mais tenra idade. Das primeiras lembranças, as mais fortes são das reuniões em família que sempre giravam em torno de uma mesa farta e de, pequenina, rodear pela cozinha na esperança de ganhar um pedaço das comidas árabes feitas pela vó. “Em casa, o prato caseiro tinha arroz, feijão e quibe!”, conta. “Cresci no meio de comida boa.” Nas brincadeiras, preparava pratos imaginários e o faz de conta sempre terminava com o pai sendo intimado a jantar em suas panelinhas de boneca. Mesmo metida entre colheres e panelas, nunca fez planos de ser cozinheira. Gostava mesmo era de desenhar. Até, por questão de sobrevivência, ir para a cozinha.

 

Aos 22 anos, com o diploma de Arquitetura em mãos e uma mochila nas costas, foi passar uma temporada em Paris estudando. Com um curso de meio período, aproveitava o tempo livre fazendo bicos, alternando aulas particulares de português com o serviço de faz-tudo em um bistrô. Longe da casa (e das “comidas maravilhosas”) da mãe, foi obrigada a se aventurar na cozinha. As primeiras experiências não foram lá muito boas – algumas acabaram em panelas queimadas, mas, bastou vasculhar as memórias de tudo que viu e viveu na cozinha da infância, e não deu outra: nunca mais parou.

 

A queridinha dos astros

De volta ao Brasil, em 1989, por seis anos Rita se dividiu entre um escritório de arquitetura durante o dia e a atender clientes na produção de pequenos jantares, à noite. No menu, pratos como peito de peru marinado em azeite, com bastante cebola-roxa e ervas; frango assado bem temperado com alecrim, alho e manjericão; salada de quinoa, pistache, uva-passa, damasco e especiarias; e comidinhas como minicuscuz e raviolini. As encomendas cresceram tanto – e a demanda por eventos grandes, como a São Paulo Fashion Week, seu cliente até hoje - que ela largou a prancheta e abraçou de vez a gastronomia. Nascia ali o Buffet Petit Comité. “Foi o começo de um capítulo da minha história que eu jamais imaginei viver”, diz. Um capítulo com direito a palco, iluminação e trilha sonora. Ah, e encontro com ídolos! É que em um dos jantares que organizou, a chef conquistou uma das convidadas, empresária do ramo de shows, pelo estômago. De lá já saiu com uma missão: organizar o buffet da primeira edição do festival Monsters Of Rock, que aconteceu no estádio do Pacaembu, e trouxe para o Brasil atrações como Kiss, Slayer e Black Sabbath. “Trabalhar com shows internacionais era bem difícil porque você lidava com estruturas muito precárias. Hoje, quando eu chego já tem uma tenda, cozinha montada com ponto de água. Fazem o possível para que eu trabalhe em condições semelhantes à de uma cozinha. Naquela época você tinha que se virar”, conta.

 

 

 

O resultado final deu muito certo. Rita não conquistou só uma cliente, mas um nicho: há 22 anos, tem lugar cativo no backstage de shows dos astros do pop e rock que se apresentam em São Paulo. Já foi responsável pelas refeições de cantores como Alanis Morissette, Eric Clapton, Britney Spears, e bandas como Pearl Jam, U2, Rolling Stones e Red Hot Chili Pepers. Despretensiosa, parece não se impressionar em estar tão perto de ídolos. Desde que ele não seja o David Bowie. Fã do cantor e compositor inglês, morto em janeiro, quando soube da possibilidade de trabalhar em seu show, ficou nervosa. Pela primeira vez, garante. “Era tipo um deus ali, na minha frente, e ainda comendo a minha comida!”, diverte-se.

 

O simples que encanta

Nas famosas listas de exigências dos artistas, o que surpreende é a falta de excentricidades. O roqueiro Ozzy Osbourne, por exemplo, não come morcego. Mas, puxando pela memória, ela lembra que foi de Keith Richards um dos pedidos mais curiosos. Na passagem pelo Brasil, em março deste ano, o guitarrista do Rolling Stones pediu que fossem preparadas duas tortas: uma de frango e cogumelos e a shepherd's pie, tradicional torta de carne inglesa. O músico tem como mania quebrar a crosta de uma torta antes de subir ao palco. E para não ter erro, Rita ainda teve de mandar amostras do quitute para serem aprovadas. “No geral, são pedidos muito saudáveis, como proteína grelhada, arroz integral e legumes. Nos anos 90, ser vegetariano era exceção; hoje, virou regra. Ainda tem celíaco (que não pode comer glúten), intolerante a lactose e a castanhas, alérgico a alho e até a frango, como aconteceu com um dos membros do Offspring (banda punk californiana).”

 

 

Para conquistar o paladar dos músicos e suas equipes, os cardápios enviados pela produção são seguidos à risca. Mas a chef também encaixa, aqui e ali, seu toque pessoal e intervenções brasileiríssimas. E confessa: é uma delícia ouvir de quem já correu o mundo que o seu buffet é o melhor que já comeram. Os integrantes do Coldplay, por exemplo, tinham pedido pratos exclusivos para o camarim, mas se renderam à canja de galinha, caçarola de badejo, farofa de banana e brigadeirão. Britney Spears e os filhos amaram tanto a mousse de coco com tapioca e baba de moça que foram elogiar pessoalmente a chef. O ex-Beatle Ringo Star virou fã da sopa de abóbora com gengibre. E a top model Gisele Bundchen, em uma das edições do SPFW, pediu coxinha de galinha, salgado que a Petit Comité não costuma fazer. “Mas não dava para negar um pedido desses, né? Minha mãe se ofereceu para fazer. Gisele amou tanto que me mandou um bilhetinho dizendo que foi a melhor coxinha que ela já comeu na vida!”, lembra.

Na cozinha de Rita são essas experiências que contam. Até hoje ela faz questão de manter em seu menu receitas que aprendeu com a avó, como quibe assado, arroz marroquino e peixe ao molho de tahine. A maionese caseira e a massa das tortas e quiches, seus carros-chefe, são receitas da mãe. Na Petit Comité Rotisserie, filhote do Buffet Petit Comité, que abriu as portas em maio, ela se preocupa em fazer comidas que chama de afetivas, como sopa de legumes, almôndegas, torta de palmito, salpicão de frango, purê de batata e um bolo gelado de coco bem molhadinho, embrulhado em papel-alumínio, que tem cara (e o gosto irresistível) de festas infantis dos anos 80. “Não adianta ser uma comida muito diferente, super-rebuscada, se não for saborosa e reconfortante.” Longe de toda pompa de celebridades e astros do pop, Rita Atrib é assim, de sabores simples.