Belém, 02/09/2016

Gente

A menina(ainda) dança!

Por: Trisha Guimaraes

A notícia deixou em polvorosa os fãs mais apaixonados, mexeu com o coração dos saudosistas e aguçou a curiosidade dos admiradores mais novatos da banda. O anúncio da volta dos Novos Baianos, em primeira mão para todo o país, foi feito por Baby durante uma apresentação de seu disco solo, no Rio de Janeiro. O grande reencontro ao lado de Pepeu Gomes, Moraes Moreira, Luis Galvão e Paulinho Boca de Cantor, integrantes da formação original do lendário grupo surgido na Bahia, em 1968, seria para marcar a reinauguração da Concha Acústica em Salvador. Apenas uma única (grande e nostálgica) apresentação. Mas, o sucesso foi tão grande que ficou impossível resistir aos vários convites para se apresentar pelo país. Em poucos ensaios, a trupe se sentiu preparada para encarar a estrada novamente e com a mesma sintonia dos anos 70, quando todos moravam juntos e viviam como hippies. Era chegada a hora de matar as saudades. “Por mais que a vida nos leve por caminhos diversos, o tempo se incumbe de promover encontros e reencontros. É bom que assim seja, pois quando acontece, é de forma intensa e verdadeira. Podemos então matar a saudade de uns e a curiosidade de outros”, disse Moraes Moreira, em comunicado à imprensa.

 

Foi neste mesmo palco da Concha Acústica que a banda realizou algumas de suas mais significativas apresentações, com recordes de público, e onde seus integrantes propagaram uma atitude de contestação aos padrões comportamentais então vigentes no tenebroso regime militar que encararam com um anarquismo pacífico, uma dose generosa de deboche e, claro, muita música. E das boas. É fato que muito dessa riqueza musical se deve a João Gilberto. Amigo de Luís Galvão, o criador da bossa-nova já morava no Rio de Janeiro quando, em 1971, o grupo se mudou para a cidade maravilhosa, tornando-se uma espécie de mentor e influência decisiva nos rumos musicais do conjunto. A letra de ‘Acabou Chorare’, inclusive, foi uma homenagem a João Gilberto, e composta na cobertura do cantor, em Botafogo.

Para entender a importância do grupo para a música brasileira é preciso lembrar os valores comportamentais adotados na época, que estão invariavelmente ligados ao contexto em que vivia o país. Contra o clima pesado de repressão política, havia milhares de jovens que preferiam o protesto libertário e a música de letras poéticas. O uso de drogas poderia ser uma opção ao engajamento político.

Havia ainda uma espécie de exclusão na música na década de 70: ou você gostava de samba ou de rock. Nem o músico, nem o público brasileiro, ousavam misturar os dois ritmos. A tropicália tentou desmitificar isso, em vão. Até que chegaram os Novos Baianos trazendo uma fórmula simples, mas avassaladora: um som regional acompanhado de guitarra elétrica e bateria foi suficiente para criar a harmonia perfeita.

Mistura que deixou o nome do grupo marcado para sempre na história da música popular brasileira. Uma lista elaborada pelo júri da revista Rolling Stone, em 2007, elegeu o LP Acabou Chorare (1972) como o melhor álbum brasileiro de todos os tempos. A inovação e originalidade de seu samba eletrizante, além da pegada de modernidade que deram a algumas pérolas do cancioneiro tradicional brasileiro, justificam o título. A identidade da banda está presente em hits como “Brasil Pandeiro”, “Acabou Chorare”, “Mistério do Planeta”, “Preta Pretinha”, “A Menina Dança”, “Swing do Campo Grande”, “O Samba da Minha Terra”, entre tantos outros, que estão no repertório da nova turnê.

 

 

 

Fé e louvação na veia!

Seja sozinha ou ao lado dos companheiros do Novos Baianos, Baby do Brasil se mantém surpreendente e poderosa no palco. Ao assistir a sua apresentação solo, por exemplo, fica fácil perceber sua capacidade de conduzir um show como poucas artistas de sua geração – mesmo diante dos embaraços causados pelos pedidos da artista para o público não direcionar a fumaça de seus cigarros ao palco. Desde que se tornou evangélica, a cantora não gosta de falar sobre drogas e garante que a louvação é melhor que qualquer efeito entorpecente. “Não tem maconha nem cocaína que dê essa onda! É louvor na veia batendo direto no braço!”, definiu. A convicção religiosa faz com que também altere alguns trechos de músicas como “Menino do Rio”, que se tornou um clássico na sua interpretação, nos versos: “Menino do Rio/ calor que provoca arrepio/Jesus Forever tatuado no braço/calção corpo aberto no espaço/ Coração...”.

Na entrevista que você confere abaixo, a artista revela detalhes sobre a nova turnê “Acabou Chorare: os Novos Baianos se encontram” e conta como conseguiu convencer os demais músicos a se reunir. Baby também resgata memórias da banda e fala sobre um dos aspectos mais fascinantes na história dos Novos Baianos: a experiência de criação coletiva de artistas que viviam em um sistema de comunidade.

 

Como surgiu a ideia desse reencontro da banda, na reabertura da Concha Acústica do Teatro Castro Alves, após a longa lacuna desde que vocês se separaram?

O convite se deu em razão de termos feito, durante a trajetória da nossa carreira, desde os tempos da ditadura, shows antológicos na antiga Concha Acústica. Conversamos e entendemos que esse era um momento de excelência.

Pela grandiosidade do projeto e também por trazer toda a memória da nossa trajetória para o público que nos acompanhou durante anos, e para o novo público jovem, que de uma maneira incrível, vem desejando esse encontro, e que cantam todas as músicas dos Novos Baianos. Então decidimos abrir os nossos corações de irmãos, para esse superencontro tão esperado por todos.

 

 

 

Quais são suas recordações dos tempos em que o grupo conviveu sob o mesmo teto?

Lembro dos nossos momentos tocando no galinheiro do sítio O cantinho do vovô, em Jacarepaguá [o grupo vivenciou uma experiência de “vida coletiva” em uma chácara, na zona oeste do Rio, nos anos 1970], decorado com edredons de chitão de flores, e do tempo do apartamento de Botafogo [eles dividiam o pequeno imóvel no bairro da zona sul carioca, onde receberam várias visitas de João Gilberto, que acabou se tornando uma espécie de “guru” da banda], onde nossas casas eram cabanas distribuídas ao longo do grande apartamento de cobertura onde morávamos, e a minha cama era presa por grossos fios brancos, no teto da varanda, rodeada por uma cabana de colchas de crochê.

 

O que mais você sente falta dessa época?

O que sinto falta dos tempos da banda é de tocar com meus amigos todos os dias, no meio dos pés de carambola, laranja, manga e jenipapo. Do sistema de alto-falante preso nas mangueiras, tocando “Brasileirinho”, com Waldir Azevedo e Ademilde Fonseca; “Noites Cariocas”, com Jacob do Bandolim... Do final das tardes em que sempre nos reuníamos para tocar por amor à música e pelo prazer e admiração de estarmos juntos naquela experiência extraordinária de vida!

 

Como definiria aquela experiência artística e de vida coletiva que foi a banda?

Uma experiência de amor, de fé, de coragem, união, ousadia e arte! Formamos uma família, dividimos tudo para sobreviver a tudo. E vencemos! Porque tínhamos Deus no coração e caminhamos com honestidade e pureza de alma. Conquistamos o nosso objetivo sincero: deixar uma música de qualidade, bela, com características brasileiras, que atravessasse gerações e permanecesse para sempre na história da nossa música. Além de uma preciosa experiência de vida para as futuras gerações, através dos 10 anos que moramos juntos, dividindo tudo para multiplicar.

 

 

 

Qual foi o momento mais marcante na carreira dos Novos Baianos?

Quando João Gilberto chegou na nossa casa, através do nosso poeta Galvão, o ícone da Bossa Nova era amigo de infância do letrista da banda, e por várias noites esteve conosco, nos ensinando e trazendo toda a brasilidade que necessitávamos para sermos os Novos Baianos. Nós fizemos uma homenagem a ele no show na Concha, pois temos muito a agradecê-lo por todo o cuidado e amor que teve conosco. Ele nos ensinou a cantar e tocar “Brasil Pandeiro”, entre outras pérolas da música brasileira. Por isso ele foi e é uma bênção nas nossas vidas.

 

O que o público pode esperar do show “Os Novos Baianos se encontram”?

Da parte do grupo, será um encontro emocionante! Há muito tempo não ficamos todos juntos. Vamos cantar, tocar, dar muitas risadas e lembrar dos momentos incríveis que vivemos. Lembrar de João Gilberto nos ensinando Bossa Nova. Será um tempo único! Da parte do público, será mais um grande momento, também muito emocionante. Sentir o carinho e amor de todos, ouvi-los cantando as músicas... Vamos ficar muito sensíveis a tudo isso. Será uma integração muito forte!